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HEINZ G. KONSALIK
PARASO MORTAL
Publicaes Europa-Amrica

Pousou a raqueta de tnis em cima da secretria, levantou-se do sof e 
tentou novamente. O cabo brilhava num vermelho quente, cor de vinho borgonhs, 
numa parte escurecido pelas suas mos transpiradas de tanto batalhar em jogos 
de tnis; no entanto, mais acima, estava aquele remendo azul, to feio!
Horrvel...         
Tim tinha comprado a fita adesiva no Beinzierd, em Rottach, e conseguira 
coloc-la bem apertada no stio rachado do cabo da raqueta. Continuou a enrol-
la lenta e ponderadamente, como se estivesse a cuidar de um dos seus doentes.
Estava a ir bem, sim. Mas a cor! E depois, no tinha uma tesoura na 
secretria. Dar um pulo at ao consultrio? Mas que palerma!... Por que no 
usaste logo fita Leukoplast?
Deixou cair a fita. Cansado, encostou-se  beira da secretria. Quarta-
feira... a sua tarde de folga! Quatro horas, e s cinco comeava o jogo no 
clube. 
Franz costumava chegar mais cedo. E de certeza que trazia a sua Anneliese... A 
ideia no agradava muito a Tim, mas Melissa iria tratar dela, e o problema 
estaria resolvido.
Isto queria dizer o qu?         
Foi at  janela. "Ora, qual tnis em Rottach! No precisas de reparar a 
tua Wimbledon. Compra uma nova! Para a prxima quarta-feira." O cu estava 
cinzento, cor de ardsia. L longe, no horizonte, comeava a encher-se de um 
negrume como se fosse tinta; apenas para os lados de Hirschberg  que se tinha 
aberto uma nesga de luz, espalhando o seu ltimo brilho aguado sobre a 
cordilheira, as colinas, aldeias, quintas e um lago cor de chumbo...
Caramba! De um momento para o outro ia comear novamente.
 uma e meia, quando Melissa estava a tirar a carne de porco assada do 
forno, j tinha comeado: algumas gotas, depois um curto aguaceiro - e a seguir 
aquele l em cima cedeu  razo e fez terminar a chuva contnua do Tegernsee 
com o mais bonito dos arco-ris.
Desta vez no pararia de chover.         
Tim agarrou na maldita Wimbledon, puxou a estpida da fita azul e - 
merda! A fita trazia o revestimento do cabo atrs de si; como uma minhoca 
vermelha, cor de vinho tinto, foi-se enrolando at ao seu joelho. Atirou com 
tudo 
para dentro do cesto dos papis: raqueta e minhoca.
Quarta-feira. O teu dia de folga!         
Ligou o televisor. Que viu? Uma praia longnqua... ondas azuis... um hotel 
branco com campo de tnis, que a cmara zoom fazia aproximar com uma 
velocidade louca. No campo de tnis, um homem da sua idade, que, com a 
raqueta na mo, corria atrs de uma mulher jovem.
"Com prazer activo, a vida  melhor! A sua vida est assegurada 
connosco... "
Aborrecido, desligou o aparelho. Os parvos da publicidade! Com prazer 
activo? Com prazer activo - e da a um bocado ia chover a cntaros?! E, alis, 
jogar tnis? Apenas um modelo de comportamento j gasto. O consultrio estava 
fechado. Jogar tnis com Franz. Que mais havia de fazer? E depois uma cerveja 
ou duas, a tagarelice de Anneliese e o palavreado sem fim sobre aborrecimentos 
com doentes, tramias da Caixa de Previdncia, poltica de sade, coisas que 
Melissa tanto detestava...

Alis, onde se tinha metido Melissa? Por que razo no tinha ido com ela 
para Munique? Afinal, de Tegernsee estavam fartos a semana inteira. Sim, 
Munique. Ao cinema. Woody Allen, por exemplo. Como diziam hoje no jornal? 
"No perca a nova revelao de Woody Allen..." "Mas esse filme conheces tu. s 
o prprio Woody Allen, talvez o dobro do tamanho e de certeza trs vezes mais 
pesado, mas o que andas a fazer  mesmo uma tourada  Woody Allen!"
Tim conseguiu sorrir novamente.         
Naquele instante, o telefone f-lo estremecer. Trrrim!... Reflectiu. Lidava 
com o seu nmero de telefone de um modo avarento, como se fosse o seu nico 
patrimnio de valor.  que as pessoas que podiam assim simplesmente ligar 
para o Dr.Tim Tannert eram contadas pelos dedos. A mam? Essa estava com 
Irma, graas a Deus, e a irm de Tim. tinha, aps longos anos de experincia, 
desenvolvido um sistema infalvel. Conseguia pr a avozinha em tal movimento 
que ela j no tinha tempo para telefonar.
Ento quem?         
Tim. sentiu um mau-estar que lhe subia pelo corpo.
- Tannert.
- Ora, felizmente, ptimo...         
Pessoas particulares deixavam-no em paz com as suas mazelas, com 
excepo de alguns casos raros. E este era um deles.
- So os gatos? - perguntou Tim. - Ou trata-se de ti? Havia apenas uma 
nica pessoa que ele ajudava no s como mdico, mas tambm como 
veterinrio. E Helene Brandeis no tinha dois gatos, tinha quinze!
- Tim, quem me dera assim fosse.
- Ento, o que ?
- Ah, Tim... - Helene Brandeis era toda ela um fenmeno, e a sua voz no 
era uma excepo. Um rgo bastante ferrugento e, no entanto, de uma 
sonoridade como de um bartono de pera. A rouquido no chegava a riscar as 
palavras, mas desenvolvia-as at ao dramtico; provinha das cigarrilhas, que 
Helene Brandeis continuava a fumar imperturbavelmente, apesar dos avisos de 
Tim e dos 75 anos que tinha.
- Uma pergunta, Tim: que vais fazer hoje?
- Eu? J sabes...
- Claro. Hoje  quarta-feira.
- Pois - disse Tim. - Quarta-feira! Olhou pela janela a poente da sala de 
trabalho e o seu olhar seguiu at ao cimo da colina. Ali, entre abetos pretos, 
emaranhados pelo vento, via-se uma casa, no, antes uma moradia, uma 
moradia em estilo juvenil, um acorde sombrio de torrezinhas, ameias, ressaltos 
envolvidos em hera e perdio pomposa.
Era ali que ela vivia. Talvez tambm estivesse a olhar do mesmo modo c 
para baixo?
Tim. tinha-se enganado...
- Doutor! Sabes onde estou?
- Daqui a pouco vai chover - disse ele, distraidamente.
O cu tornara-se cada vez mais escuro.        
- Por isso j eu passei. - Havia algo de oscilante na voz dela, o que Tim 
nunca tinha notado. - Alm disso, aqui ainda continua a chover. Tempo de 
cemitrio, como se v no cinema. E eu estou no cemitrio.  chuva. Sabes o que 
isso , doutor?

Tim ficou a pensar. Sim, sabia. Ainda no h muito tempo, h dois anos... 
A gua tinha-lhe escorrido para dentro da gola e a terra, aquele bocadinho de 
terra que ele tinha espalhado sobre o caixo de Klaus, estava to pegajosa que 
quase no conseguira tir-la da p. Nunca pensara que uma amizade dos seus 
tempos de estudo pudesse terminar daquela forma... Mas a Brandeis? Porqu 
ela?
Olhou novamente atravs da janela para o cu. Cinzento. Tudo cinzento. 
Uma cor como granito molhado, com rebordos de enxofre. Que significava 
aquilo? Onde estava ela?
- Mas onde  que ests, Helene?
- Onde estou? Mas  disso que estou a falar o tempo todo. Em Munique. 
No cemitrio da parte norte.
- E que ests a a fazer, no cemitrio da parte norte?
- Ora, e que  que se faz aqui? - A voz que ainda h instantes soava to 
energicamente, voltou a tremer um pouco.
- Acompanha-se algum  ltima morada, ou como isso se chama. Foi o 
que acabei de fazer...
- Ah sim? - Com alguma dificuldade, Tim pensou se seria agora 
apropriado dizer "os meus sentidos psames". Mas depois pensou: "A tua 
quarta-feira livre"! Ela no cemitrio da parte norte, uma milionria e herdeira 
de 
rolamento de esferas, que acompanha quaisquer pessoas at  sepultura?!
- No podes vir at aqui?
- Perdo?
- Trs a tua encantadora Melissa.
Por cima do Hirschberg reluziam os primeiros relmpagos. No se ouvia o 
trovo, ainda estava muito longe. Mas no...
- A minha mulher?
- Claro.
- Para onde? Para o cemitrio da parte norte?
- Bem, Tim, eu compreendo que isto  um pouco inesperado. mas eu 
quero ver-me livre disto, acredita. E seria bom se tu trouxesses logo tambm a 
tua encantadora Melissa. Ela h-de gostar.
- Receio bem - resmungou Tim num mpeto desesperado por mostrar 
humor - que ela me repreenda.
- Mesmo assim, Tim, por favor!
- Eu bem quero ajudar, s que...
-  to importante para mim! E para vocs. Acredita em mim. Olha: 
segunda-feira que vem, vocs fazem um ano de casados. E queriam festejar o 
dia no estrangeiro, no  verdade?
Tim acenou com a cabea, um pouco atordoado. No se lembrava de ter 
falado sobre isso com Helene Brandeis. Ou tinha falado? Talvez tivesse sido 
Melissa... No havia outra explicao.
- E ento? - perguntou cautelosamente.
- E ento? Agora que a Luise... Em todo o caso, eu tenho uma 
oportunidade, uma ideia excelente, acredita.
- Acredito.         
-  realmente uma proposta fabulosa. S precisas de vir c, dizer que sim, 
e ters o melhor dia de aniversrio...

Calou-se. Eram soluos que Tim parecia ouvir? Repetir as palavras "dia 
de anos de casado" ultrapassava as suas foras. Tim engoliu em seco. Teria 
aquele funeral importunado tanto a velha senhora? Talvez tivesse febre? No era 
de admirar, com aquele tempo horrvel.
- Mete-te no carro e vem!
- Para o cemitrio da parte norte? - repetiu Tim, como um idiota.

Cemitrios...         
Btulas, faias, buxos. Abetos e salgueiros, que deixam pender os seus 
ramos sobre as campas.  volta, o muro. E, naturalmente, o pensamento de que 
sob tais rvores, atrs de tais muros, tudo ir terminar um dia... Tim 
partilhava a 
sua averso quase patolgica a cemitrios com a maioria dos mdicos. Afinal, 
que era a sua vida seno esfalfar-se ano aps ano, durante vinte e quatro horas 
e 
cinquenta e seis semanas, contra o cemitrio?
Em Melissa encontrou uma forte resistncia:
- A Brandeis? Para Munique? E ainda por cima no cemitrio?! Olha l, 
ests a falar a srio?
Ah, Melissa! Tinha acabado de apanhar a roupa l de fora, no a tempo 
antes da chuva, mas quase. Deixou deslizar o seu vestido azul e hmido, de 
andar por casa, e ali estava, pernas longas, furiosa, branca, nada no corpo alm 
das calcinhas e do soutien. Pintas de sardas sobre os ombros delicados. 
Caracis de um vermelho cintilante, agora hmidos da chuva. Se ele, apesar das 
contrariedades que a vida trazia consigo, acreditava firmemente numa felicidade 
exclusiva, fabulosa, apenas destinada a ele, s o podia atribuir a Melissa. Ou 
melhor, ao facto inexplicvel de um tal ser, sado de um livro de contos de 
fadas, 
se ter decidido por ele.
Oh, a sua Melissa!...         
Bem, Helene Brandeis tinha razo, estavam prestes a fazer um ano de 
casados.
- Uma proposta fabulosa, disse ela?         
Nos olhos de Melissa, uns olhos de um verde to indescritvel que quase o 
tornava devoto, despertaram pequenas luzes. Danavam. Luzes de ira. As 
narinas inchadas.
- Fantstico! Uma proposta!... E eu, afinal, que sou eu para ti? J que est 
a chover, ento...
No terminou a frase. Como sempre que lutava por se controlar, pegou 
num dos seus caracis vermelho-dourados e enrolou-o exasperadamente  volta 
do indicador. Melissa nada mais que indignao de pele branca e olhos verdes.
- Tu queres mesmo...?         
Claro que Tim no queria. Mas tambm era claro que prevalecia o que 
Melissa chamava a "sua bondade sinceramente inconstante". Uma Helene 
Brandeis desesperada?! J isso era pouco imaginvel, mas deixar sozinha uma 
senhora de idade, que acabava de estar  chuva num cemitrio, implorando 
ajuda e que ainda por cima enriquecia o seu pedido com propostas loucas - 
como era isso possvel? Quem era capaz disso? No um Tim Tannert.

O muro de tijolo preto-avermelhado brilhava, molhado. Tim viu de longe as 
rvores do cemitrio, que tanto detestava, e  entrada um grupo de chapus-de-
chuva pretos.
Saiu do carro e tentou orientar-se. Ali, do outro lado da avenida, estavam a 
casa de jardinagem do cemitrio, os escultores de lpides tumulares, casas 
funerrias ... No eram bem as imediaes do tal restaurante italiano que ela 
tinha indicado como ponto de encontro. Mas efectivamente, e mesmo ao lado do 
sinal de estacionamento proibido, Tim avistou um carro que conhecia: um 
Mercedes antiqussimo, castanho, com uma traseira de linhas arredondadas, 
majestoso. Um autntico como  Adenauer: o Daimler de Helene Brandeis. Ela 
adorava-o. Um homem que ainda por cima se chamava Ernst Putser (Homem de 
limpeza) e servia como o faz-tudo na moradia da colina puxava-lhe o lustro 
diariamente. Alm disso, o Mercedes tinha sido baptizado com um nome que 
exigia respeito: "Sir Henry". Porm, nos dias em que a velha senhora tomava o 
volante de Sir Henry, este transformava-se no horror da freguesia. Os polcias 
de 
trnsito fugiam dele com um salto, no havia sinal vermelho que no fosse 
menosprezado e no havia sinal de estacionamento proibido ao lado do qual ele 
no estivesse confortavelmente  espera da sua patroa.
Este era um desses momentos.         
E logo a seguir ao tejadilho castanho de Sir Henry, Tim leu: "Ristorante."
Ali estava ento Helene, sentada na ltima mesa, no ltimo canto, meia 
encoberta por um grupo de pessoas de sobretudo, chapu e fato preto. 
Molhadas. Estavam todas molhadas.
- Eh! Tim! Para aqui!
Tim empurrou casacos hmidos para o lado.
O vestido preto de Helene Brandeis era dramaticamente realado pelo 
azul dos seus olhos, os muitos caracoizinhos brancos a atirar para um azul-
esmaecido e a gola branca com o camafeu no decote ao pescoo: ela tinha 
qualquer coisa  sua frente. Uma colher l dentro, oblqua e indecisa. No 
cinzeiro, 
fumegava a inevitvel cigarrilha da marca Rosana. Helene pegou nela.
- Senta-te, Doutor! Que bom teres vindo. Como foi a viagem?
- Horrvel. Chuva torrencial at Rosenheim.
- Um conhaque?         
Tim acenou com a cabea.
- E a tua encantadora Melissa?         
Era precisamente nela que Tim estava a pensar, cheio de tristeza e 
desgosto.
- Nas minhas tardes livres, a encantadora Melissa no tem saudades de 
cemitrios.
- Ah, sim? Sim, sim, claro...         
Helene Brandeis encostou-se para trs e envolveu-se em nuvens de fumo. 
Tim bebeu o seu conhaque de um s golo. Tambm no ajudou muito.
-  verdade, acreditas no renascimento? - saiu a voz de Helene da cortina 
cinzenta.
- Perdo?
- Reincarnao. A Marie-Luise acreditava nela. A minha prima. Acabmos 
de a sepultar. Para ela, sabes, agora a roda da vida continua a girar. Ser que 
regressa? Talvez como r, que achas? Ou como gato?

- Bem... - Tim tentava ganhar tempo. No precisava de procurar uma 
resposta, a velha senhora voltava a atacar com uma nova pergunta.
- Diz-me, conheces Formentor, Tim?
- Formentor, que  isso?
No obteve resposta. Helene Brandeis fez um sinal ao empregado de mesa, 
pagou e levantou-se com a ajuda de Tim. Segurou-a com cuidado, pois ela 
parecia um pouco confusa, o que no era de admirar, naquela idade e naquela 
situao.
- Sabes - sussurrou ela, enquanto se esgueirava entre as pessoas -, ela 
tinha sempre assim um corao fraco, a pobre da Marie-Luise. Era gorda de 
mais. Tinha pensado em vir para ao p de mim na colina, para tomar conta dos 
gatos. Mas agora j no pode ser...
Tim acenou com a cabea. A velha senhora apertou a mo ao senhor 
gordo com aquele imponente cabelo denso e preto e, aparentemente, era o dono 
do restaurante, pronunciou algumas palavras e seguiu, majestosamente, como se 
estivesse sozinha, em direco  sada. Ainda sob a proteco do alpendre, 
parou.
- Agora tens de me levar, Doutor. Conheces o meu Sir Henry, no  
verdade?
- Sim, e o meu carro?
- J est tudo tratado. - Mostrou um leve sorriso amargo. - Tem de ser 
assim: na minha idade precisa-se de um stio que se frequente habitualmente nas 
proximidades do cemitrio. Seja como for, o dono do restaurante recebeu um 
cheque. O filho dele leva-te o carro para casa e estaciona-o em frente da tua 
porta.
- O filho dele? Sim, e os documentos?
- Bem, trata l disso.
Foi o que Tim fez. Sentia-se atordoado. E assim, no teve outro remdio se no 
acenar com a cabea, quando a acomodou naquele Mercedes 300 grande, 
cheirando a couro, e a ouviu dizer:
- Sabes, Tim, este  um dia especial. Tambm para ti. Hs-de ver.
- Pois sim. Mas...
- Num dia especial devia prescindir-se da palavra "mas". Prometido?
- Sim. Mas para onde seguimos?
- Para uma agncia de viagens. Centro...

A agncia de viagens situava-se na Maximilianstrasse e era muito distinta. 
No interior, mrmores, cromados, madeiras de teca; no exterior, uma srie de 
zonas de estacionamento proibido.
- Para o passeio, Doutor! - ordenou a velha senhora.         
Bem, se era assim que ela queria...
Sir Henry balouou indignadamente; Porm, deixou-se estacionar de boa 
vontade sobre o passeio.
Na sala grande semi-redonda dominava uma secura agradvel. 
Fotografias a cores luziam de molduras em madeiras nobres: colunas gregas 
diante de um cu de um azul resplandecente. Rodes e a Acrpole. Uma praia 
turca dourada. Os Estados Unidos estavam representados pelo Grand Canyon, 
vermelho e flamejante. "Just come over and see" via-se escrito por baixo. A 
praa 
de S. Marcos, com milhares de pombas brancas. E  direita? Parecia Verona...

Tim desviou-se para a direita, para deixar entrar um homem plido, magro, 
molhado at aos ossos, que praguejava, agitando o seu
chapu-de-chuva. Tim observou-o com simpatia. Que  que um tempo daqueles, 
to horrvel, podia trazer, seno gripe e frustrao?
- Tim! Onde ests?... Anda da!         
A voz rouca pertencia  velha senhora. Ali estava ela: uma coluna negra,  
volta da qual esvoaava um senhor queimado pelo sol e vestindo um casaco de 
cabedal. Aparentemente, o do casaco de cabedal era o director da agncia. At 
as secretrias e as empregadas cravavam os olhos neles. S o diabo podia 
saber como  que ela o conseguia, mas Helene Brandeis nunca precisava de 
mais de um minuto e j era o centro das atenes.
- Vem para aqui para ao p de ns, Tim!         
Tim foi.
- Apresento-te o Sr. Pichler - disse Helene - Este  o Dr. Tim Tannert, meu 
bom amigo e mdico de Rottach. Posso-lhe dizer j uma coisa, Sr. Pichler; nas 
redondezas, no h melhor mdico! Se um dia passar pelo Tegernsee e tiver 
problemas...
- Muito prazer! - disse Pichler, radiante. Apertou a mo de Tim de tal forma 
que lhe ficaram a doer os dedos. - Talvez fosse melhor passarmos para o meu 
gabinete, minha senhora. A podemos resolver logo o assunto.
O assunto? Cus, que assunto?         
Tim era mdico de Clnica Geral numa freguesia composta, por um lado, 
por lavradores conhecidos da Alta-Baviera, e, por outro, por pensionistas ricos 
e 
esquisitos. Portanto, no s tinha de tratar de polegares cortados de 
trabalhadores, das formas mais diversas de abuso de lcool e de narizes 
partidos aps brigas de taberna, mas tambm doenas de toda a espcie dos 
pensionistas. O que mais desejavam dele era a sua ndole de mdico de 
provncia, gentil, compreensivo e sempre pronto a ajudar.
Isso tinha ele mostrado o suficiente nesse dia. Levar para casa Helene 
Brandeis na sua quarta-feira de folga, aps o funeral da prima Marie-Luise?
Claro que gostava de Helene. Era uma mulher impressionante, no s 
porque fumava cigarrilhas e mantinha na sua moradia na colina quase um asilo 
para gatos, mas porque a velha senhora tinha realmente classe., que comprovava 
com os elevados honorrios que pagava. Mas isto j ia longe de mais.
Tim mantinha com alguma dificuldade o equilbrio na beira de um sof cor 
de framboesa, porque no meio deste ficava-se enterrado como numa cama de 
penas. Entretanto, no seu gabinete, abrigado da chuva e da ventania, o Sr. 
Pichler, bastante dinmico e com a sua poupa elegante, que continuamente 
sacudia para trs, mostrava o que sabia.
- Mas evidentemente, minha senhora. A uma cliente to antiga, que tanto 
prezamos... faremos todos os possveis para ir ao encontro dos seus desejos. J 
ao telefone lhe tinha assegurado isto.
- Mas no disse, Sr. Pichler, que faria todos os possveis. Helene tinha-se 
erguido, a sua cigarrilha tinha um ar ameaador em direco ao peito do Sr. 
Pichler. Os seus olhos azuis fitavam-no com dureza:
- O senhor disse que tudo iria ser tratado sem qualquer hesitao.

- Com certeza, minha senhora.         
A cara de Pichler adoptou a expresso de um homem que aprendera a 
reconhecer a tempo derrotas inevitveis.
- A senhora deseja anular a sua reserva Formentor?
- Anular? No quero anular nada... Mais uma vez, o senhor no ouviu nada 
daquilo que eu disse! Ento eu disse-lhe ao telefone que a minha prima Marie-
Luise, repentinamente... Bem, o corao dela nunca esteve muito bem, e ainda 
por cima adorava "Schwarzwlder Kirsch" e coisas assim. Eu dizia sempre: 
Marie-Luise! No teu lugar s h uma coisa a fazer, reduzir essa gordura! Bem, e 
agora  tarde de mais.
Pichler esfregava as mos.
- Sim, um motivo trgico que a leva at a mim. Eu sei. Colheu um olhar 
pleno de cepticismo destruidor.
- O senhor no sabe nada. A Marie-Luise era a nica pessoa que sabia 
lidar com a minha bicharada, os gatos e os ces. Era precisamente por isso que 
eu queria que ela viesse para perto de mim, para a colina. Porque ao Putzer, o 
meu chauffeur jardineiro, no se pode confiar uma coisa dessas. J est 
sobrecarregado de trabalho. S pode tomar conta dos meus pequeninos durante 
o tempo de um funeral.  por essa razo que o doutor me trouxe at aqui.
Agora tambm Pichler parecia sobrecarregado. Soprava os cabelos da 
testa.
- Bem, vamos ao que  importante, Sr. Pichler: Quero que a minha reserva 
Formentor seja agora aqui passada para o Sr. Doutor. J no precisamos de 
uma suite para uma pessoa, mas sim para duas. E o senhor at lucra com isso, 
hem? Duas reservas, Sr. Pichler! Para o Sr. Doutor e a esposa.  no sbado que 
vo partir.
Tim engoliu em seco. Ergueu a mo, pois agora estava mesmo nervoso. 
Mas quem  que pode lutar contra uma Helene Brandeis?
- Vou passar-lhe j o cheque, Sr. Pichler. O que  importante  o Sr. Doutor 
poder levar os seus papis e os bilhetes. Vou-lhe oferecer a sua estada no 
Formentor para o dia de anos de casado. Entendeu agora?
Pichler fazia tudo por isso. Estava radiante. S Tim  que ainda no tinha 
entendido nada.
- Se existe algum que merea o Formentor - entoou a voz rouca de 
Helene Brandeis, enquanto a sua mo direita se erguia para o juramento, uma 
mo com dedos enfeitados de anis, entre os quais estava entalada uma 
cigarrilha fumegante - ento,  o Sr. Tim Tannert. Voc sabe o que significa 
estar 
o dia inteiro num consultrio? Trabalhadores bbados ou velhas malucas como 
eu para tratar? Bvaros teimosos, grvidas, alcolicos, drogados e sei l que 
mais?
Para Tim, agora as coisas estavam a chegar a um extremo. Encostou-se 
bem para trs no sof, estendeu as pernas e anunciou:
- Nem penso nisso!        
 Dois pares de olhos fitaram-no: um azul e cheio de consternao, o outro 
mais suave, mas confuso.
- Mas eu no sou nenhum pacote postal, E muito menos Melissa. No nos 
podem andar a enviar por a, sem mais nem menos.
A velha senhora de luto foi a primeira a controlar-se. Uma das suas 
sobrancelhas escorregou para a testa. Era a direita.

- No me baralhes, Doutor! O dia j foi bem mau. E alm disso: quem  
que andava por a a gemer, que gostava tanto, por ocasio do dia de anos de 
casado, de recuperar o dia de casamento, incluindo a lua-de-mel, porque no ano 
passado a festa foi por gua abaixo, porque tudo tinha sido estragado por uns 
trigmeos ou coisa parecida? Quem, Tim? Tu. E tambm a tua Melissa estava 
entusiasmada com a ideia. Pronto, Agora vo viajar at ao Formentor. No existe 
coisa mais bonita, mais fabulosa. No  verdade, Sr. Pichler?
- Sim,  realmente um hotel de sonho, minha senhora. Talvez o mais bonito 
de toda a Europa.
Era ento um hotel. Na cabea de Tim, argumentos, desejos e contra-
argumentos baralhavam-se num grande novelo: um hotel com o nome Formentor?
- E onde fica esse Formentor?
- Ah, ainda no te disse? Em Maiorca, claro.         
Claro. Tim virou a cabea para a janela. L fora chovia a cntaros. A 
cntaros, que queria isso dizer? Uma chuva torrencial batia contra os vidros.
Maiorca?
O seu corao alargou-se, os seus pensamentos foram levados para sul. 
J h muito que seguiam nessa direco. Helene Brandeis tinha razo: quantas 
vezes Melissa e ele tinham sonhado entrar num avio qualquer, assim sem mais 
nem menos... e ir embora! Por cima de pases e graus de latitude, para qualquer 
stio onde no houvesse pacientes nem associaes de mdicos de caixa, 
receitas e declaraes de impostos...
A sua boca tornou-se seca.
- Um momento, Sr. Doutor.
O simptico Sr. Pichler sussurrou qualquer coisa para o intercomunicador, 
e de imediato se abriu a porta. Para dentro do gabinete deslizou um daqueles 
seres cheios de estilo, sorridentes, que parecem pertencer a um estabelecimento 
daqueles.
- Rosi - ordenou o Sr. Pichler -, d ao senhor o folheto do Formentor.
Tim folheou-o. Nas suas mos ouvia-se o barulho do papel. Silncio e 
expectativa espalharam-se na sala.
"Formidvel!" devia ele dizer agora. O que correspondia  verdade. Os 
folhetos de hotis prometem sempre muita coisa - mas este? Fotos de sonho. 
Camas enormes, cortinados valiosos, que rodeavam uma vista que s podia ser 
designada de divina. Uma praia, palmeiras, barcos brancos  vela, montanhas.
E pessoas extremamente distintas numa sala de jantar ainda mais distinta.
- Ento, que diz agora?         
Sim, que devia ele dizer? Tim no disse nada...
Um homem ainda jovem e uma senhora j de idade seguiam pela 
noite fora em direco a sul... Sauerlach ficava j atrs deles e aproximava-se 
o 
desvio para Tegernsee.
O homem deixava deslizar o carro com indiferena, o que assentava bem 
 distino antiquada do cromo cintilante.

A oeste brilhava ainda uma barra vermelha por dentro das nuvens de 
chuva. Molho de framboesa por cima de papa de aveia, pensou o homem. Mas 
tambm com um pequeno vislumbre de esperana... "Maiorca", pensou, "na 
prxima semana! Uma suite de luxo com piscina. No Formentor! Caramba, que 
vai dizer Melissa?!"
- Pois , assim  a vida. - A velha senhora suspirou profundamente por 
detrs do seu crepe. - Um bocado esquisito, no , Tim?
Tim acenou com a cabea.
- Tenho a impresso de que ela nos observa...
- Quem? A sua Marie-Luise?
- Quem havia de ser?
- Talvez siga connosco?        
Helene Brandeis lanou um olhar rpido, no assustado, mas bastante 
atento, sobre o ombro, em direco ao banco traseiro.
- Podia ser. Por que no? Ela acreditava sempre no renascimento e 
nessas coisas esotricas. Mas para voltar a renascer ela ter de esperar ainda 
um pouco... E eu que lhe desejava tanto uma lua-de-mel assim ainda este ano!
- Como foi a sua lua-de-mel?
Ela riu o seu riso  Helene Brandeis, baixinho, rouco, vindo do fundo da 
garganta 
de uma empregada de bar:
- Lua-de-mel? Oh, Tim! To maluca a ponto de me casar  que nunca fui. 
Mas digo-te uma coisa: fiz coisas na minha vida que no chegam a uma lua-de- 
mel. Precisamente o Formentor, por exemplo... Deus queira que j no haja l 
ningum que se lembre de mim e de todas aquelas coisas.
- De qu?
- De qu? - J estava nomeadamente a pegar nas suas malditas 
cigarrilhas. - De Juan, por exemplo. Uma beleza de "rapaz-ol", s te digo. De 
Granada. Ou seria Mlaga? J no me lembro bem. Tambm no interessa. Juan 
era jardineiro, ou coisa parecida. Conhecia o parque. Existe l um pavlho de 
ch... e quando me ponho a pensar nisso, no Juan e no pavilho de ch... Mas j 
no posso fazer isso. Na minha idade deve sonhar-se com coisas simples... Por 
isso, vamos a um copo! Estende a a tua mo at s traseiras do meu banco, 
Tim. H a um compartimento e dentro dele est uma garrafa.
Tim estendeu a mo e apalpou metal fresco. A velha senhora desapertou o 
copo da garrafa e encheu-o.
Tim farejou-o.
- Usque?
- Acertaste. Toma, ficas com a garrafa e eu com o copo.  nossa, no, 
melhor,  tua e  de Melissa, no Formentor.
O vento da noite assobiava, fresco e hmido. Helene Brandeis tinha 
baixado a janela e atirou a beata para fora. No retrovisor, Tim viu como ela, 
igual 
a um minsculo cometa, descreveu um arco vermelho vivo, rebentando na estrada 
num ninho de fascas.
- Vs! - anunciou Helene com orgulho. - Deitei fora aquela porcaria, assim 
como me aconselhaste. Mas para isso vais levar-me at casa e vamos beber 
ainda um copinho com todo o conforto.
- E Melissa? - disse Tim com hesitao.
- Bem - achou Helene sabiamente -, o esperar aumenta a alegria final.

Dez minutos mais tarde, o Mercedes 300 rolava para o ptio da moradia da 
colina. J aqui se ouviam os gatos: vozes fracas de crianas, um coro inteiro de 
miados.
Um gato preto passou pelo ptio e os muros escuros e molhados 
pareciam acercar-se ainda mais. Diante das nuvens iluminadas pelo luar, l em 
cima, via-se o catavento, negro, como num filme de fantasmas.
- S cinco minutos, Tim - disse a velha senhora - no mais...
Tim ouviu as dez badaladas quando o txi o trouxe para casa. E os 
relgios de igreja, infelizmente, enganam-se raramente.
Olhou para cima. Sobre o telhado, de um buraco na nuvem, brilhava Vnus. 
E no fronto estava acesa uma luz solitria...
O quarto.
- Lissa!
O nome soou atravs do silncio da casa.         
Ao anjo barroco, branco e dourado, que lhe sorria na entrada, Tim 
pendurou o cachecol  volta do pescoo. Tinham-lhe dado o nome de "Jimmy" e 
tinha sido uma prenda mtua pelo Natal do ano anterior. Subiu. Tinha a sensao 
de que as suas pernas estavam um pouco pesadas.
Com cuidado, empurrou o puxador da porta.         
L estava ela, deitada, os ombros nus, rosados, bafejados pela luz do 
candeeiro da mesinha-de-cabeceira, o olhar fixo num livro. Mulheres que na cama 
se prendem a um livro tm algo de ameaador, achou Tim.
- Ol, ol! - To alegre como soava a sua voz, no estava o seu corao. - 
Sabes que ainda h pouco brindmos  tua sade? A Helene e eu... Sim, e  
sade de outros tambm. Por exemplo, de Marie-Luise...
Silncio. O despertador no fazia barulho, porque era electrnico, e 
mesmo assim Tim teve a impresso de que o ouvia.
"Melissa est aborrecida", disse para si prprio. "Mas tu tambm tens os 
teus trunfos."
- Trago-te palmeiras, Lissa! E cu azul, em vez desta chuva horrvel e 
eterna. E, claro, tambm o mar azul.
Afinal, ela sempre baixou o livro. Os seus olhos estavam mais verdes que 
nunca.
- E se carregares num boto - continuou ele a fantasiar com avidez - vem 
um empregado de mesa. De libr, claro. Ele traz-te o pequeno-almoo  cama. 
Ou champanhe. E isto tudo s trs da manh...
- Diz l!...         
Mas Tim no podia parar:
- Quando te levantares, Lissa, vais para a varanda e o teu olhar passa pela 
vasta praia de Alcudia.  uma das mais bonitas do mundo.
As duas pequenas rugas,  direita e  esquerda do nariz dela, 
estreitaram-se na vertical. O semblante de Melissa estava extremamente atento e 
concentrado. Tinha estudado Biologia e agora parecia que tinha descoberto um 
bichinho estranho sob o seu microscpio. Mesmo isso no estorvou Tim.
- No prximo sbado, Lissa, comea a nossa lua-de-mel! Ainda que com 
um ano de atraso, mas desta vez com reserva. E se agora volto to tarde... - 
acariciou a mo dela -  por causa do funeral. Marie-Luise deixou-nos ... Mas 
ela 
vai voltar, s que ainda demora algum tempo ... Entretanto, j regressmos. 
Olha, 
aqui est!

Meteu rapidamente a mo no bolso do casaco e empurrou o sobrescrito 
elegante azul, que continha os programas da agncia de PichIer, para a luz do 
candeeiro.
- O hotel mais bonito da Europa. Duas piscinas. Para ns, uma suite de 
luxo com cama de dossel. O ambiente adequado...
- Suite de luxo com cama de dossel? - eram as primeiras palavras de 
Melissa.
- Grtis, Melissa. Tudo grtis! Oferecido por Helene.
O livro de Melissa caiu com um estrondo para o cho. Sentou-se toda 
direita na cama.
- V l s estas fotos - insistiu Tim. - Olha-me s estes terraos! E o mar. 
Mesmo idlico, no achas? Olha ali, as montanhas. E no parque, Melissa, h um 
pavilho de ch. Ali j festejaram Helene e o seu Juan. Tambm ns vamos 
festejar...

Algumas nuvens por baixo da asa direita. Eram trs, uma grande e duas 
pequenas. A mais pequena at tinha um rebordo dourado. E l muito ao fundo, 
uma ndoa rosa-claro, que enviava fios finos como teias de aranha para a 
paisagem: a cidade de Marselha. A oeste estendia-se o mar azul.
Tim sentiu uma pequena dor sob as costelas. Tambm Melissa fazia uns 
grandes olhos atentos. Quantas vezes j tinham imaginado este quadro? E agora 
- graas a Helene Brandeis - tornava-se realidade. Realidade eram os bancos 
confortveis de primeira classe, era aquela hospedeira da Lufthansa, to 
encantadora e gentil, com um rabo de cavalo preto, sempre a balouar, era o bife 
de veado com croquetes de batata e mirtilo, o vinho de Mosela sobre a mesinha 
extensvel, a voz sonora do comandante que atenciosamente dizia do altifalante: 
"A temperatura do ar em Maiorca  de trinta e dois graus e para os prximos dias 
prev-se a continuao de bom tempo.  vossa espera est o melhor tempo de 
frias..." Havia tantas realidades que no se podia imaginar. A ilha que surgia 
l 
em baixo, o pequeno solavanco quando as rodas do avio reconquistaram o solo 
e, depois, ainda sobre a escada rolante, a primeira saudao de Maiorca: uma 
aragem quente, suave como a seda, misturada com o odor a gasolina e mar... 
Nada de poas de gua, nem nuvens - em vez disso, turistas e, neste caso, aos 
montes. Vinte minutos mais tarde, a bagagem de ambos encontrava-se j no 
porta- bagagens de um Mercedes grande, de um preto cintilante. Comparando 
com o Mercedes 300 de Helene de Brandeis, este estava novinho em folha. Nas 
portas da frente estava escrito HOTEL FORMENTOR, em letras douradas, 
minsculas e elegantes. At mesmo o motorista era uma sensao: com aqueles 
ombros largos, a cintura muito delgada e uns dentes incrivelmente brancos. Tim 
no pde fazer outra coisa seno imaginar Juan, o "rapaz ol" de Helene...
- Que achas disso? - quis saber Melissa.
- Corresponde ao estilo da casa - respondeu Tim.
- Exactamente. E de certeza que serve as milionrias americanas 
solitrias.
- Que ests tu a dizer? - Talvez tivesse razo. Talvez tambm Helene 
Brandeis...? No, revelar a esfera ntima de Helene  m-lngua de Melissa, isso 
tambm no queria Tim fazer.

- Mas gratuitamente no o tens, com certeza - achou Melissa, e seguiu, 
com o seu cabelo dourado a esvoaar, ao encontro da porta do carro: - De 
qualquer maneira, eu no teria dinheiro para o pagar.
Era de mais para Tim:
- Acaba com isso! Afinal, vamos festejar o nosso casamento.
- Por isso mesmo. - Melissa riu atrevidamente.         
Para chegar ao destino, havia ainda muito para andar. E assim seguiram 
atravs da ilha, atrs de vidros matizados e envoltos pelo bafo fresco do ar 
condicionado.         
Sobre as colinas viam-se quintas de lavradores, de cor de areia ou 
amarelo torrado. Melissa achava que pareciam como feitos de po. Viam as 
torres de monhos de vento. As velas, dizia Melissa, j deviam ter sido 
queimadas 
h muito. Um pouco mais afastados da estrada surgiam castelos, conventos e 
torres de igreja extremamente venerveis. Em grandes cestos,  beira da 
estrada, vendiam- se tomates muito vermelhos e laranjas brilhantes. Das casas 
pendiam rsteas de alhos. Tudo isto, de certeza, para fazer parar os turistas e 
obrig-los a comprar. S que estes no o faziam; andavam a vaguear por a em 
carros alugados ou seguiam elegantemente em Mercedes de hotel climatizados, 
como Melissa e Tim. No viam o mar. Ainda no.
Em contrapartida, viram uma carroa de grandes rodas, Puxada por uma 
mula. O homem sobre o assento tinha puxado o chapu para a cara.
- Caramba! - disse Melissa admirada -, aquele est a dormir enquanto 
anda!
- Deves estar a sonhar. - Mas Tim ainda pde olhar... e de facto...
O velho maiorquino sobre o assento tinha os olhos cerrados! A, Tim 
comeou a sonhar: Mas que pas! Era disso que ele precisava. Comprar uma 
mula e deixar-se levar de doente para doente, dormindo. Teve uma sensao de 
respeito.
E agora, finalmente... A cor azul logo ali! As colinas estendiam-se at ao 
mar e este estava rodeado, como que num abrao, por duas lnguas de terra.
O motorista ergueu o brao:
- Ali, Alcudia. Esto a ver?
Sim, estavam a ver.
- E para a esquerda segue-se para o Formentor.
- Parece quase a crista de um drago - achou Melissa.
- Vamos j passar por ali - disse o motorista, num alemo perfeito. Onde 
teria aprendido? Mais uma vez, Tim pensou em Helene Brandeis... Tinham 
passado a crista, o que no durou mais do que quinze minutos. Mas que minutos! 
Serpentinas que provocavam tonturas, rochedos que caam a pique para dentro 
das ondas furiosas, pinhais solitrios - e mais uma vez rochedos, paisagens que 
no s entusiasmavam, mas tambm provocavam uma sensao estranha no 
estmago.
- Uma paisagem tpica de Wagner - achou Tim -, falta s o navio fantasma.
Mas depois o mundo abriu-se e tornou-se claro. Via-se um vale 
encantador, paradisaco, em que brilhavam flores como ninhos coloridos. E atrs 
das flores, novamente o mar, luzindo, azul e saudando. Alm disto tudo, aquele 
cheiro: pinhais e rosas!

Tim respirou bem fundo. Estava mesmo emocionado.
- Fantstico! - disse. Agarrou a mo de Melissa e apertou-a. - Mesmo 
fantstico. Mil vezes mais bonito que a Grcia.
Tinha estado l uma vez, em Lesbos, numa carrinha Volkswagen, com um 
grupo de assistentes de uma clnica de Essen.
Melissa sorriu. Sorriu com amor maternal. De repente, comeou a 
movimentar-se; debruou-se para a frente e, com um pequeno solavanco, 
aproximou-se do motorista, exclamando:
- Pare, por favor! Quero sair!
O motorista parou.
- Como?         
Tambm Tim engoliu em seco.         
Mas ela j tinha aberto a porta.
- Anda da, Tim! No vs? Ali  frente est o Hotel.  frente? Sim, l ao 
fundo, atravs de uma sebe de troncos altos e vermelhos, brilhava uma massa 
branca. Viu placas indicadoras: "Para o campo de golfe", "para os campos de 
tnis". Tudo o que o Formentor tinha a oferecer era indicado por placas com 
pequenos bonecos brancos.
Depois as flores, exploses completas de malmequeres amarelos e rosas, 
ibiscos, oleandros, e rosas pelo meio.
Melissa ria. E quando ria, parecia uma daquelas raparigas dos cartazes 
das agncias de viagem.
- Anda da!
O motorista, com a sua cara morena de rapaz "ol", deitou um olhar 
interrogador a Tim.
- V levando a bagagem para o hotel - disse Tim, comeando a caminhar. 
Ali, entre ramos verdes e a escuma das ondas do mar, voavam os cabelos 
dourados de Melissa. Tinha ambos os sapatos na mo, corria que nem uma 
louca, que nem uma criana, j se tinha aproximado da gua, chapinhava com os 
ps descalos dentro de gua, atirando logo a seguir os sapatos para longe. 
Com ambas as mos, levantou a saia - de seda pura cor de reseda! Tinha 
vestido um dos seus conjuntos mais caros para a viagem: um hotel de luxo 
sempre era um hotel de luxo...
Tim no sabia se havia de ralhar com ela ou ficar apenas atnito.
- Olha l, no regulas bem? Ficas toda molhada.
- E depois? Olha Tim, tantas conchas! E que bonitas. Anda, vem ajudar a 
procurar.
Melissa tirou um leno da carteira.
- Mas no agora, temos ainda tanto tempo para isso!         
-  agora!         
- Olha para o hotel. Ainda  bem um quilmetro de distncia. Que ideia a 
tua de mandar parar o carro aqui!
Com um gesto rebelde, Melissa deixou voar o seu cabelo.
- Tim Tannert, ouve bem o que te vou dizer: pessoas com categoria no 
chegam ao hotel de txi. Tomam posse de alguma coisa. E isso faz-se a p. Ou a 
cavalo. Percebeste?
- No. - E como havia de entender? Ela era mesmo doida, mas se ele 
gostava de algo nela, ento era das suas ideias loucas.

E assim tomaram posse do Formentor. Comeou pelas cerca de duas 
dzias de conchas que Melissa foi apanhando na praia. Eram s riscas pretas e 
brancas, amarelas, rosa, vermelho-escuras, e todas foram parar ao leno de 
Melissa. E assim, um ao lado do outro, Melissa com a saia rasgada, pois ficara 
presa num ramo seco, o casal Tannert seguiu, assobiando alegremente, todo 
descontrado, como duas crianas, em direco ao edifcio grande e branco...

O trio era elegante e de uma vastido inundada de luz como um campo 
de futebol. E elegantes tambm estavam os dois senhores, nos seus jaquetes 
pretos sem qualquer mcula e com gravatas de seda cinzentas e brilhantes, atrs 
do balco de mogno da recepo. Um deles chamava-se Felix Pons e era desde 
h vinte anos o chefe da portaria do hotel Formentor. O nome do outro, seu 
assistente, era Luis Martinez. Pons era pequeno e redondo, e natural de Maiorca. 
O alto e magro Martinez era natural de Andaluzia, precisamente de Mrcia.
Martinez foi o primeiro a encontrar palavras:
- Diz-me l, Felix, ests a ver o que eu vejo?        
Felix Pons acenou com a cabea.
- Sabes-me dizer o que isto significa?
- Vamos j ver.
O que viram era, para as condies do Hotel Formentor, pouco usual. 
Aqui, pensionistas milionrios ou directores gerais de multinacionais 
americanas, 
holandesas, suas ou alems costumavam procurar descanso dos seus 
trabalhos extenuantes. Por vezes acompanhados das esposas, ou tambm das 
secretrias, que como era evidente tambm eram "senhoras". Detentores do 
Prmio Nobel vinham para o retiro do Formentor, escritores famosos, banqueiros 
da Frana e da Itlia, at mesmo da China, pertenciam  clientela do hotel. E 
todos vinham  procura de sossego. A aristocracia espanhola, tanto quanto ainda 
possua os meios para isso, polticos, chefes de estado, at mesmo Margaret 
Thatcher j estivera l, e tambm os reis de Espanha.
Mas como aqueles dois?         
De mos dadas, passaram pela porta, gingando como se estivessem num 
passeio de turma de escola, ainda por cima descalos, ele com as calas de 
ganga arregaadas, ela com os sapatos na mo esquerda, e na mo direita um 
leno que pingava...
- Mas que mulher - murmurou Luis Martinez. - Super... Este Luis! Era 
evidente que Feliz Pons entendera logo o que ele queria dizer; a mulher no s 
estava descala, mas tinha a saia rasgada, e o rasgo deixava aparecer uma 
coxa bem redonda e de lindas formas, ainda que salpicada de areia. E era loura, 
arruivada!
Ria abertamente.         
Qualquer hotel de luxo tem alguns hspedes especialmente excntricos, 
dos quais at se orgulha. Mas ser que no caso daquele casal esquisito se 
tratava de um desses?
Felix Pons estava bastante indeciso, quando os dois se aproximaram, 
ainda de mos dadas, ainda descalos.
- Fala alemo? - perguntou o homem alto e magro, mostrando rugas de 
expectativa sob o seu cabelo emaranhado. A mo que pousou no balco de 
mrmore estava salpicada de areia.
Felix Pons levou a mo  gravata:

- Desculpe, senhor. Este  o Hotel Formentor.  claro que falo alemo.
Tim acenou com a cabea, submisso. Tinha feito um golo na sua prpria 
baliza. Olhou por cima do ombro. Um pouco mais longe estava a bagagem deles. 
At mesmo aquela mala velha verde do seu tempo de estudante em Goettingen. 
E ao lado dela encontrava-se "Juan", o rapaz "Ol", que a tinha trazido.
- Ali est a nossa bagagem.
- Ah, so os senhores? - disse Pons num tom j um pouco mais amvel. 
Outros hspedes passavam pelo trio. O que tinham em comum era uma cor de 
pele queimada pelo sol, roupas de Vero caras, o andar gingo e a idade. "Pois 
, uma coisa destas, uma pessoa s pode pagar a partir dos 60 anos", pensou 
Tim.
- Fizemos a reserva de uma suite - disse Lissa, pegando no livro das 
reservas. - Dr. Tannert. Tannert, de Tegernsee.
Felix Pons comeou a ficar mais animado. Folheou com rapidez.
- Dr. Tannert? Uma suite...         
E depois aconteceu uma coisa curiosa: abriu-se uma portinha no balco e 
dali saiu Felix Pons precipitadamente, as mos estendidas, os braos at 
mesmo abertos, inequivocamente demasiado exaltado para um chefe de portaria 
da sua idade.
- Oh, o Sr. Dr. Tannert! Os senhores so amigos de Madame Helene? Mas 
que alegria, que honra para ns!
Algumas cabeas voltaram-se no trio, os portadores de nomes de 
marcas caras ficaram atentos. At mesmo o "Juan" se levantou da sua cadeira 
atrs da bagagem.
- Madame Helene! Inesquecvel!  uma das nossas hspedes mais 
queridas, se bem que no a vejamos h j algum tempo.
Tim, olhou para os seus dedos dos ps. O grande da direita estava sujo de 
nafta preta.
- Tommos a liberdade de passar os senhores da suite 402 para a suite 
206. - Felix Pona debruou-se ainda mais. - Efectivamente, uma das nossas 
instalaes mais bonitas, Sr. Dr. Uma vista de sonho. Vai ficar satisfeito. 
Madame Helene telefonou-me hoje de manh e estou informado de tudo. Podem 
estar seguros de que no sero perturbados.
Tim moveu os lbios com dificuldade:
- Muitssimo obrigado.         
Atirou um sorriso oprimido a Melissa. Que ideia a deles de jogar  
apanhada na praia? E que ideia mais maluca de entrar num hotel daqueles 
descalos e passar por uma carpete daquelas...?!

Please don't disturb - S. v. p., ne pas dranger - Por favor, no disturbar - 
Por favor, no incomodar...
As lnguas universais luziam douradas sobre o pequeno carto que 
balouava no puxador da porta do quarto 206.

Ao lado da porta de madeira de cedro nobre estava um carrinho de ch. 
Sobre ele, pratos, chvenas e garrafas, trs guas minerais, duas garrafas de 
champanhe. Para impedir concluses precipitadas, no entanto, deve dizer-se que 
os dois utilizadores do quarto no estavam vidos de um erotismo exuberante 
para essa noite, antes pretendiam festejar a sua vitria sobre a inrcia humana, 
rir e, sobretudo, ser carinhosos, carinhosos at adormecerem. A propsito: o 
dossel da cama era de madeira torneada e veludo dourado. A vista era azul e 
assemelhava-se ao que tinham visto no folheto.
Aps terem superado o primeiro choque agradvel, acharam que tudo 
estava em ordem.
L em baixo, na recepo, o ambiente era diferente...        
- Pero, que pasa con estos? - quis saber na manh seguinte o chefe de 
portaria Felix Pons, com uma certa preocupao.
- Estn loucos - respondeu Luis Martinez, atirando um olhar para o tecto do 
trio, para o stio onde presumia ficar o quarto 206. Pensava em areia sobre uma 
pele branca, numa saia ragada e num cabelo volumoso, louro-avermelhado. E no 
mdico alto e desajeitado. A sua cara ficou verde de inveja.
- Bem possvel. - Pons acenou com a cabea pensativamente. - Com 
amigos da Seora Helene tudo  possvel...
Todas aquelas especulaes espanholas plenas de fantasia eram vs. Na 
realidade, naquele instante, ambos estavam sentados um ao lado do outro sobre 
uma grande toalha turca branca, diante deles as colunas de pedra do parapeito 
da varanda e, entre estas - apenas era necessrio debruarem-se um pouco - a 
vista sobre a vida de um hotel durante a manh...
- Isto  ento a imponncia de Maiorca? A nata da nata? Tudo 
milionrios...
- Bem provvel. Viste a lista de preos?
- Eu imagino os milionrios de uma forma diferente.
- Eu no.
- Conhece-los um pouco, no  verdade?
- Sim, um pouco.
- Eu s conheo a Helene Brandeis. A Helene  especial. Mas estes aqui...
- Para milionrios tm um aspecto bastante deprimido. E so velhos.
- Mas como queres tornar-te milionrio sem chegares a velho?
Com isso, ela tinha um bom argumento. Ele no se deixou perturbar:
- Ainda vou provar-te isso.
- Com atestado mdico, talvez? - perguntou ela melosamente.
Mas isso tudo no lhe interessava agora. E porqu? No havia outros 
problemas? Amanh, segunda-feira, faziam um ano de casados! No havia nada 
a alterar, vinha no calendrio. Apenas faltava o enquadramento, a organizao.
Algumas coisas existiam: a cama de sonho, a vista maravilhosa, um 
servio impecvel.
- Ouve - disse ele -, vou dar uma volta.
- Espera...
- At logo.        

 A mo dele descreveu uma forma no ar, e Tim desapareceu. Se quisesse, 
Tim Tannert podia competir com qualquer concorrncia em qualquer lugar. No 
tinha s aspecto, como era efectivamente um verdadeiro gentleman. Tambm 
agora, cerca de uma e vinte, quando seguia pelo caminho entre a piscina e o bar, 
sob palmeiras, o seu blazer cor de pau-rosa desleixadamente sobre os ombros, o 
parecia. A sua altura, a cara alongada, o andar, os seus olhos sorridentes... - 
como que puxadas por fios invisveis, as cabeas das senhoras nas cadeiras de 
repouso moveram-se. Faltava pouco tempo para o almoo, mas no era s por 
isso que alguns olhos brilhavam de um modo to faminto.
- O novo...
O novo surgiu alguns minutos mais tarde com um slip de banho, um 
balouar resiliente, o mergulho perfeito, um craw bonito! Que pena que do mesmo 
modo inesperado como este homem bem parecido tinha surgido, to 
surpreendentemente voltara a desaparecer. Para onde?
Sim, para onde?
Uma vista de olhos  sua volta tinha reforado a sua convico: Piscina - 
no obrigado. O hotel era realmente nico   o janota do Pichler em Munique tinha 
razo -, mas quando se observava os seus hspedes... No havia lugar para 
festejos. Infelizmente, no...         
Lentamente e pleno de pensamentos agradveis, Tim ia seguindo entre 
troncos vermelhos e altos de pinheiros. A vasta rea do hotel, com todas as suas 
varandas, os jardins, campos de tnis, campo de golfe, aninhava-se numa longa e 
suave encosta. Por cima dele, o vento cantava nos ramos, e o cheiro das rvores 
misturava-se com o cheiro escuro do mar.
-  direita na encosta - dissera Helene Brandeis, - Nesse pavilho ningum 
vos incomoda. Tm de ir l, vale a pena.
-  direita na encosta. Subitamente, avistou-o: colunas castanhas de 
arenito, seis colunas, por cima de um telhado redondo,  volta s flores. Um 
valado inteiro de cores; como cerca, oleandro cortado em cor de salmo, 
vermelho-carmim e violeta.
Tim comeou a andar mais depressa. Os ltimos metros percorreu-os, 
sem no fundo saber bem por que razo, em bicos de ps. O local de pecado de 
Helene. O pavilho de ch.
O cho era de mosaico e sobre ele havia uma camada inteira de patina de 
pecados. E o mais importante: havia cadeiras de repouso. E que cadeiras! 
Tambm elas tingidas pela idade, mas ainda muito bem conservadas. Cadeiras 
de convs inglesas, suficientemente grandes para receber uma famlia completa. 
E, alm disso, pecaminosamente confortveis. Tim desatou a correr, para 
informar Melissa.
- Incrvel! - exclamou Melissa com admirao, quando uma hora mais tarde 
foi inspeccionar o pavilho.
- Como um pequeno templo, no achas?
Depois, ela pensou de um modo prtico.
- Iluminao? Trazemos umas velas. E que vamos vestir? - Para Melissa, 
esse problema j estava resolvido. O vestido, do qual fazia tanto segredo, o 
vestido da "Boutique Manhattan" em Rottach. Ele no o podia ver, o que Tim 
achava extremamente injusto. Tim - compreende-se -, de gravata.
- E algo para comer.
- Claro.
E as bebidas? Sim, porque no Formentor no iam comprar champanhe. 
Com aqueles preos!...

Felix Pons, o chefe da portaria, tratou imediatamente de arranjar um carro 
de aluguer. Ainda nessa tarde, passaram a crista do drago e desceram at 
Pollensa, uma pequena vila engraada. Na praa do mercado, separaram-se. 
Cada um seguiu o seu caminho. Uma hora mais tarde, estavam novamente 
juntos, com pacotes e sacos de plstico, sentados num banco de pedra debaixo 
de pltanos.
Curioso, Tim observou o saco dela:
- Que est a dentro? Que tens a?
- No te digo. E tu?
-  simples...         
- Bebidas, no ?         
- Certo - acenou Tim com a cabea, um pouco casmurro. - Bebidas 
alcolicas. Queres que te diga uma coisa? Vou ver j as tuas coisas. Porque 
tenho uma ideia fantstica. E sabes qual? Fazemos um ensaio geral.
A ideia agradou a Melissa.
- Nada mau. Vestimos as nossas gabardinas e eu escondo as coisas para 
comer e tu as garrafas...
- Tu vais vestir o teu vestido.
- Isso no - protestou ela. - Assim, amanh est estragado.
- Hum... - disse ele pensativamente. O cu comeou a ficar cor-de-rosa do 
pr do Sol, quando regressaram ao hotel. No parque de estacionamento, Tim 
props uma alterao no programa.
- Para que  que preciso da gabardina? Pego j nas garrafas, vou 
andando e arranjo as cadeiras de repouso.
- Mas eu ainda me vou arranjar um pouco.
- Est bem, se assim queres. Para mim, ests sempre bonita.
Melissa sorriu com os seus olhos verdes, ele ainda a quis beijar. Ficou 
pela tentativa. Ela agarrou nos sacos e desatou a correr.
- No me deixes esperar muito tempo! - gritou Tim ainda para ela. - O 
grande espectculo  s amanh.
Melissa acenou-lhe com a mo e nem olhou para trs. Ele interrogou-se 
com seriedade e ar de dvida: como foste encontrar uma mulher daquelas? 
Mereceste-a mesmo, homem? Sinceramente?
Primeiro, Tim no o sabia. A seguir, ficou convencido de que sim...

Tim olhou para o relgio.         
Tinha passado mais de meia hora.         
H uns anos atrs que tinha deixado de fumar e nunca tinha tido problemas 
de desintoxicao. Mas agora? Pegou no mao de cigarros que Melissa lhe tinha 
enfiado no bolso. Uma sorte ter comprado fsforos para as velas. Acendeu um 
cigarro e aspirou profundamente e com certa amargura o fumo deste. Oito horas 
e vinte minutos...
Pela dcima segunda vez, ps em ordem as cadeiras de convs. A do 
desenho com rosas um pouco mais para trs, era mais decorativo, as outras 
podiam servir de mesa. Amanh... Hoje estava bem para a garrafa e os dois 
copos que Melissa havia de trazer da casa de banho.
C'os diabos, onde estava ela metida?         

Na rampa at ao hotel acenderam-se as luzes. Candeeiros grandes e 
redondos de ambos os lados. O ar tinha arrefecido um pouco e isso era 
agradvel. Tim saiu mais uma vez do pavilho, desceu trs degraus at ao 
caminho arenoso, seguiu os dez metros at  pequena plataforma e observou 
dali as filas de luzes cintilantes, que mais longe surgiam da neblina azulada da 
noite na baa. Quando dessa vez puxou a manga da camisa por cima do relgio 
de pulso, quase sentiu um certo alvio de ter escurecido de tal forma que no 
podia ler as horas.
"Ela est a pr-se bonita. E para quem? Para ti, claro, seu idiota!"
Pronto, as mulheres precisam de tempo. Tentou imaginar o que Melissa 
estaria agora a fazer: secar o cabelo?... Possivelmente, tinha tido a bela ideia 
de 
lavar o cabelo? E at que secasse, demorava muito... Mas no assim tanto. Mas 
porqu tanto tempo? Tinham passado trs quartos de hora desde que se tinham 
separado no parque de estacionamento. Mas porqu? "Por que  que ela te 
deixa aqui  espera?" O ponteiro do seu relgio passava das 21 e 45 para as 21 
e 46. Naquele minuto, Tim sentiu pela primeira vez um profundo mal-estar. Ou era 
j algo como um pressentimento? No - antes uma frescura esquisita, que corria 
pelas suas veias.
Talvez Melissa tivesse tido algum contratempo? Que poderia ser? Talvez 
no se sentisse bem? Um ataque de enxaqueca, uma dessas perturbaes 
vegetativas de que ela sofria de vez em quando?
De volta para o hotel! Mas que poderia ter acontecido? Deixou a garrafa 
de champanhe no stio onde a tinha colocado: sobre o largo apoio da cadeira de 
convs. Depois, comeou a correr; aps alguns metros, voltou a deitar um olhar 
para o pavilho de Helene. J s era uma sombra escura, quase ameaadora.
As luzes no parque indicavam-lhe o caminho. Tim ia agora devagar. 
Algumas folhas passavam pela sua cara e as lajes do caminho embebiam-se de 
escurido...

- Por acaso viu a minha mulher?
- Lamento, Senhor.         
Era o alto que estava de servio, a "haste de bandeira andaluza", como 
Melissa o tinha baptizado. A cara, uma forma oval impassvel, cor de azeitona. 
Dentro dela, dois olhos escuros indiferentes.
- No a encontra, Senhor?         
Sem dizer uma palavra, Tim voltou-se e deixou vaguear o olhar pelo trio. 
Num jarro chins enorme chamejavam gladolos. O trio estava quase vazio. 
Alguns hspedes estavam enterrados nos seus sofs, o jornal na mo. A maioria 
das senhoras devia de estar a arranjar-se para o jantar. E Melissa?
Quando seguiu para a suite pelo corredor silencioso, pareceu-lhe ser a 
nica pessoa no mundo. A respirao custava-lhe, como se uma corda se 
enrolasse com fora, mas silenciosamente,  volta do pescoo. Qualquer coisa 
tinha acontecido. Qualquer coisa...
Comeou a correr, empurrou o puxador: fechado.
- Lissa! - bateu com a mo contra a madeira. - Escuta, Lissa, sou eu! - 
Nenhuma resposta. Do outro lado do corredor vinha o leve zumbido do elevador.

- Lissa... Tim bateu com os punhos contra a porta; virou a cabea e viu 
diante da porta do elevador dois hspedes. Fixavam-no. A mulher vestia um fato 
claro de montar e era meia cabea mais alta que o seu acompanhante. Apesar 
da distncia, via-se bem marcada na sua cara, como numa caricatura, a 
admirao melindrada. Aquilo no eram maneiras... Ora francamente... E muito 
menos no Hotel Formentor!
Tim baixou os braos. "Ela levou a chave? Provavelmente est na 
recepo."
De novo para o trio.         
Desta vez, havia movimento no balco. Um grupo de pessoas quase se 
atropelava. Falavam ingls - aparentemente, americanos.
- Perdo.         
Tim tinha decidido desistir de amabilidades. Empurrou o brao para a 
frente e abriu caminho. Tambm no esperou que o segundo empregado da 
portaria se decidisse a prestar-lhe ateno.
- Oua l, est a a minha chave? Veja l!         
Dos olhares e das caras deduzia-se o que se pensava dele.
O empregado abanou a cabea com desaprovao.
- No, no est, Sr. Dr. Tannert.
- No, por que no? - "No se lembrou, s isso", gritava dentro de si. Foi 
at  sada, um rapaz abriu-lhe a porta, e Tim aspirou o ar da noite para os 
pulmes. Tinha a soluo: por que  que no se tinha lembrado disso mais cedo? 
Claro. Percorreu as escadas largas at ao parque de estacionamento e seguiu 
com uma certa leveza e alegria, pois sentia-se certo, porque tudo era lgico; ou 
no? Tinha a ver com a "grande surpresa" dela, o vestido novo.
Tinha-o vestido, para lhe fazer uma surpresa. Para no dar nas vistas, no 
passara pelo trio, mas seguira por uma sada lateral. Pelo bar do terrao, por 
exemplo. A essa hora no havia l quase ningum. E do terrao seguira por um 
outro caminho, passando pelos campos de tnis, at ao pavilho. E isto na altura 
em que ele, enervado por esperar tanto, voltava para o hotel.
Tinham-se desencontrado, nada mais...         
Entretanto, Tim tinha deixado o caminho principal iluminado. Ali estava a 
escada de tufo em que tinha tropeado  tarde. E dali subia-se para o pavilho.
Sentia agora o bater do corao. Tinha corrido demasiado depressa. 
Ofegava. Os ltimos trs degraus j estavam na sombra. A forma alta e escura do 
templo. As colunas de arenito brilhavam azuladamente. Colhiam a luz da lua, que 
se erguia por detrs dos montes.
"Melissa". No o pronunciou, apenas pensou. A desiluso corria por cada 
clula do seu corpo. J no correu os trs metros que o separavam da entrada. E 
por que havia de o fazer? J o sabia nesse instante: Ela no estava l.
Subiu. A garrafa de champanhe estava ali, onde a deixara: sobre o apoio 
da cadeira de repouso. Um pouco de brilho dourado, uma silhueta escura. 
Agarrou-a pelo gargalo e lanou-a por cima do parapeito de pedra. No soube 
onde tinha ido parar. Tambm no ouviu nenhum embate. Nada, apenas um 
sussurro nos ramos. Depois, o ladrar de um co. Do hotel ouviam-se vozes e o 
barulho de portas de carros e, a seguir, quando tudo estava de novo silencioso, 
o 
vento trazia da vastido da baa o grito de uma sirene de navio.
Meu Deus...         
Melissa!         

"Melissa, que jogo  este? No aguento muito tempo. No. Como  ento, 
Melissa?!"

O Seat vermelho estava no fim da longa fila de carros, precisamente no 
local onde o tinha estacionado. Encontrava-se no meio de muitas marcas de luxo. 
At dois Rolls-Royce se encontravam l. Mesmo nos carros alugados, os 
hspedes do Formentor no davam ateno ao preo. O Seat era o carro mais 
pequeno. As portas estavam fechadas, da mesma forma como as tinha deixado.
Tim comprimiu a testa contra o vidro lateral. A sombra clara no banco ao 
lado do condutor? Era o chapu de campons que Melissa tinha comprado nessa 
tarde em Pollensa.
O seu lbio inferior doa-lhe. Sentiu o sabor adocicado de sangue. 
Tinha-se aleijado contra os dentes, sem o notar.
Apertou a mo contra a boca, quando voltou a entrar no trio iluminado do 
Formentor. Na recepo estava apenas um hspede em traje de noite, um 
colosso de homem. A cabea, de cabelo muito curto, picava com movimentos 
furiosos sobre o pequeno chefe de portaria. No se esforava por reduzir o seu 
tom de voz:
- Reservei o lugar. Perdi duas horas hoje de manh. Sabe o que isto quer 
dizer: reservar?
- Perdo, Sr. Rannecker.
- Aqui no h perdo. Insisto num procedimento regular. Num hotel de 
primeira classe posso esperar isso. No estou em frica!
Tim leu "Felix Pons" sobre a pequena placa de lato, que se encontrava 
em frente do chefe da portaria. Pons tinha adoptado uma espcie de sorriso de 
pediatra, sem alcanar com isso um grande efeito; mas quando ergueu a mo, 
suavemente, havia uma segurana no movimento, conseguindo imediatamente a 
ateno de algum.
- Sr. Rannecker, por mais lamentvel que isto seja, mesmo um empregado 
de hotel tem de pressupor por vezes a pacincia dos seus hspedes. Um 
segundo... tenho aqui outros assuntos. Posso ser-lhe til, Sr. Doutor?
Tim tirou com o leno uma gota de sangue do seu lbio.
- Sim, pode. - Ouviu a sua prpria voz, fraca e insegura, e a frase: - Por 
acaso viu a minha mulher? - pareceu-lhe infantil e ridcula.
O homem com o cabelo curto virou a cabea para Tim. A sua cara parecia 
composta apenas de carne e de uns culos enormes de tartaruga. Qual a 
importncia deste? Pons  que era importante.
- Infelizmente, no, Sr. Doutor. Apenas entrei de servio h uma meia hora. 
Mas o meu colega Martinez ainda se encontra aqui. Posso perguntar-lhe.
- Obrigado. Mas j perguntei.
- De certeza que a senhora deve ter ido dar um passeio, no acha?

"No acha?" Que pergunta! Que queria dizer! Que havia ainda a achar? 
Passeio?... "Queramos ir para o pavilho, iniciar o dia de amanh com um 
estrondoso espectculo. Queramos beber champanhe, olhar para a baa, dar a 
mo um ao outro, beijar-nos, talvez fazer amor, sobretudo recordar um pouco 
aquele dia de casamento, h um ano atrs, que tinha corrido to mal, porque uma 
camponesa qualquer, num monte qualquer, entre Scharling e Kreutch, tinha 
insistido em ter precisamente nesse dia trigmeos, e porque uma das crianas, 
um pedao de vida rosa-plido, rugoso e a tremer, no conseguia respirar bem, 
tendo de ser levado para o hospital em Bad Toelz, e como o mdico l de servio 
no se entendia com os brnquios entupidos de um recm-nascido...
"Ah, para o diabo com isto!"
- A noite est to quente, Sr. Doutor. Talvez a Senhora tenha ido at  
praia?
Praia? Para onde se do aqui passeios, se no se quer ir at ao 
pavilho? At ao mar,  praia...
O caminho levava at uma longa faixa de areia, passando pelo parque e 
descendo a encosta. Havia ali uma pequena baa. A direco do Formentor tinha 
colocado ali, para os seus hspedes, chapus de sol feitos de ramos de 
palmeiras. Na luz difusa e cinzenta da lua a subir, pareciam grandes cogumelos 
pretos venenosos.
Tim encostou-se ao tronco liso de um enorme eucalipto. Os ramos pretos 
entrelaavam-se diante do cu. As cadeias de luzes ali do outro lado da baa 
pareciam oscilar. A seus ps, a gua murmurava. O vento tinha amainado 
completamente. O mar parecia uma superfcie lisa e oleosa, de um azul-escuro. 
"Meu Deus!..." No se lembrou de mais nada do que isto. E: "Se existires, ajuda- 
me!"... Pensou-o, enquanto o rosto do seu eu controlado o chamava para a 
ordem: "Ests completamente histrico. Pensa. Mantm a calma. C'os diabos, 
que havia de Ter acontecido?" Continuou a andar. A areia parecia puxar pelas 
suas solas, os sapatos enchiam-se com pequenos gros.
- Melissa! - Era a primeira vez que gritava o nome dela para dentro do 
silncio.
E repetiu. Tinha posto as mos em funil e o nome dela soou at longe 
sobre o mar sussurrante. Mas no havia ningum que respondesse. Sentou-se. 
Os joelhos no cediam, o seu corpo estava pesado. "Pensa e reflecte. Mas em 
qu? Meu Deus do cu, que h para reflectir? Melissa, que vai vestir o seu 
vestido novo para beber contigo uma taa de champanhe e depois se dissolve 
em nada ou nas mars. Melissa: para mim ela , com os seus longos cabelos, 
como uma figura de Undine." Helene Brandeis tinha-o dito: "H qualquer segredo 
em redor dela."
"Ora, Helene! Que segredo? Que disparate vem a ser isso tudo?"
Dez minutos mais tarde, Tim, regressava ao hotel.         
Diante dos cacifos das chaves, Felix Pons abanou a cabea, desanimado. 
Tim seguiu. A areia debaixo das suas solas rangia sobre os ladrilhos de 
mrmore. Hspedes vinham ao seu encontro, algum at o cumprimentou. Dentro 
de Tim havia apenas uma nica revolta: "Isto no existe!  apenas um sonho de 
louco. No pode ser..."

Quando o seu ombro bateu contra um homem vestido de branco com um 
tabuleiro, compreendeu que se preparava para entrar na sala de jantar. Ali 
estavam os hspedes a comer. Os talheres reluziam entre os ramos de flores 
ricos em cores, as caras mergulhavam no brilho claro do pesado lustre de cristal 
que pendia do tecto. Caras que o analisavam com curiosidade. A mulher morena, 
por exemplo, na mesa  direita, que pousara a colher e o fitara, uma mulher 
muito 
bonita com uns olhos em forma de amndoa, pintados de negro. Trs fiadas de 
prolas cercavam um pescoo branco e elegante. Trazia um vestido verde.
A cor preferida de Melissa! O olhar de Tim vagueou de mesa em mesa. 
Algum veio ao encontro dele. Tim apenas distinguiu um tecido preto fino, depois 
dois olhos, por detrs de uns culos de meia-luz dourados, dois olhos atentos e 
examinadores como os de um oficial de justia.
- Perdo, caro senhor.  tradio da casa no se entrar no restaurante em 
fato desportivo.
As solas dos sapatos de borracha de Tim regressaram, rangendo, at  
escada, e o seu corao comeou a endoidecer de novo. O segundo eu dentro 
dele, o Tim Tannert discreto e cauteloso, teve mais dificuldade em conseguir a 
ateno de algum: "Senta-te num canto qualquer. Fuma um cigarro. No 
vagueies por a como um idiota: Reflecte..."
Mas para que serviam todas essas advertncias? Ele podia deixar circular 
a roda na sua cabea; fosse qual fosse a direco, circulava em vo.
Pelo menos voltara a ter uma chave do quarto. O simptico do Pons tinha- 
lha dado. Tim encontrava-se agora na suite de luxo, a seus ps a alcatifa 
elegante 
de um azul-plido, na qual se podia ficar enterrado at aos tornozelos; fixou os 
roupeiros cor de marfim, a cama com o dossel, o bar, o televisor, o conjunto de 
sofs, e aspirou para dentro dele o silncio que as paredes pareciam derramar.
A pequena mala de maquilhagem de Melissa estava na casa de banho. 
Vestgios de batn num leno Kleenex amarrotado. Ciclame - como ela gostava. 
O casaco dela de Vero, leve como a seda e cor de limo, no bengaleiro...
E um silncio que fazia doer. Muito.
Um silncio que, quer ele quisesse ou no, lhe impelia a gua para os 
olhos...

Pons no estava sozinho. Um casal jovem falava com ele, um casal 
extico: a rapariga num safari maravilhoso, dourado com tons de azul, o homem 
ao lado dela vestido com um elegante blazer de seda preta. Pons falava ingls. 
Afinal, que  que ele no falava? Tratava-se de um bilhete de avio que se tinha 
extraviado. O jovem indiano obrigava a explicar-se-lhe tudo umas vinte vezes. 
Tim 
comeou a procurar com nervosismo no bolso das suas calas. O mao de 
cigarros de Melissa estava todo amarrotado.
-I beg your pardon.
O indiano cedeu-lhe o lugar com amabilidade.
- Sr. Pons!
- Se faz favor, Sr. Doutor? - Os olhos castanhos de Pons j no o olhavam 
daquele modo atencioso e calmo como at h instantes. A sua profisso tinha 
regras s quais ele se cingia. Tim pensou nisso, mas tudo lhe era indiferente.
- Sr. Pons, exijo que chame a polcia.         
Qualquer coisa aconteceu com a cara de Pons. Atirou um olhar cuidadoso 
 sua volta; depois, debruou-se:
- Perdo! Receio bem no o ter compreendido: a polcia?
- Sim.
- Posso saber por que razo?

- Meu Deus! - A voz de Tim tremia. - Mas essa sabe-a voc. Eu disse-lhe 
que no consigo encontrar a minha mulher em parte alguma. Nem na praia, nem 
no jardim. Ela desapareceu. Costuma ser extraordinariamente pontual. Nunca me 
deixaria esperar.
- H quanto tempo est  espera?
- Setenta minutos.
- Sr. doutor! - Tim conhecia aquele olhar. Era a expresso que havia nos 
seus prprios olhos, quando tratava de doentes neurticos ou histricos. - Sr. 
doutor, compreendo a sua excitao. Mas setenta minutos? Que hei-de informar 
 polcia? Que est  espera da sua esposa h setenta minutos? E a Guarda 
enviaria uma patrulha por causa disso? Sr. doutor, pense bem, que  que 
aconteceria em sua casa na Alemanha? Acha que a polcia vinha 
imediatamente?
Claro que ele tinha razo. O diabo  que viriam! Mas isto aqui no era o 
Tegernsee nem Rottach-Egern na Alta-Baviera. Isto aqui era uma ponta de terra 
abandonada numa ilha espanhola, a vrios quilmetros de distncia da prxima 
localidade, rodeada de montanhas altas, precipcios perigosos, rochedos, um 
vale no habitado, no qual um maluco qualquer tinha construdo um maldito hotel 
de luxo.
- Sr. Pons! Eu procurei Melissa, quero dizer, a minha mulher, em todo o 
lado. No hotel, no jardim, na praia, no Pavilho de ch l em cima, onde nos 
amos encontrar. No Posso aceitar isso assim to simplesmente! Eu... ns 
temos de fazer qualquer coisa!
- E isso seria?
- Ainda pergunta? J que no quer a polcia aqui no hotel, tem pelo menos 
pessoal suficiente. Tambm deve haver lanternas. Temos de formar grupos de 
busca, passar o bosque a pente fino, todas as rvores, todos os arbustos...
- Todas as rvores? - Pons olhou para ele. - Todos os arbustos?
- Mas o que havia de ser, caramba? O qu? - gritou Tim. Mas Felix Pons 
apenas levantou as mos. Estavam vazias.

Todo para la patria. Tim leu-o numa placa amarela, quando saiu do carro. 
Por cima, pendia a bandeira amarela e vermelha. A porta era iluminada pelos 
holofotes que se encontravam fixos na esquina do edifcio plano.
Tim chegou a um corredor e entrou, atravs de uma outra porta aberta, na 
esquadra da Guarda Civil. Era grande rectangular e dividida por uma cancela. 
Havia fumo de tabaco no ar. Na parede, debaixo das luzes de non, estava o 
retrato do rei e da rainha. Nos parapeitos estreitos das janelas definhavam 
alguns 
ps de sardinheiras.
Na sala estavam sentados trs homens. Alm das calas de combate cor 
de azeitona, traziam umas camisas de farda de manga curta. Um deles estava ao 
telefone, os outros tinham a cabea virada para a televiso no canto da sala, 
onde passava um espectculo. O apresentador, um tipo com casaco aos 
quadrados impossvel, atirava beijinhos  esplendorosa garota de longas pernas, 
pertencente a um grupo de dana de revista.
- Boa noite - disse Tim.         
Ningum lhe ligou. Mesmo um forte buenas noches no alterou nada.        

 Tim deixou vaguear o olhar sobre pastas espalhadas descuidadamente, 
jornais, cinzeiros, cadeiras de plstico, telefones riscados, at ao armrio das 
armas, onde viu trs espingardas de assalto. Depois, Tim levantou o punho e 
bateu com ele sobre a madeira j gasta da barreira. Nada! A orquestra no 
televisor tocou mais alto. O polcia ao telefone deixou rodar a sua cadeira 
giratria, olhou rapidamente para Tim e continuou a falar, sem levantar o olhar 
do 
seu bloco de notas. Finalmente, ergueu-se.
- Faz favor?         
- Desculpe... H aqui algum que fale alemo? Usted habla alemn?
Abanar de cabeas. Olhos pacficos, castanhos cor de noz e bigode 
farfalhudo.
- Ou ingls? - A expresso na cara jovem, uma expresso de pacincia 
total, quase sobrenatural, no se alterou. O Guarda passou a mo no bigode e 
voltou a cabea:
- Sargento! Creo que tenemos trabajo.         
A msica na televiso aumentara para chegar ao final. As raparigas 
levantavam ainda mais as pernas. O homem com o casaco aos quadrados batia 
palmas. Quem ainda gritava "bravo", no era apanhado naquela altura pela 
cmara. O guarda com as divisas de sargento era o que estava sentado mais 
perto do televisor. Levantou-se, cresceu at um metro e oitenta, cheio de 
gordura, 
agarrou com o polegar e o indicador o cs das suas calas e alisou a camisa. A 
cara redonda, extremamente queimada pelo sol, no mostrava nada mais do que 
a resignao de um "s me faltava isto", e a sua boca era muito delgada.
- Boa noite. Que h?        
 Falava ingls.
- Queria participar um desaparecimento.
- Quer o qu. - A expresso em ingls para participar um desaparecimento 
parecia no ter resultado muito bem. Tentou ento com report my wife missing, 
mas o homem no percebeu nada, apenas olhava espantado. Ou ser que tinha 
percebido?
- A sua mulher? Trata-se da sua mulher?
- Sim. - Na perna de Tim comeou a contrair-se um tendo.
- Desapareceu!
- Que quer isso dizer?
- Pronto, sumiu-se!
- O seu nome? 
- Tannert. Tim Tannert.         
- D-me o seu passaporte.
- O passaporte?
- O que havia de ser? - O fulano da Guardia-Civil olhou de soslaio por cima 
do ombro para o ecr de televiso. Intervalo para publicidade. Um gato a brincar 
 apanhada com uma lata de comida. Ao gordo, esta imagem no parecia 
facilitar o seu trabalho.
- O que havia de ser? - repetiu no mesmo tom de pacincia invencvel, que 
devia ter adquirido no tratamento com turistas. - E o passaporte da sua mulher. 
        
Tim tirou com as costas da mo os cabelos da testa ardente. Quase 
sufocava ali dentro. O suor corria-lhe pelo nariz.

- No o tenho comigo. Sabe, sa apressadamente e estou completamente 
transtornado. Compreende isso, no compreende?
- No tem ento o passaporte consigo?        
 Como num exame! E o pnico de exame trouxe tambm a ideia:
- Est no hotel. Esqueci-me de o pedir novamente. A direco do hotel  
que ficou com ele.
- Ah, sim? A direco do hotel? Onde  que est hospedado?
- No Formentor. Hotel Formentor.         
Pelo menos uma coisa provocou efeito: o nome "Formentor". o homem 
ficou atento. Tambm o rapaz do telefone olhou para eles.
- Un momento. Espere... - O gordo vacilou at a uma secretria, levantou o 
auscultador, premiu as teclas. Disse algumas palavras, escutou, acenou com a 
cabea e atirou com o auscultador de novo sobre o descanso.
- Escute, mister! Entra aqui dentro e quer participar um desaparecimento 
sem passaporte?
- Qual a importncia de um passaporte, se desapareceu uma pessoa? 
        - Agora falo eu. Falei agora mesmo com o chefe de portaria do Formentor, 
que conheo. Um amigo... E que diz ele? Que no encontra a sua mulher. Bueno! 
E desde quando? Desde pouco antes do jantar. E que horas temos agora? Onze 
e vinte. s onze e vinte, aqui, as pessoas decentes ainda esto a comer a 
sobremesa ou bebem o seu primeiro conhaque e acendem um puro charuto. E o 
senhor? Vem aqui participar um desaparecimento!
O homem falava baixinho e num s tom. O seu ingls no era assim to 
mau, ainda que o misturasse com algumas palavras em espanhol. Tim tinha 
compreendido tudo. Tinha sobretudo compreendido que o classificavam como 
um tolo irresponsvel.
- Oua. Sou mdico e sei o que estou a dizer. Estou habituado a proceder 
com calma. No fao uma participao destas sem motivo...
Naquela cara carnuda no se moveu nada, apenas nos olhos escuros 
lampejou qualquer coisa.
- Bom, Doutor. Tambm eu tenho a minha profisso. Aqui em Maiorca 
desaparecem raparigas e mulheres. Est certo. E isso  todos os dias. No 
apenas por trs ou quatro horas ou durante um jantar; na maioria das vezes,  
por 
uma noite, s vezes at por uma semana. Se eu de cada vez empreendesse uma 
busca, ento...
Cessou subitamente, fixou Tim; Tim que levantara o seu brao e colocara o 
punho  frente da cara. Porm, o gordo no recuou um s passo. E, depois, 
prosseguiu no mesmo tom anterior, com toda a calma:
- Est bem... tudo bem. Voc mostrou-mo. E agora meta a sua mo 
rapidamente no bolso, seno sou eu que lho mostro. Ou quer bater-me, porque 
disse uma coisa que tambm voc pensa? Ento, mister? Quer mesmo?
Os olhares dos homens na sala estavam postos nele. Os braos de Tim 
desceram, os seus punhos tornaram-se de repente to pesados que quase os 
no podia mexer.
- Agora s quero uma coisa: o seu nome!

- Se no for mais nada - respondeu a voz calma. - Rigo. Sargento Pablo 
Rigo. Pode fix-lo? Sim? Esplndido. E agora desaparea. Se a sua mulher no 
tiver aparecido at amanh, Pode voltar. Com os passaportes. Entendido?
Para o trajecto de regresso de Pollensa at ao hotel, Tim necessitou de 
quarenta minutos. Porm, apenas tinha de percorrer dezoito quilmetros, ainda 
penosos. Parou o Seat uma meia-dzia de vezes, saiu do carro, permaneceu sob 
o brilho indiferente das estrelas, encostado ao peitoril de um miradouro, fixou 
a 
espuma branca e transparente do mar, l em baixo no fim da escarpa, ficou entre 
os pinheiros negros sussurrantes numa curva da qual se abria a vista para o vale 
do hotel Formentor. 
Por duas vezes encontrou-se com pessoas: primeiro, o motorista de uma 
velha e cambaleante carrinha Citroen. Afrouxara ,o passo e espreitara pela 
janela, como se aguardasse uma chamada daquele homem silencioso ali fora no 
meio da noite. A segunda pessoa foi um motociclista. Vinha to lanado da curva 
que quase atropelara Tim. Mas este nem estremeceu, to profundamente 
indiferente estava. Encontrava-se numa espcie de transe, no qual distinguia a 
realidade apenas como por um filtro. Porm, uma coisa era forte e evidente 
dentro dele: aquela dor ardente no seu peito.
MELISSA!...        
 "Por que esperas? Que o vento a traga? Que ela se materialize 
subitamente da escurido como um fantasma, caminhe ao teu encontro, os 
braos a balouar como uma rapariga, com aquele andar desleixado e flexvel 
que te encanta sempre? Tim, dir ela. Tim, que fazes aqui? Tiveste medo por 
mim? De verdade?... Foi s uma brincadeira. Queria s ver se ficavas aflito se 
eu 
desaparecesse por algumas horas. Como hei-de saber se gostas realmente de 
mim? No  a melhor prova de amor? No achas? Uma pessoa desaparece e a 
outra procura e d cabo da cabea - e depois -se feliz em comum."
Ou: "Estava, to excitada por causa do pavilho! Mas depois sentei-me 
no sei onde e adormeci, simplesmente..."
As lmpadas  direita e  esquerda da porta do hotel atiravam um 
agradvel crculo de luz cor de mel para dentro da noite. Para sua prpria 
admirao, aquele espectculo causava-lhe uma sensao familiar e acolhedora. 
Alvio e esperana, sempre de novo aquela esperana que brotava com calor, 
aquela esperana incontrolvel, infantilmente desamparada. Agora, ela estaria 
l! 
Tinha de ser...
O tronco de Pons estava debruado sobre umas contas quaisquer que o 
computador cuspia. O seu couro cabeludo brilhava, nu e branco atravs dos 
cabelos pretos e fracos. Ergueu-se.
- Sr. Doutor! At que enfim! Esteve em Pollensa, no esteve? Na Guardia 
Civil?
- Sim. Falei com o seu amigo. - A esperana tinha inchado como uma 
vela... agora tinha-se desmoronado: Nada!
- Sr. Doutor, pode estar seguro: Pablo Rigo  um bom polcia.
- Ah sim? Notei logo isso.
- De certeza. Mesmo que no se tenha essa impresso, ele leva a sua 
misso muito a srio. Prometeu-me que trataria do seu caso. Caso a sua esposa 
no regresse, vo comear amanh com a busca. De certeza. E, alm disso...

- O qu, alm disso? - Os olhos de Pons estavam bem fixos em Tim. O 
homem quis dizer qualquer coisa, lutava, reflectia obviamente, se seria adequado 
confess-lo.
- Bem, Sr. Doutor: como esteve tanto tempo ausente, telefonei a Rigo. 
Tambm o nosso director se encontra informado. Regressou h uma meia hora. 
Est  sua espera.
- Voc quer dizer mais alguma coisa?
- Sim. Rigo enviou dois homens para Alcudia. Para averiguar. Ele queria 
faz- lo s amanh, mas eu convenci-o a entrar em aco j hoje  noite.
- Averiguar? Averiguar o qu? Onde?
- Bem, existem assim certos stios, frequentados por certas pessoas. 
Tambm Alcudia tem a sua "cena". Onde no Vero se encontram cerca de quinze 
ou vinte mil pessoas para se divertirem, existe isso. Passadores de droga e 
tipos 
parecidos. Acontece ali muita coisa. Na maioria das vezes so pessoas da 
Pennsula, do Continente, mas tambm estrangeiros. No ano passado, tivemos 
dois desses casos...
- Que casos, meu Deus, Sr. Pons?!         
Mais uma vez, aquele olhar. Depois, um encolher de ombros:
- Dois casos de violao, Sr. Doutor. Ambos foram esclarecidos. s 
senhoras no aconteceu nada. Quero dizer... - acrescentou apressadamente - 
abstraindo naturalmente do acontecimento em si, que  horrvel.
- Ah sim?         
Do acontecimento em si?
Violao...         
Uma palavra que se ouve, se absorve e que alastra a seguir como um 
monstro e reprime tudo o resto, qualquer reaco, qualquer pensamento. 
VIOLAO... Por que no tinha pensado nisso at agora: VIOLAO! Os seus 
punhos contraram-se.
- Tratava-se de inglesas. Em ambos os casos. Os autores eram espanhis 
do sul do pas, trabalhadores da construo. Sem cultura. - Pons atrapalhou-se. 
No podia aguentar mais o olhar de Tim. - A propsito: O Senhor Bonet gostaria 
de falar consigo, caso tenha tempo.
- Senhor Bonet?
- Sim, o nosso director. Vou acompanh-lo ao gabinete dele.
xxxxxx
O cansao e a exausto tomavam conta de Tim mais ainda do que 
anteriormente, mas os seus nervos sobreexcitados enviavam salvas inteiras de 
sinais em desordem. Quando, atrs do pequeno e compacto Pons, atravessou o 
trio, parando apenas em frente da porta  qual Pons tinha batido, apercebeu-se 
de que no aguentaria mais tentativas para se acalmar. A porta abriu-se. O 
homem que estava  sua frente trazia umas calas brancas impecavelmente bem 
passadas e um leve e elegante pullover tipo marinha, azul-claro. Sobre o lado 
direito do peito via-se um emblema. Devia ter uns quarenta anos de idade; 
contudo, com a sua pele bem queimada e uns olhos cinzentos-claros, bem vivos, 
parecia mais novo. Realmente, no parecia o director do Formentor, mas antes 
um professor de educao fsica, que dava importncia a um bom vesturio, a fim 
de assegurar uma clientela sria e com posses.
- Sr. Dr. Tannert? Sente-se, por favor. Acho que podemos conversar na 
sua lngua.  que eu estive durante muito tempo na Sua.

Reparava-se na sua pronncia.         
Tim deixou-se cair num sof. Bonet ficou em p  sua frente, olhando para 
baixo.
- Posso oferecer-lhe uma bebida? Talvez um conhaque?
- Obrigado. Sim, talvez um copo de gua mineral.
Vou j arranjar-lho, Sr. Doutor. - Pons inclinou-se e desapareceu.
- Ouvi falar do seu problema, Sr. Doutor.
- Chama a isto um problema? - Tim estava demasiado cansado para se 
excitar. Sentia-se como se meia tonelada de pedras o empurrassem para o cho. 
- O senhor fala de problemas, o seu chefe de portaria de uma violao... O tipo 
da 
Guardia-Civil de Pollensa ainda faz pouco de mim, antes de me mandar embora. 
Como , Sr. Bonet:  casado?
O director acenou com a cabea.
- Ah sim? Ento que faria o senhor no meu lugar? Como resolveria o 
problema se a sua mulher desaparecesse precisamente quando ia festejar o dia 
de casados? Sem deixar rasto... Tambm estaria assim to calmo?
- No estou calmo. Veja s os meus cinzeiros. Desde que cheguei aqui ao 
hotel, estou aqui sentado,  espera do senhor, a fumar e a pensar. O bem-estar 
dos meus hspedes...
- ...  o seu primeiro mandamento - zombou Tim.
- Digo isto muito a srio, senhor. No  nenhuma frase. Levar isto mesmo 
a srio , na minha profisso, a nica hiptese de fazer carreira. Peo-lhe, por 
conseguinte, que se mantenha calmo.
- Calmo? Sou a calma em pessoa.  o que est a ver, ou no?
Bonet passou com o polegar na sobrancelha:
- Porm, o senhor tem de admitir que de momento no podemos fazer 
nada.
- Tenho de admitir? O seu pessoal est a dormir ou a lavar loua, e ns 
estamos aqui no seu gabinete. E a minha mulher est por a algures. E voc 
diz-me que no podem fazer nada?
A fria de Tim tinha-se transformado numa calma fria como gelo.
- Talvez ajudasse, se me contasse o que aconteceu esta tarde. At  altura 
em que deu pela falta da sua mulher. Talvez tenhamos um ponto de referncia.
Tim aspirou bem fundo o fumo do cigarro que Bonet lhe tinha oferecido. O 
fumo seguiu lentamente em direco ao candeeiro da secretria. Comeou a 
falar e Bonet escutava em silncio. Tim falava devagar e tinha a esperana de 
ganhar algum esclarecimento ao formular os seus pensamentos. Tambm no se 
esqueceu de Helene Brandeis:
- Uma das minhas Pacientes indicou-nos o hotel Formentor. Ela esteve 
muitas vezes aqui. Adorava esse pavilho de ch. Talvez o senhor a conhea?
- Pessoalmente, no, apenas o nome. Felix Pons disse-mo, Parece 
tratar-se de uma senhora extremamente simptica e activa... Bom, viajou at 
aqui, para de uma certa maneira recuperar a sua lua-de-mel.         

Recuperar? ... Em cada palavra que caa, Tim apercebia-se cada vez 
melhor de como tudo era absurdo: duas pessoas que viajavam atrs da 
felicidade. Festa de casamento. Lua-de-mel... E como se tudo isto ainda no 
chegasse, lembraram- se de fazer um ensaio geral! No pavilho de ch, o ninho 
do amor... Por Deus, que acontecera, depois de se terem separado no parque de 
estacionamento? Melissa fora refrescar-se e pr o seu vestido. Ele prprio 
levara 
garrafas ao pavilho de ch e preparara um pouco as prximas horas...
- Eu estava l em cima,  espera,  espera... E olhava para o relgio. E a 
certa altura, aps quarenta e cinco minutos, veio primeiro uma grande fria, e 
depois a inquietao. Onde estava ela? Meu Deus, onde estava ela?
Bonet ia acompanhando o relato com um acenar constante e encorajante 
da cabea. Enervava Tim.
- No ouviu nada? Ali perto? Qualquer rudo?        
 Tim abanou a cabea.         
Ou tinha ouvido?... "Pensa bem." Nas proximidades? Um esvoaar de 
aves que procuravam stios para dormir. Isso - e mais uma coisa: um som 
bastante brutal. Um motor que uivou. O motor de um carro muito pesado. Apagou 
o cigarro, encostou-se para trs e fechou os olhos: sim, o som no vinha do 
parque de estacionamento, mas vinha de mais longe.        
Tim tentou lembrar-se do parque: a distncia do porto de ferro que 
constitui a entrada at ao parque de estacionamento era de cerca de um 
quilmetro, calculou: talvez at mais. Pons tinha-lhe explicado que o porto, 
durante a estao alta, tambm ficava aberto toda a noite. Ali, algures, perto 
das 
duas grandes colunas de arenito, onde estavam fixos os batentes do porto, 
devia de ter estado o carro. E outra coisa: Tinha arrancado silenciosamente. O 
motorista apenas acelerara quando se tinha afastado da rea do hotel e se 
encontrava na longa recta atravs do vale.
- Houve alguma coisa que o surpreendeu? - Impacientemente, Bonet 
colocou as mos sobre os joelhos.
- Ouvi um carro. Arrancava do porto do parque para l. Mas que pode 
isso significar?
- No muito - disse Bonet. Cruzou as pernas e Tim reparou que ele trazia 
uns sapatos caros, elegantes, com fivela dourada. O sapato direito comeou a 
balouar. O movimento irritava Tim, e o que mais o incomodou foi o que Bonet 
disse a seguir, baixinho e sempre acompanhado com aquele sorriso 
compreensivo.
- Disse que desde o incio permaneceu a maior parte do tempo no quarto. 
Bem. Mas muitas vezes tem-se uma certa impresso de uma situao, mas essa 
impresso, afinal, no corresponde completamente aos factos...
- Onde quer chegar com isso?
- Bem, pode ser que a sua mulher tivesse sado do quarto... Talvez 
enquanto o senhor dormia?
- E com que finalidade, Sr. Bonet?
O director do hotel elevou um pouco os ombros. Os braos continuavam 
cruzados e no seu sorriso tambm nada se alterara:
-  apenas uma teoria. Veja, na hotelaria acontecem as histrias mais 
estranhas. Sobretudo nestas noites de Vero... Acho que qualquer director de 
hotel, ou chefe de portaria, ou empregado de quartos poderia escrever um livro 
sobre isso. Talvez... isto  s uma pura hiptese... talvez a sua mulher tivesse 
encontrado algum? Um antigo conhecido... Temos aqui muitos hspedes 
alemes. So o nosso maior contingente. Ou ela teve, talvez quando foi s 
compras em Pollensa, algum encontro... tudo isto dito hipoteticamente... que 
para 
ela foi to importante que...

- Para o diabo! Mas que encontro? Que est para a a dizer?
- Bem - o sorriso tornou-se cauteloso -, sabe, as frias Provocam em 
algumas pessoas um estado muito especial. Uma espcie de nostalgia de 
liberdade. As normas que em casa so seguidas to severamente, de sbito j 
no valem mais. O ambiente diferente, o clima...
O clima? O ambiente diferente... Tim teve de se apoiar, quando se erguia. 
Mas agora estava de p, juntando toda a fora que lhe restava nos msculos dos 
ombros:
- Voc ousa... ? - sussurrou. - Est doido?
- Como disse,  apenas pura suposio. Pura suposio? Aquele porco 
pensava que Melissa se raspara para lhe pr os cornos? Era assim que ele via 
aquilo? E no s ele, todos eles, Pons, o gordo e repugnante polcia da Guardia- 
Civil e este, o esguio do director do hotel com os olhos compassivos.
Deu-lhe um murro. Deu-lho sem inteno consciente, sem qualquer 
intuio, mas com bastante fora e uma preciso surpreendente. 
Simultaneamente, baixou- se. O golpe partiu-lhe do ombro e o punho acertou em 
Bonet no maxilar direito. Este bateu com a cabea nas costas do sof e a 
imagem da sua cara desfigurada pela surpresa e pela dor encheu Tim de uma 
satisfao selvagem. O que depois aconteceu veio rapidamente e com a 
violncia cruel de uma machadada. Primeiro, Tim no sentiu a dor, apenas a 
estranha e errada sensao de uma deslocao. Depois de um estrondo. Batera 
com o ombro contra um armrio de madeira a trs metros de distncia atrs de 
si. Doa, doa mesmo muito, e Tim tinha a certeza de uma coisa: o outro tinha 
dado cabo dele! "No s mais que uma pobre figura ridcula,  qual se pode pr 
os cornos, que pode ser aniquilada, segundo o gosto de cada um, e cuja mulher 
foge com outros. s um merdas para ela! Um turista miservel, um daqueles que 
vem do Norte, que tm de pagar, mas no tm nada a dizer."
Comeou a ficar agoniado. Ps a mo sobre o estmago e fechou os 
olhos. Quando a mo tocou nas costelas, sentiu uma dor forte e aguda.
"Ele acertou-te nas costelas. Com o p!"
- Lamento muito! - Tim no conseguiu ouvir bem Bonet. Queria levantar a 
cabea. Mas apenas a podia sacudir, pois as suas foras no davam para mais.
Duas mos agarraram-no debaixo dos ombros e levantaram-no. Tim 
gemia. O ombro ardia. No queria chorar, porque os homens no fazem isso! A 
sua respirao funcionava baixinho e com dificuldade e pensava s numa coisa: 
alguma vez h-de acabar. Tem de... - Lamento muito, Doutor! Mas tambm no  
muito fino dar um soco a um homem que est sentado.
Os olhos cinzentos. O mesmo sorriso...         
Tim ps-se em movimento. Ali, a porta! Era por ali que tinha de sair. 
Custasse o que custasse. E j!
- Tem dores?        
 Que queria ainda dele?
- Lamento profundamente. No meu caso, foi uma espcie de reflexo, de 
certa forma instintivo. Dou aulas de karate. Mas no o quis magoar, sinceramente 
que no. Mas no me deu outra escolha, Sr. Doutor.

"Sr. Doutor? - Meu Deus!" De sbito, Tim viu a sua casa  sua frente. A 
sala de espera com as cadeiras azuis. A receita... O lume da lareira  noite! E 
precisamente esta imagem era demasiado forte. Voltou a ficar agoniado e 
receou ter de vomitar. Isso no!
Mas alcanara a porta.         
- No posso deix-lo ir embora assim. Porque no descansa durante 
alguns instantes? Vamos tratar de tudo, no se preocupe... No se preocupe!
Tim abanou a cabea e apertou o puxador da porta.
- Vou acompanh-lo at l acima. No deixo que o senhor, nesse estado...
- Vou sozinho - disse Tim. - E muito obrigado, sr. Bonet!

No fundo, bem no fundo dela, est ainda a sensao de escuro e claro, luz 
que passa, sombras ... novamente sombras. E depois, tudo claro: uma luz a voar, 
a passar furtivamente.
Sim, voar, ficar suspenso, to maravilhosamente leve... Porm, agora 
comea a rastejar aquele peso dentro dela, pretende sufocar-lhe a respirao, 
pesa como uma pedra. J no fica a pairar, a voar. E arremessada, a uma 
velocidade medonha, juntamente com um rumor que aumenta e se transforma 
num silvo estridente e agudo. Comea a alastrar, toma posse de tudo. Ela geme. 
No quer cair, grita, no ouve.
Abre os olhos... mas Melissa no se apercebe disso, porque no existe 
nada que o seu crebro registe. Apenas uma vez uma luz azul, desmaiada, na 
qual se encontra uma sombra negra, erecta, brutal como um rochedo. Depois, 
novamente as luzes que giram sem fim.
Voar, cair - sem fim... Ou sim?...

Era a segunda vez nessa noite que Tim enfiava a chave na fechadura da 
suite nmero 206. No tinha pressa. A esperana ardente que sentira 
anteriormente, quando a fechadura girava, tinha dado lugar a uma resignao 
amarga e ao desespero.
Abriu a porta e pressionou o boto principal. O lustre de cristal brilhante 
derramava a sua luz clara, fria e implacvel sobre o salo. Tm ficou parado no 
pequeno vestbulo. Olhou para os sofs azuis, a mesinha baixa, o bar no canto e, 
do outro lado, o televisor embutido num bonito armrio de parede.  sua direita, 
o 
roupeiro com o casaco de Vero de Melissa, amarelo cor de limo, o forro preto.
Passou com a mo por ele sem se aperceber bem do que estava a fazer. 
Melissa!
Muitas vezes, tinha pronunciado o seu nome, ou apenas um sussurro; 
agora s pensava nele. Pensava nele constantemente, desde que tinha 
principiado o pesadelo, assim como se reza, no, como se murmura uma frmula 
de evocao: "Melissa!..."

Os seus olhos faziam o inventrio, pesquisavam aquela sala grande, 
estranha e luxuosa, como se pudessem descobrir algo de muito importante. 
Sobre a madeira do armrio do bar brilhava couro castanho com alguns 
dourados: a pequena carteira de Melissa, para sair  noite... Por que razo 
estava naquele lugar? "O nosso jogo no pavilho! E o champanhe ainda est l 
em cima... Para o diabo com o champanhe! Para o diabo contigo prprio, seu 
idiota, com as tuas ideias!" Sim, o champanhe encontrava-se l em cima, e as 
cadeiras de repouso estavam  espera, e cheirava a madressilva e alfazema 
quando ele tinha sussurrado pela primeira vez "Melissa!".
Tim fechou os olhos e pousou a mo sobre o inchao no seu lado direito, 
sem ficar bem consciente da cor. Como tinha sido? "Pensa bem, constri tudo de 
novo. Meu Deus do cu! Foste tu que inventaste toda aquela encenao. E foste 
tambm tu que disseste: "Pe o vestido!" Mas ela no queria. Claro: o vestido 
estava previsto para o dia do casamento! Ela teria sido capaz de o vestir, de 
qualquer maneira, e por isso tinha tirado a pequena carteira. At teria sido 
tpico 
de Melissa: primeiro recusar e depois surpreend-lo com a satisfao do seu 
desejo...
"Quero pr-me um pouco bonita", no tinha ela dito?         
Que queria dizer "pr-se bonita"?... Custava-lhe atravessar a sala e pegar 
na carteirinha. Apertou-a contra a face. Depois, abriu o fecho e absorveu o 
suave 
cheiro a perfume que lhe subiu pelo nariz: Arpge... Respirou bem fundo, 
sentindo 
agora a dor no lado direito. "O tipo partiu-te a costela!" Talvez a sua mulher 
tenha 
encontrado algum, um velho conhecido...
Aquele tipo de merda!         
E mais ainda: "Sabe, as frias provocam em algumas pessoas um estado 
muito especial. Uma espcie de nostalgia de liberdade. O ambiente diferente, o 
clima... temos a nossa experincia."
Que tipo nojento! Talvez tivesse sido errado bater-lhe logo, mas ser que 
devia estar arrependido disso? "No penses nisso... Concentra-te!" Apertou o 
fecho da carteira e pousou-a com tanto cuidado como se fosse de vidro fino. 
Talvez ela quisesse mesmo vestir o vestido novo e por isso tivesse tirado a 
carteira do armrio ou da mala? Seno, no estaria agora ali. Afinal, fazia 
conjunto com o vestido... E depois tinha mudado de ideias? Mas que teria 
pensado?
C'os diabos: que se teria passado dentro dela, que desejo, que objectivo 
tinha seguido? No queria trazer qualquer coisa para comer?
Quando Tim se baixou para abrir o pequeno frigorfico do quarto, sentiu a 
dor aguda entre as costelas. Apertou os lbios e puxou a porta: bebidas, latas, 
sumos de fruta. Duas garrafas pequenas de champanhe. Vinho tinto e branco.
Ao lado, a lata com o pat, que ela tinha comprado em Pollensa. E algum 
fiambre embrulhado em folha de alumnio. E tudo intacto, como se ainda h pouco 
ela tivesse colocado tudo ali.
Voltou a fechar a porta e apalpou cuidadosamente o seu corpo dorido. 
Fechou os olhos e tentou reflectir. Nada. Nada mais que a sensao que ele 
conhecia de pesadelos: aquela terrvel sensao de se enterrar na areia ou no 
pntano, ininterruptamente, cada vez mais fundo e fundo, sob os seus ps, que 
no podia mover mais, nada mais que um pntano espesso e escuro...

"No fiques maluco!" Quantas vezes j tinha ordenado isto a si prprio? 
"Controla-te!" Foi at  janela e pressionou a testa quente contra o vidro. 
Tinha 
dores, pois bem - mas agora apercebia-se de que tambm tinha fome. Quando 
tinha comido pela ltima vez? "O que precisas  da tua fora." Para passar por 
isto, no  apenas uma questo de moral ou do raciocnio, tem a ver tambm 
com a fisiologia, com o simples facto de o seu instinto mdico lhe anunciar que 
precisava de hidratos de carbono, calorias e gordura, se quisesse aguentar tudo.
Aproximou-se do telefone e ligou o nmero sete.                
- Room-Service - disse uma voz de homem.
- Traga-me uma sopa e po branco, sim? E dois ovos estrelados com 
fiambre.
- Sim, senhor. Mas qual  a sopa?
- Caramba, -me igual. Talvez creme de galinha. E ligue-me para a 
recepo, para o Sr. Pons.
- Lamento, senhor. Mas daqui de baixo no  assim to simples. 
Permita-me que lhe pea para ligar o nmero um...
Tim atirou com o auscultador, levou a mo ao bolso e tirou um dos cigarros 
de Melissa. Um dos ltimos trs do mao amachucado. Mas precisava dele. 
"Quanto tempo lutaste para te veres livre desta coisa dos diabos?" Quatro... 
no, 
cinco anos...
"E agora? Agora j no interessa. E por que razo? Agora no tem 
importncia. Nada mais  importante."
A porta para o quarto - meia aberta!         
Tim fixou-a e, dentro dele, despertou uma sensao que, como uma 
chama, se densificava numa esperana absurda: Se ela talvez...?
Assim como outrora? Outrora, quando Tim ainda trabalhava na Clnica de 
Essen, quisera visitar o seu irmo mais novo, Christian. No lar dos estudantes 
recebeu a notcia: "Telefonou a polcia. Christian teve um acidente de 
motocicleta. 
Faleceu. Fractura de coluna."
Tim tinha ido procurar em todos os hospitais, depois tambm nos 
cemitrios, e quando chegou  clnica, tocou o telefone. Era Christian: "Ficaste 
cheio de medo, meu velho, hem? Engano! Estou vivinho da costa. Foi s um 
engano no nome. Um engano, meu velho..." Um engano! Talvez isto tudo no 
fosse mais nada que o absurdo de uma troca.
Com a ponta do p deu um toque contra o verniz da porta. E ali estava a 
cama com a colcha larga de brocado e o seu desenho de rosas, as colunas 
trabalhadas que davam apoio quele baldaquim idiota, que ele tanto tinha 
gabado diante de Melissa, e depois,  direita no canto da cama, uma das 
camisas dela, azul-turquesa... nada mais. Pegou na camisa, passou com a mo 
por ela, levou-a  cara, como se pudesse aspirar para dentro dele o ser dela, a 
vida dela, a proximidade dela. A dor voltara. Tim deixou cair a camisa, correu 
at 
 casa de banho, abriu o duche e deixou correr gua sobre as suas mos, 
tentando ganhar a luta contra aqueles soluos desamparados que ameaavam 
rebentar com o seu peito.

- Recepo? Sr. Pons?
- Sim, Sr. Doutor, fala Pons.
- Sr. Pons, ligue-me imediatamente para o director.
- Lamento muito...
- Que  que lamenta, com mil demnios?
- No  possvel. Don Luis saiu do hotel.
- E quando regressa o seu Don Luis?
- Dificl de dizer, Doutor. Acho que em breve.

- Quer que lhe diga o que eu acho? Acho que este hotel  uma grande 
porcaria! Isto , entretanto j tenho a certeza. E s lhe posso dizer, Sr. Pons: 
se 
tiver apenas uma pequena fasca de raciocnio na sua cabea...
- Mas Sr. Doutor! Por favor.
- No tem nada que pedir. Agora vai-me ouvir. Digo-lhe que se voc tiver 
ainda um restinho de bom senso, vai fazer que se entre em aco. Se no for o 
caso, pode contar com duas coisas: primeiro, receber do meu advogado uma 
participao por falta de assistncia. E mais...
Sentado sobre a colcha de brocado, cheia de rosas, da sua cama, Tim 
movia os dedos como um ancinho pelos cabelos. De um lado para o outro, para a 
frente e para trs:
- E depois vou fazer que toda a imprensa alem tenha conhecimento do 
seu procedimento.
- O meu procedimento? Posso perguntar de que procedimento est a 
falar?
- Mas com mil demnios! Ainda pergunta? Com as suas desculpas idiotas 
queria impedir que fosse  polcia. O que faz? Voc e o seu director? Fazem 
cera, apesar de um dos vossos hspedes poder estar em perigo.  isso que 
fazem.
A fria explodia no seu crnio como um martelo em brasa - demasiado 
forte, demasiado agitada para a poder controlar. A sua voz baixou at a um 
sussurrar rouco:
- Uma coisa  certa: ho-de pagar por isso. Vou pr todos os advogados 
deste pas atrs de vocs.
- Faa o que quiser, Sr. Doutor. Mas, por amor de Deus, fale comigo como 
uma pessoa razovel, em vez de me ofender constantemente.
Tim quis atirar com o auscultador do telefone, mas houve algo na voz do 
homem redondo e pequeno l de baixo que o fez parar. Que estava Pons a dizer 
naquele momento?
Colou o auscultador bem forte contra o ouvido.
- Vai fazer-se tudo o que for possvel, Sr. Doutor - disse Pons. - O porteiro, 
o jardineiro e o nosso administrador de material esto l fora no jardim. E 
tambm o nosso director. Levaram lanternas e passaram a pente fino toda a 
parte ocidental do parque. Tambm subiram um pouco o monte, mas ns aqui 
temos quarenta e cinco hectares de terra, Sr. Doutor.  muito... para quatro 
homens.
Quatro homens. Ali fora na noite. Com lanternas?
- Desculpe - disse Tim. - Voc com certeza percebe...
- Claro que percebo.
- Estou completamente transtornado, Sr. Pons.
Mas logo a seguir voltou a amargura e a fraqueza. Claro que Pons tinha razo e 
Tim compreendia-o: tudo tem de continuar. Mudana de turno. Jantar. Agora 
ouvia-se tocar uma orquestra. E o bar estava de certeza cheio de gente... Um 
exrcito de tipos que andavam por l em fraque e casaco branco, a fim de dar a 
meia dzia de milionrios amimalhados comida e bebidas. Rotina diria - mas, 
para pessoas como Pons, qualquer gesto era extremamente importante. O hotel 
perfeito! "Minhas senhoras e meus senhores! Hoje no vai haver servio neste 
hotel porque temos de procurar um hspede." Este aviso era impossvel.
- Sr. Pons, caso haja qualquer coisa...
- Naturalmente, Sr. Doutor. Ligo-lhe imediatamente.
- Boa noite, Sr. Pons.

- Boa noite, Sr. Doutor. E veja se consegue dormir um pouco.
Certo. Mas como? Trouxera alguns comprimidos para dormir no seu estojo 
de viagem. L fora, no salo, a sopa e os ovos estrelados esperavam. S de 
pensar nisso, ficava agoniado.
Ficou sentado na cama e fechou os olhos. E l estava novamente aquele 
rumor nos seus ouvidos, a sensao de no estar a acontecer mais nada que um 
sonho louco e inconcebvel.
Medo, nada mais que medo. A pulsao martelava-lhe nas fontes. Medo! 
"Tens de te descontrair." Onde  que o medo se encontra? Na hipfise, onde 
havia de ser? Que faz ela? No s aceita sensaes, mas tambm impresses, 
transforma-as em mensageiros, envia os seus comandos de hormonas, abre as 
comportas da adrenalina, at que esta aperte a garganta, aquea at ao mximo 
o corao e inunde o crebro, de forma que se pensa endoidecer.
Quando Tim se ergueu, desta vez, sentiu que tudo andava  roda. Passou com as 
costas da mo na testa hmida e foi-se abaixo. Tentou novamente e foi buscar os 
comprimidos para dormir  casa de banho...
Segunda-feira         
Tim. abriu os olhos. Por cima dele abaulava-se uma seda dourada, 
levemente cintilante. A cama. Qual cama? Passou a mo sobre o lugar vazio ao 
seu lado. Pareceu-lhe infindo.
No era um acordar, era um choque. Com a mesma violncia brutal com 
que algum arromba uma porta, assim se apoderou dele a realidade.
Ergueu-se subitamente na cama, levantou-se e correu cambaleando pelo 
quarto at  outra sala, de onde saa um assobio desagradvel. A imagem fixa 
colorida do televisor parecia sorrir para ele. TVE-2. A informao digital no 
rebordo superior indicava sete horas e quarenta e oito minutos.
O seu crnio comeou a martelar. Teve de se apoiar no aparelho, quando 
o desligou. L fora, por detrs das janelas altas, estendiam-se, radiosamente 
azuis, o mar e o cu. Na mesa, com um tampo de mrmore, ainda no dia anterior 
tinham tomado o pequeno-almoo, Melissa e ele... Melissa!
Hoje faziam anos de casados! Esfregou a testa: dia de casamento? No 
conseguiu reprimir aquela palavra. E como podia faz-lo? Por que razo tinham 
viajado at ali? "Porqu, meu Deus? Se Tu existes, no..."
J tinha dito, pensado, sussurrado, implorado isto umas cem vezes. Nada 
se tinha alterado...
Puxou os cortinados, para no precisar de ver a mais maldita mesa e o 
mar infinito. Um novo captulo neste pesadelo que no queria terminar podia 
principiar agora.
Com a ajuda de um duche frio e uma garrafa de gua mineral, Tim 
conseguiu ficar de tal forma que podia pensar um pouco mais claramente e agir 
com um certo controlo. O que necessitava era de caf - e da Guardia Civil! Desta 
vez iria dar uma ensaboadela a Rigo. E, alm disso, tinha de telefonar ao 
consulado em Palma. Demasiado cedo? Claro. Aqueles fulanos no pegam num 
telefone antes das dez...

Tirou do armrio umas calas de ganga e uma camisa e tentou no olhar 
para os vestidos de Melissa. Ali estavam, pendurados to silenciosos, to 
inteis 
e suprfluos como os vestidos de uma defunta... Precipitadamente, fechou o 
armrio e seguiu para a porta. Comeou a correr quando um leve som de 
campainha lhe indicou que o elevador ia parar no seu piso. A porta deslizou. 
Duas mulheres seguiam na cabina, ambas com saia igual, aos quadrados, 
casaco igual impermevel azul-escuro, sapatos iguais cardados de sola grossa e 
meias iguais, horrveis, encarnadas, at ao joelho. Cinzenta uma delas, loura a 
outra. Me e filha.
- Good morning!         
Tim tentou sorrir. As mulheres no o fixaram. Voltou-se e ficou aliviado 
quando a porta voltou a abrir, deixando ver a imagem do trio.
Pons?... Estava a falar com um moo de recados. Tambm avistou o 
comprido do Martinez. Havia movimento no trio. Um grupo inteiro de 
excursionistas dirigia-se para a claridade dourada l de fora.
Um novo maldito dia no paraso podia comear! Pons largou o paquete do 
hotel e dirigiu-se para Tim:
- Sr. Doutor! Que bom que j aqui est. Precisamos de uma fotografia da 
sua mulher.
- Ns? - Tim sentiu como a presso na sua cabea comeou a aumentar.
- Bem, os hspedes vo ser inquiridos, para ver se algum ainda a viu 
ontem. Mas como? Ningum conhece a sua mulher. O empregado dos quartos, o 
meu colega Martinez e eu somos praticamente as nicas pessoas que falaram 
com ela. Por isso, vamos deixar aqui na recepo uma foto com um texto 
correspondente. O director Bonet no achou a ideia muito boa. Como sabe, num 
hotel de frias  preciso tomar-se as coisas em considerao, mas Pablo 
insistiu.
- Pablo.
- Pablo Rigo. O da Guardia Civil. Ele j se encontra aqui com os seus 
homens. Dentro de um quarto de hora vai comear a busca no parque. J lhe 
disse que Rigo  um homem capaz.
- Sim, incrivelmente capaz... - Tim teve dificuldade em se dominar.
- Alis, ali vem ele.         
Efectivamente. As mos, como sempre, enfiadas no cinto, balouando 
devagar como um campons que atravessa a sua terra; Rigo foi passando por 
entre os hspedes, que se desviavam dele com respeito. O prprio Tim media 
um metro e oitenta e cinco, e aquele Rigo no ficava muito atrs dele; porm, 
devia pesar bem o dobro.
- Buenos dias! - exclamou, tocando com o dedo indicador no bon. - A 
foto? Tem-na a?
Tim abanou a cabea.
- Vou j para cima, ao quarto.
- Essas fotos de passaporte no prestam. Uma outra foto... e mais uma 
coisa: traga uma pea de roupa pessoal da sua mulher.
- Uma pea de roupa pessoal da minha mulher?
- Temos ces connosco. Tm de ter uma pista, mister.

O eterno mister irritava Tim. Voltou-se e seguiu para cima, onde abriu armrios. 
Uma pea de roupa pessoal?... Por cima do encosto do sof estava uma camisa 
de seda azul- turquesa: a camisa de Melissa. Ontem ainda a tinha vestida. Era 
to delicada que cabia numa mo. Tim segurou-a bem quando tirou da carteira a 
carta de conduo. Na capa de celofane guardava uma fotografia. Era Melissa 
numa cadeira de verga. Na mo esquerda tinha um livro aberto, com o dedo 
indicador direito enrolava um caracol no cabelo, a sua cara estava ligeiramente 
inclinada para o observador: expressivo e bem delineado, um leve sorriso  volta 
dos seus lbios.
A imagem era como um golpe de faca.         
Tambm Rigo pegou na foto com uma delicadeza surpreendente, virou-a 
vrias vezes, olhou para Tim, e pela primeira vez este pareceu ver naquele monte 
de carne qualquer coisa como compreenso.
Passou a foto para Pons.
- J sabes o texto. Coloca a foto de modo que as pessoas a possam ver 
quando se dirigirem a ti, est bem?
Saram do hotel. O grupo de excursionistas tinha desaparecido. Ao p das 
colunas que tinham as lmpadas grandes da entrada em ferro forjado, estavam 
estacionados trs Land-Rover cor de azeitona. Deles saram alguns homens 
quando Rigo levantou o brao, acenando. Dois tinham animais com trelas curtas, 
quando se aproximaram.
Rigo deu as suas ordens. Os homens com os ces acenaram com a 
cabea e aproximaram-se ainda mais. Os olhos dos animais estavam atentos e 
dirigiram-se para Tim.
- Por favor - disse Rigo -, eles tm de conhecer o cheiro. Voc tem a 
qualquer coisa, no  verdade?
Era uma situao completamente irreal para Tim. Tinha a sensao de 
estar de p, ao lado de si prprio, observando uma cena com a qual no tinha 
nada que ver, uma cena to louca e errnea como uma pea de teatro surrealista.
Ali estava ele, ento, aproximando a camisa de Melissa dos focinhos 
pretos dos dois ces de busca. E estes, contentes ainda por cima, cheiravam-na, 
abanando as caudas...

- Ali - disse Rigo, levantando o brao. - V aquele risco cinzento?  a 
estrada para Casas Veyas. Segue at ao cabo e ao farol. Mas por que havia ela 
de tomar essa estrada? Se queria sair daqui, ento seria na direco de Puerto 
Pollensa.
Tim estava sentado sobre uma rocha. Tinha os olhos fechados. A esta 
altura j se podia sentir a fora do sol. H quanto tempo j andavam por ali? 
Uma 
meia hora, quarenta minutos, quarenta eternidades ... O vento passava pelos 
ramos das oliveiras. Mais  direita, ouviam-se pedras a rolar pela encosta, que 
os polcias tinham soltado. E de vez em quando, os ladridos dos ces. Tinham 
passado o parque, a pente fino e nada encontraram. Nada - que significa esta 
palavra? Que era "nada"?
- Oua: e se a minha mulher foi violada? Se foi assaltada por qualquer tipo 
que a atirou nalgum stio, por uma ribanceira abaixo...
Rigo voltou a sua cabea pesada. Sobre as bochechas grandes, 
semelhantes s de um hamster, cresciam pelos cinzentos, entre os quais brilhava 
o suor.
- Violada, mister? Isso acontece aqui. Mas assassinada? Esta 
combinao  extremamente rara em Espanha. No se preocupe.
- Voc no sabe dizer outra coisa se no "no se preocupe"!

- Quer um pouco? - O guarda estendeu-lhe o cantil. Tim aceitou 
agradecido e deixou correr o caf preto e fraco pela garganta.
- Violaes... - disse Rigo, e cuspiu contra a rocha mais prxima. - Vou-lhe 
dizer uma coisa... Antes de vir para aqui, estive estacionado em Magaluff.  
mais 
ou menos a praia mais porca de Maiorca. S lixo e escumalha. Tanto os da terra 
como os turistas. E de Magaluff mandaram-me para Mataro, na Costa Brava. 
Conhece? J l esteve alguma vez? No? Mataro  Magaluff vezes cem! Em todo 
o caso, ali sim, existe o que chamam "violao".
- Porqu "chamam"?
- Porqu? Porque muitas vezes se trata de uma comdia bem feia - disse 
o homem pesado com a voz pesada. - Uma comdia feia, com actores feios: 
turistas bbados e lascivas e muertos de hambre miserveis e lascivos, pobres 
diabos, palermas do sul. Mas isto aqui no  Magaluff. Isto  Formentor. E 
tambm ali em Alcudia as coisas ainda decorrem bastante civilizadamente.
Virou a cabea; o sorriso nos lbios brilhantes de gordura tornou-se 
amargo.
- Tenho a minha experincia e o meu faro. E outra coisa, mister: se se 
tratasse de uma espanhola, seria outra coisa. Mas essas no so violadas. 
Essas ficam em casa... E caso acontea algo, no vo  polcia e no fazem uma 
participao... No caso de estrangeiros,  outra coisa. Esses vo logo  
polcia, 
gritam por socorro.
Tim sentiu o seu estmago: gritam por socorro?! Olhou pela ribanceira 
abaixo. Ali estendia-se o muro de arenito que indicava o limite do terreno do 
hotel. L mais longe, via-se o semicrculo da baa de Cala Pi. Existiam ali 
ainda 
algumas casas e barracas abandonadas, que teriam de ser revistadas, tinha dito 
Rigo. Por que no comearam por l? Qual era o sentido de procurarem naquele 
deserto de rochas? Era sempre a mesma coisa: quando os ces ladravam, 
tinham apenas afugentado um coelho.
Os homens de Rigo tinham-se reunido l em baixo, ao p da passagem. 
Este pegou no seu radiotelefone e disse algumas frases em espanhol. Os 
homens imediatamente desapareceram entre os pinheiros altos californianos do 
parque.
- Ainda tenho de lhe perguntar uma coisa, mister..
- Acabe de uma vez com esse mister estpido! No sou nenhum mister! O 
meu nome  Tannert.
- Mas  precisamente isso. No consigo fixar o seu nome. Prefere 
Senhor? Tem mais nomes?
- Sim, Tim.
- Tim?
- Vem de Timoteus.
- Tambm temos esse nome, Tim: Timoteo.
- E que era que queria perguntar?
- Sim, o qu? - Rigo esfregou o seu queixo. - Primeiro: J lhe aconteceu 
que a sua mulher lhe desaparecesse assim sem mais nem menos?
- Assim sem mais nem menos? Hoje  o meu aniversrio de casamento! 
Por isso  que viajmos at aqui- J lhe expliquei isso h pouco.
- Talvez tivessem alguma tenso?

- No tnhamos tenso nenhuma. Estvamos felizes...
- Feli... - Rigo cuspiu para dentro da erva. Limpou a boca com um leno, 
andou alguns passos, para parar novamente e virar a cabea.
- Felicidade  uma simples palavra, no ? Mas talvez ela sofra dos 
nervos, a sua mulher? H pessoas que, muito subitamente, sem qualquer 
pr-aviso, por um motivo qualquer, que no se compreende, que elas prprias 
no conseguem compreender, se tornam loucas. Ela pertence a esse tipo de 
pessoas?
- A minha mulher  cientista, biloga. De certeza que no pertence a esse 
tipo de pessoas. Isso resulta da sua evoluo, da sua profisso, das suas 
tarefas.
- Ah, tarefas... E que tarefas tem voc?
- No que respeita  profisso?
- Sim.
- Sou mdico. Isso j voc sabe.
- Tem inimigos, pessoas que lhe querem mal?
- Que eu saiba, no.
- Talvez lide com toxicodependentes?
- Oua l bem: por mais que esteja para a a cozinhar qualquer coisa, nada 
resulta. No  verdade, no pode ser verdade. Eu sou mdico de Clnica Geral. 
Tenho um consultrio na provncia, precisamente na Baviera. No existem 
grandes desconhecidos.
- Tambm j ouvi isso muitas vezes, Tim. - Rigo tinha-se posto de novo em 
movimento. Falava por cima do ombro. - E depois existiam mesmo quaisquer 
tipos com quem ningum tinha contado, porque no se podia contar com eles. A 
sua mulher  ento completamente saudvel e feliz?
- Acabe l com essas perguntas parvas! - Tim no conseguia controlar-se 
mais.
- Digamos ento saudvel, Tim. E como vejo as coisas, tambm agora 
est. Por isso, no esteja preocupado, pois voc vai t-la de novo. Voltou a 
pr-se em movimento e seguiu o caminho estreito que levava at ao muro ali em 
frente.

- Como te sentes, Melissa?         
A voz!         
Vinha do silncio. De um nenhures distante, crepitante. Ela j o tinha 
tentado duas vezes: tinha aberto os olhos, olhado para os lados, mas as 
plpebras estavam muito pesadas. Agora conseguia-o sem grande esforo. No 
seu primeiro olhar, quando os sentidos puderam libertar-se lentamente das 
profundezas da inconscincia, era apenas um apalpar incrdulo, uma percepo 
que ela no podia classificar.
- Quase no mudaste, sabes?
A voz...
- Nem mesmo agora. Sabes, tenho fotografias tuas... s vezes, ponho-me 
a v-las. Se bem que no precise delas, a minha memria ainda funciona.
Palavras.         

Pareciam descer sobre ela, silenciosamente, com leveza, to perto... 
Provocavam uma estranha intimidade sem peso, como a luz verde na penumbra 
em que a sala estava mergulhada.
- Dormiste bem, Melissa?         
Palavras que se ouvem num sonho. Sim - era um sonho! A imagem do 
sonho,  qual pertencia a voz, era composta de uma porta grande de dois 
batentes que dava para um terrao e que era flanqueada pelas curvaturas de 
duas janelas. E cortinados. Cortinados brancos...
- Ou sentes-te atordoada? Tens dores? Diz! Tinha dores? Aquela presso 
no interior da rbita dos olhos e um raspar fino, agudo. Tambm as plpebras se 
tornavam pesadas. Caam.
- Melissa, sabes que vejo a tua cicatriz? Agora reconheo-a. Muito 
nitidamente. Mexeste o teu joelho. Isso  bom - ainda se consegue v-la, a 
cicatriz.
Qual cicatriz? Ela tentou reflectir.
- Completamente cicatrizado. Efectivamente. Como era o nome do 
cirurgio, Melissa? Sim, Vranjek... um jugoslavo, no era, Melissa? O rapaz 
sabia 
do seu oficio. Nada mais que um pequeno e delicado risco sobre a tua pele.
Um risco sobre a tua pele... E a voz continuou a falar.
- No meu caso, foi o Taschner. O velho Tashner, de Heidelberg. Tambm 
bom, o professor. Uma inteligncia. Por vezes trabalhei com ele... fazia uns 
esforos...
Esforos? E depois um leve rir. Como ela o conhecia, esse rir! Soltava-se 
de uma camada qualquer dentro dela, tornava-se ruidoso, retumbante, produzia 
medo.
- Com ele no havia muito a ganhar. O pobre do Tashner desperdiou o 
seu tempo. Mas tu, Melissa? Nada, nada mais que um leve risco.
Ela tinha-se erguido um pouco. O novelo da almofada fazia presso contra 
a sua cabea. Todos os seus sentidos estavam a tentar descobrir de onde vinha 
a voz. Na sala no estava ningum - e mesmo assim a voz parecia envolv-la, to 
perto se encontrava.
- Queres que te diga uma coisa, Melissa? Para mim, esta cicatriz  muito 
importante. Extremamente importante. E queres saber porqu? Porque ela 
representa algo de especial.  uma espcie de vitria para mim. Mesmo que 
isso te parea um pouco pattico. Mas . Ela  a prova de que tudo foi como 
realmente aconteceu. E que significa isso? Mais uma vez aquele rir, que mais se 
assemelhava a um rir  socapa.
- Significa, que me pertences. Ainda. Espero que me entendas, Melissa. 
Espero que possas entender. Ouves-me, Melissa?
Antigamente, ela sonhara muito com aquela voz. Antigamente, nem se 
podia defender dela. Quantas vezes tinha acordado de noite a gritar? Mas isso j 
fora h tanto tempo! O nome, a voz - tudo o que era horrvel e que estava ligado 
a 
isso -, apagados.
Tinha acreditado tanto nisso.         
E agora...

- Bem, Melissa, que dizes? Agora estamos novamente juntos. Foi uma 
deciso necessria. Custou-me um bocado, pois questionei-me se estava certo o 
que ia fazer. Fiz uma anlise a mim prprio, Melissa, e por fim reconheci: no 
h 
outra escolha. Sim, foi necessrio que mandasse ir buscar-te. E o que  
necessrio tambm  bom, no sentido mais profundo. Vais ver, meu corao, que 
a necessidade apaga todas as dvidas. Tem a sua prpria lei. Entendes?
Fischer!        
 Foi como que um choque a passar pelas suas costas. Um tremor 
apoderou- se dela, fazendo estremecer o seu corpo todo.
A voz de Fischer!
A sua linguagem. Aquele modo estpido de tornear quaisquer palavras, a 
fim de lhes dar mais peso.
Necessidade... lei? Mandar buscar? Quem a fora buscar? E como? De 
onde? Quando a voz falou da cicatriz, Melissa puxou rapidamente o cobertor 
sobre as pernas e ergueu-se na cama. Depois olhou  sua volta. A vista para fora 
era-lhe vedada pelos cortinados. A sala era grande, oval, clara. Almofadas 
coloridas estavam sobre o banco. Dentro de uma moldura dourada via-se um 
espelho.
Porm, no havia ali ningum. Ainda no!        
 Melissa encontrava-se sozinha sobre a cama. Estava vestida com as suas 
calcinhas e uma camisa curta, que no lhe pertencia. E aquele silncio 
repentino? 
A voz, seria que apenas tinha sonhado com ela?... No, ali estava ela de novo:
- Agora ests mesmo acordada?         
Aquele riso...
- E agora deves perguntar como chegaste  cama. No te preocupes, meu 
corao: a minha empregada levou-te ontem para a cama. Ainda vais conhecer a 
Madalena. Foi ela que te vestiu a camisa. Porque afinal estavas num estado, 
Melissa, em que no podias agir. Foi inevitvel. E se te sentes ainda levemente 
atordoada, isso passa daqui a pouco. Ela voltou a cabea. A palavra "passa" era 
acompanhada de um leve crepitar. Vinha de lado. Sim, ali em cima, sobre a 
msula de madeira, que a dois metros de altura acompanhava a sala toda, 
encontrava-se montado num altifalante: uma caixa plana no mesmo tom de 
madeira. Era dali que vinha a voz? De uma caixinha? E na caixinha estava um 
altifalante? Mas como  que ele a podia ver?
- Admiras-te, no  verdade? Mas tu conheces-me. Preparei tudo. Tive 
menos de vinte e quatro horas para isso. Desde que te voltei a ver, decidi no 
reconhecer a palavra acaso. Destino... gostas da palavra? Agora acalma-te. Tu 
no me vs, porque no te queria assustar quando acordasses. Mas eu posso 
observar- te. Se olhares para cima, para a obra de talha que prende os 
cortinados, ento vs uma cmara. Alis, muito boa. A objectiva  to forte que 
at descobri a tua cicatriz.
Ela no percebeu o que ele quis dizer. Mas olhou para cima: cmara? Era 
verdade - ali, onde seguia um friso de madeira pelo tecto, estava o vidro 
redondo 
de uma objectiva que a fixava.
- J precisei dela uma vez. Para um doente. No foi para ti que a instalei, 
meu corao, no penses... Queres levantar-te agora? Vai at  porta.

Melissa no se mexeu. De um stio qualquer da sua memria surgiram 
factos, possibilidades de utilizao, conexes cientficas: clorpromazina!... A 
composio 4560 era um frmaco com o qual Fred tinha brincado em 
experincias interminveis. Se era misturado com reserpina ou meprobamato, 
podia sossegar-se uma pessoa e, segundo a necessidade, torn-la feliz ou p-la 
imediatamente num sono profundo, uma espcie de desmaio artificial, como 
tambm  alcanado atravs da descida sbita do nvel da glicmia. E um estado 
desses at podia provocar uma sensao muito agradvel.
Era isso mesmo! "O ser humano no  mais que um sistema de funes 
bioqumicas e electrofsicas ... " Uma das frases preferidas de Fred.
- Levanta-te, meu corao. s capaz. Sobre o sof est um robe. Veste-o 
e vem at  janela.
Melissa obedeceu. Quando se dirigiu para a janela, uma parte da sua 
conscincia seguiu todas as suas aces, enquanto a outra apenas conhecia um 
objectivo: no se deixar magoar...
- Puxa o cortinado para o lado. A luz do sol entrou. Doa tanto que, por 
segundos, fechou as plpebras. Depois abriu os olhos, deparou com o cu e,  
frente, uma parte de um vale com casas castanhas e quintais com hortalia e 
oliveiras. Avistou ciprestes, palmeiras e jacas num jardim maravilhoso. E diante 
dela um terrao com azulejos dourado-acastanhados e uma balaustrada de 
colunas.  sua frente, a menos de cinco metros de distncia, mesmo no meio do 
terrao, estava sentado um homem. Numa cadeira de rodas. As pernas tapadas 
com um cobertor. O seu tronco de ombros largos estava coberto com uma leve 
camisa azul-clara. A cara parecia grande, rectangular. Estava muito queimada. 
Melissa no podia reconhecer os olhos, o homem trazia culos escuros.
O seu corao parou - e por um instante atormentador teve a sensao de 
que nunca mais voltaria a bater.
- Ento - disse a voz do altifalante - aqui estamos de novo, no  verdade?
A mo dela tentou fazer rodar o puxador da porta do terrao. O metal 
fresco no se moveu nem um milmetro. A porta estava trancada...

Tim estava sentado na cama e lutava com os atacadores. As botas de 
montanha, que tinha calado para a aco de busca, eram demasiado pesadas e 
quentes. Para o que queria fazer agora, precisava de tnis. Rigo e os seus 
homens tinham partido, depois de terem passado a pente fino, sem qualquer 
sucesso, as casas e as barracas de Cala Pi.
O telefone tocou. Talvez Rigo? Talvez ainda no tivesse acabado com a 
sua coleco de perguntas mordazes? - Tim levantou o auscultador.
- Est, est!... Bem, vocs devem estar a ter um tempo maravilhoso?! ... 
Aqui ainda continua a chover... Como gostaria de estar a convosco. Podamos 
festejar juntos. Em todo o caso, as minhas felicitaes!
A voz da velha senhora. E to forte e rouca como se estivesse a telefonar 
do quarto ao lado. E com tanta energia!
Tim respirou fundo:
- Voc?
- Pois claro! Hoje  o vosso dia de casados. Um beijinho, Tim, e mil beijos 
para Melissa!
- Sim - respondeu ele.
- Ento, gostam do meu velho Formentor? Um edifcio fantstico, no  
verdade?

- Oua...
- Que foi? Acordei-vos? - Novamente aquele rir baixinho, cheio de 
compreenso... e insuportvel! - Por que no dizes nada, Tim? Que h?
Sim, que h? Como explicar uma coisa que no se podia explicar? 
- Tim? - A voz de Helene Brandeis soava alarmada: - Aconteceu alguma 
coisa?
- E o que se pode dizer! Melissa desapareceu.
- Como? Desapareceu? Que quer dizer com "desapareceu"?
- Desde ontem - Tinha dificuldade com a sua voz. - Queramos ir l acima 
para o pavilho de ch... o teu pavilho de ch, Helene. E ela nunca chegou l.
- Mas como?
Tim tentou explicar-lhe. Tinha-o tentado j tantas vezes para si prprio e 
ficava 
sempre consciente da monstruosidade daquilo que dizia.
Uma longa pausa. Depois, um "Meu Deus..."
- Pois. Mas esse tambm no consegue ajudar. Era a primeira vez desde 
h muito que ela voltava a trat-lo por voc:
- E no tem mesmo uma explicao, Doutor?
-  o que toda a gente me pergunta. Onde hei-de arranj-la, a explicao? 
Que algum a matou? Que ela caiu num precipcio? Conheces Formentor. So 
rochas, penhascos, precipcios, falsias, recifes ... stios ideais para 
acidentes. 
Ou que ela foi violada? So tudo explicaes...
- Sim, claro. - De novo a mesma pausa infinita e a respirao baixinha, 
agora com dificuldade, da velha senhora.
- Um acidente? Mas como? Por que razo havia Melissa de fugir, se ela 
queria festejar contigo? E onde pode haver um acidente no caminho entre o hotel 
e o pavilho de ch? No pode ser,  completamente absurdo!
- Pois, absurdo. Mas eu no me sinto nada absurdo. Entretanto, a Guardia 
Civil pediu mais reforos. Vai procurar em todo o lado at ao farol. E, alm 
disso, 
foi anunciada uma busca. Mas que  que vai resultar disso tudo?
- Ouve, Tim, no te deixes ir abaixo. No disseste h pouco que ela queria 
pr o vestido novo? Muito bonito, alis; ela ainda mo mostrou: branco, com 
rendas verdes. Exactamente a cor dos olhos dela... E numa coisa dessas to 
bonita, ela andou por a algures, para tropear numa ribanceira? Mas que grande 
disparate! S disparate!... "baloney", como dizia o meu tio americano Jimmy.
- Baloney ou seja l o que for, que interessa isso agora?
- Tim, escuta! Tim, meu querido! - A voz de Helene Brandeis voltou  sua 
energia. - Claro que isso interessa. No deves perder a coragem. Tens de 
acreditar que tudo vai correr bem. E vai correr tudo bem, podes ter a certeza.
- Podes bem falar!
- Pois. Enquanto estiveres nessa situao diablica... Pensas que vou ficar 
por aqui  espera? Sinto-me responsvel por essa histria toda. Quem  que vos 
mandou para Formentor? Eu! Vou dizer ao Putzer para tomar conta dos meus 
gatos. E vou entrar em aco. Conheo algumas pessoas em quem posso 
confiar. E logo que descubra qualquer coisa...
- De onde? Do Tegernsee?

- Deixa l, Doutor! Mesmo que soe idiota, agora no to posso explicar. Em 
todo o caso, vou tratar de arranjar um bilhete e, se conseguir, estou amanh a 
no 
Formentor...
Estranho - a ideia de que uma mulher de 75 anos, meia maluca, de 
cigarrilha na boca, queria aparecer ali, no o assustava. Pelo contrrio...
- Mas isso no  possvel!
- No que no !  possvel, porque precisas de mim, Tim. Mesmo que 
digas cem vezes "que quer a velha carcaa?". Porm, conheo bem Formentor e 
falo espanhol. E vou pr essa gente toda a mexer. Tratarei de fazer que tudo 
decorra como deve ser. Os habitantes de Maiorca. Tim, eu sei: boa gente, 
enquanto no os incomodamos quando dormem... Mas depois, no se pode 
confiar neles! Por isso, vou para a. E tu, Tim, no desistas, no percas a 
coragem. Mandarei para o hotel um fax com a minha hora de chegada.
Um fax com a hora de chegada?... Tim acendeu um cigarro, lanou um 
olhar para a garrafa de gua mineral, que estava em cima da mesa, e outro olhar 
para toda aquela beleza de cu e mar azul l fora. Dirigiu-se para a porta e 
entrou 
no elevador.
Na recepo, havia um pequeno cartaz do tamanho de uma folha de escrever  
mquina. "Exmos. Srs. hspedes", lia-se, "A senhora Melissa Tannert, da 
Alemanha, uma das nossas hspedes, encontra-se desaparecida desde ontem  
tarde. Quem tiver visto a Sra. Tannert ontem a partir das dezanove horas, no 
prprio hotel ou na rea  volta deste,  favor dirigir-se imediatamente  
recepo."
Por baixo, a fotografia de Melissa: Melissa na sua cadeira de verga, um 
livro nas mos. Uma Melissa que, com os seus olhos verdes sonhadores, 
contemplava amavelmente o observador...
Tim acelerou o passo. Pessoas vinham ao seu encontro: homens, 
mulheres, duas ou trs crianas. E todos queimados pelo sol, descontrados, 
vestidos de cores vivas e com movimentos relaxados que evidenciavam ter todo 
o tempo disponvel.
As cabeas voltavam-se para ele. Curiosidade nas caras e compaixo. 
Teve dificuldade em no comear a correr. Chegou ao parque de 
estacionamento, ligou o Seat vermelho e seguiu em direco a oeste, atravs do 
parque, at  estrada que levava a Pollensa, passando pelo cume dos montes...
A porta do terrao era de vidro especial, to indestrutvel como uma 
parede de ao. Mesmo balas no podiam trespass-la. Apenas podia ser aberta 
pelo puxador exterior.
- Funciona muito simplesmente, meu corao. Basta s carregar num 
boto. Posso fechar a porta electronicamente. Por vezes, so necessrias estas 
medidas de precauo, porque podem acontecer situaes em que se deve 
proteger as pessoas de si prprias.  claro que no falo de ti. J disse: h um 
ano atrs tive doentes aqui, e foi necessria esta instalao. Mas tu, por amor 
de 
Deus, no deves sentir-te aqui comigo como uma prisioneira, mas como uma 
princesa, uma rainha.

Rainha?! Que mais havia de ser? Tambm isto era tpico. E talvez fosse 
ainda mais significativo o facto de ele no estar consciente da nulidade das 
suas 
frases. Fischer j tinha vivido num mundo em que tudo ligado ao seu ego sagrado 
era empolado num formato Kingsize. Desde outrora que tinha passado muito 
tempo, pelo menos o tempo suficiente para esquecer como ele tagarelava de um 
modo envaidecido e pattico. Porm, agora Fred Fischer tinha feito parar o 
tempo. Pior ainda: tentava faz-lo recuar, e, doido como era, estava agora 
convencido de que o conseguia. Sim, doido... e de que maneira - mas isso no 
era problema dela. O importante era reconhecer que o homem estava louco. 
Fechara-se numa gaiola de pesadelos, que s um doente pode imaginar.
O olhar de Melissa voltou novamente da porta fechada para cima, para os 
painis de madeira, passando pelo altifalante at ao olho de Ciclope de vidro 
escuro da cmara de televiso.
A lente continuava a fix-la. Melissa levantou-se, voltou-se e seguiu, passo 
a passo, pela beira da cama, sentando-se de lado.
O olho electrnico no se moveu. Estaria desligado? Melissa voltou-se 
novamente e olhou para a outra parede, onde estava uma bonita cmoda antiga, 
arqueada e com embutidos de metal. Ao lado, um espelho. Talvez ele...? Havia 
espelhos atravs dos quais se podia ver como atravs de vidro. Sim, talvez 
estivesse ali algum por detrs, a observ-la. A sua nuca comeou a ficar 
quente, 
at mesmo a pele parecia comear a crepitar, s de pensar nisso. "No te 
ponhas maluca! Fica calma e comporta-te como se achasses tudo normal. E, 
mais importante ainda, pensa normalmente."
O ar condicionado do quarto ventilava uma frescura agradvel sobre a sua 
cara. Olhou para o relgio: os ponteiros indicavam catorze horas e vinte e dois 
minutos. A data era "2., 26".
"Segunda-feira, dia 26?... E ontem, quando quiseste ir at ao pavilho, era 
domingo, pouco depois das sete. Dezanove horas ento... E dessas, passaste 
dezasseis numa espcie de sono profundo."
Mas as dezanove horas?!         
Dezanove horas que para Tim deveriam ter sido o inferno, dezanove horas 
em que ele, a cada segundo, deveria ter perguntado: que aconteceu? Que h 
com Melissa?! - Bom Deus, ela bem o conhecia... A mnima coisa que lhe 
dissesse respeito tornava-o excitadssimo. Quantas vezes ela se tinha rido dele 
porque estava sempre preocupado, sim, ria-se dele e sentia uma satisfao 
secreta e um certo orgulho.
Mas agora? Que fazia ele?        
 Tinha esperado no pavilho. Estivera l, a esperar com as suas duas 
garrafas de champanhe, enquanto um dos cmplices de Fischer a assaltava, 
dando-lhe uma injeco, para a levar depois para o carro. Mas Tim tinha 
esperado; sim, tinha esperado a noite toda. De certeza que tinha alarmado a 
polcia e empregue todos os meios para a procurar. Ele tinha de endoidecer. Que 
estaria a pensar, que fizera ele, que fazia ele agora?
Porm, estes pensamentos no levavam a nada. E o pior ainda era o 
seguinte: no tinha a mnima possibilidade de enviar uma notcia a Tim.
No, restava-lhe apenas manter calmos os nervos, reflectir sobre cada 
passo, estudar as reaces de Fischer e aproveitar todos os detalhes que lhe 
oferecessem uma oportunidade. Nem que fosse a mais pequena.


Por mais que Melissa pensasse sobre a sua situao, uma coisa estava 
certa: Fischer no a manteria por muito tempo presa naquela gaiola de 
laboratrio com as suas cmaras de vigilncia e os seus espelhos. Ele 
continuaria a observ- la, e outras instalaes semelhantes podiam estar 
espalhadas por toda a casa. Na casa, sim mas a propriedade toda com os seus 
terraos, os anexos, jardins, pomares, era enorme. Que significava isso? Havia 
mais gente a morar ali. Madalena j era sua conhecida. H cerca de meia hora 
tinha entrado com um grande tabuleiro - e logo a seguir ouviu-se um barulho no 
altifalante; a voz de Fischer fez-se anunciar com um comentrio:
- Um pouco atrasado, o pequeno-almoo, meu corao, mas que te faa 
bom proveito. Os ovos so fresqussimos. At temos galinhas em Son vent...
Para a espanhola ou maiorquina gorda e silenciosa, parecia 
completamente normal que o seu patro comunicasse pelo microfone. Tinha 
pousado o tabuleiro e arranjado os pratos e os talheres sem olhar uma nica vez 
para Melissa.
Bom, esta era a Madalena. Depois, havia o marido de Madalena. Melissa 
tinha-o observado da janela: um homem alto, de ombros largos, uma barba 
cinzenta  volta da cara quadrada. Cerca de 4O anos de idade, no mais. Ambos 
eram uma espcie de casal mordomo-governanta em... como se chamava?... 
Sim, "Son-Vent"...
L em baixo, havia plantaes de laranjas. Depois, os ces no canil, que 
ela ouvia ladrar de vez em quando. Havia terrenos com tomate, feijo verde e 
pimentos, vinhas e amendoeiras. Para duas pessoas era demasiado trabalho... 
Tinha de haver mais trabalhadores ou jardineiros. Talvez tambm pessoal que 
vigiava? Que sabia ela?
E ainda havia mais algum que ela tinha conhecido. Um alemo. Daqueles 
com os quais no se pode contar para qualquer ajuda.
H pouco, quando Fischer tinha chamado, todo orgulhoso, a ateno de 
Melissa para as magnificncias do seu mundo, aquele homem tinha sado da 
casa; elegante, gil e muito bem vestido: calas brancas, sapatos de vela azuis, 
camisa elegante, o porte propositadamente descontrado. O que a assustou foi a 
cara dele, muito magra, e a boca sem lbios, como que traada por uma faca. No 
crnio ossudo viam-se colados cabelos finos e desgrenhados.
- Este  Ulf, meu corao. Ulf Matusch.
Tinha o correio nas mos, cartas que entregou a Fischer no terrao, e os 
olhos cinzento-claros, que passaram furtivamente pela janela, eram to vazios e 
sem expresso que Melissa sentiu um calafrio.
- Ulf  uma espcie de faz-tudo, meu corao - sussurrara Fischer pelo 
microfone, quando Matusch tinha sado novamente. - Extremamente activo. Podes 
crer: pessoas em quem possas confiar so bem precisas aqui.
Era do que ele, presumivelmente, tambm precisava. Pessoas que, sem 
dizer uma palavra, espreitam uma mulher estranha no parque e a anestesiam 
com uma injeco, para a levar para ao p dele.
- No pode ser de outra forma. Mas doseei a coisa de tal forma que no 
sentisses quaisquer efeitos. Ou sentes alguma coisa, meu corao?
Melissa seguiu at  pequena mesa onde Madalena tinha pousado o 
tabuleiro com o pequeno-almoo. Tinha comido; tinha feito os possveis para o 
fazer, se bem que o seu estmago se tivesse revoltado de tal modo que receara 
ter de vomitar. Melissa no se poupara.

Tinha de comer qualquer coisa, pois precisava de foras para pensar e 
agir.
Pegou na cafeteira e encheu apenas meia chvena. "No tomes 
demasiado, a tua circulao tem de se manter normal! E a cada golo, a cada 
bocado, ters de te perguntar se aquele gnio da qumica te ps alguma coisa na 
comida!"
- Que  afinal o ser humano, meu corao? Um sistema que reage  
presso de um boto, a combinao de algumas glndulas e um pouco de 
electricidade. Ns bem sabemos isso do nosso trabalho.
"E que  ele?" pensou ela. "Um porco emproado, arrogante, sem 
conscincia!"
Porm, a fria desamparada dela desmoronou-se como um monte de 
folhas secas sob o qual se ocultavam desespero e lgrimas. J antigamente, nos 
breves instantes em que se permitia reflectir sobre Fred Fischer, tinha-o odiado 
e 
temido - e resistido.
Mas agora, agora encontrava-se nas suas mos...
O tempo com ele no podia assim simplesmente ser apagado, como 
Melissa tinha esperado. Agora, ele tinha voltado, para fazer girar de novo a 
roda...

Quando Melissa assinou o contrato coma "Farmcia Fischer", estava 
ainda a trabalhar na sua tese. Deus, como se sentia orgulhosa. Nem tivera de se 
candidatar. Fischer tinha-a contratado ainda ela estava a estudar.
"Leitura de mo", como ele dissera. Durante muito tempo, Melissa 
recusara- se a aceitar o que o chefe queria dizer com isso. Ignorava os seus 
olhares, o seu sorriso, a mo sobre o ombro dela quando se debruava sobre os 
relatrios. Nessa altura, trabalhavam na anlise de sistemas de enzimas, cuja 
engrenagem providenciava a transmisso de impulsos nervosos. Os 
neurotransmissores eram a rea especial de Fischer, o seu efeito e a sua 
influncia no sistema nervoso fascinavam-no. "Quem tiver dominado isso, no s 
pode comandar o decorrer de uma doena, como o computador comanda a 
mquina, mas at o ser humano completo..." Por vezes, Melissa desconfiava de 
que ele prprio tomava aquela coisa diablica que tanto o fascinava.
Muito em breve, Melissa obteve o seu prprio laboratrio com porta 
prpria e o nome dela por cima. E pouco tempo depois comeava a receber de 
Fischer flores, livros, convites...
"Se gostas do teu trabalho, afasta-te do teu chefe." Tambm ela agia 
segundo este lema de uma amiga. Mas ele no a largava. "No quero uma jovem 
amante, meu corao... No me entendes. Tambm no entendes a tua situao. 
Isto , ainda no a conheces. O que nos aproxima tem a fora de uma lei natural. 
 como nas molculas com que trabalhamos: uma fora interior consegue que um 
anel se junte a outro. Elementos destinados uns para os outros tm uma atraco 
mtua. J Plato sabia isso, bem como os chineses."

O seu Plato, os chineses... Aquela tagarelice empolada, pseudofilosfica, 
punha-a doente. Mas pior ainda era o facto de ele no desistir! Todos os dias 
estava o moo de recados  espera em frente da porta de Melissa com as doze 
rosas Bacar, todos os dias ela encontrava aquele sorriso de coruja por detrs 
daqueles culos de lentes grossas. As prendas, os privilgios, os pequenos 
bilhetes com os seus aforismos filosficos e citaes, que ela encontrava entre 
relatrios, espectrmetros e microscpios... Melissa aguentou durante seis 
meses. Depois, viu que tinha de se ir embora, se no queria ser despedida com 
todo o alarido da "Farmcia Fischer".
Num dia 24 de Setembro, um dia de Outono ameno e maravilhoso, 
Melissa escreveu a sua carta de demisso e p-la em cima da secretria de 
Fred Fischer.
Isso aconteceu pouco depois das dezassete horas. Ela nunca iria 
esquecer os minutos que se seguiram. Um quarto de hora mais tarde ele estava 
no gabinete dela, impecvel no seu jaqueto cinzento s riscas, o seu sorriso 
bondoso e superior como sempre. Daquilo que tinha escrito, nem uma palavra.
- Melissa, temos de ir imediatamente a Frankfurt. O nosso cliente deseja 
ainda alguns pormenores sobre a nossa experincia. Preciso de ti, meu corao.
Nem mesmo do "corao" tinha desistido. Ela apenas abanou a cabea. E 
depois disse-lhe que aquela viagem a Frankfurt era apenas um pretexto.
A resposta dele foi tpica: acenou com a cabea e negou simultaneamente.
- Em ambos os casos, trata-se de uma deciso, tens razo. Nunca fugi a 
decises durante toda a minha vida. Responsabilizei-me sempre por elas.
Ento!? Por que  que ela no recusara outrora, e se sentara no Jaguar 
azul dele? Melissa pensou mais tarde, muito tempo, sobre isso. No encontrava 
resposta. Tambm no protestou quando ele, em vez de tomar o acesso  auto- 
estrada, seguiu pela estrada antiga para Dossenheim, que levava atravs das 
pequenas aldeias romnticas entre as vinhas da plancie do Reno. Ao lado dela, 
uma sombra macia e escura, e a luz do painel dos instrumentos espelhava-se na 
sua cara curiosamente lisa e nas lentes dos culos. Como sempre, no tinha 
posto o cinto de segurana. Comeou a acelerar, cortava as curvas. J muitas 
vezes ela o tinha repreendido pelo seu modo de conduzir sem cuidado, mas 
daquela forma to selvagem e irreflectida nunca ele tinha conduzido. Talvez 
tivesse tomado qualquer anfetamina; sem os seus "speeds" ele j no podia 
viver. Talvez tambm tivesse sido outra coisa. Ela sentiu como a tenso entre 
eles comeou a crescer e, consequentemente, o seu medo. Dos terraos das 
vinhas flutuavam vus de neblina at  estrada cheia de curvas. O piso brilhava 
de humidade. Ele no se importava com isso. Ultrapassava outros veculos, 
camies, o Jaguar derrapava - e ele ria!
- Tem mesmo de ser?
- O que tem de ser? - Mais uma vez aquele rir esganiado e doente. - 
Sabes, meu corao? Tambm estou a pensar sobre isso; talvez tenha mesmo 
de ser...
Uma nova recta!         
A estrada seguia por um bocado de floresta. Troncos passavam 
rapidamente  direita e  esquerda. Melissa estava toda crispada no seu 
assento. As unhas das suas mos encravavam-se nas palmas, mas ela nem as 
sentia.

- Queres ir embora, meu corao? Tem mesmo de ser? Queres 
demitir-te? Como se algum se pudesse separar de mim com um simples 
papel... Sabes o que isso ? No s  ridculo, como...
O que mais era, Melissa nunca o veio a saber.        
 Porque ele no chegou a pronunci-lo.         
Ela desconfiou de que naquele instante ia acontecer qualquer coisa; viu 
apenas a linha branca da curva voar contra ela. Na estrada havia folhas 
molhadas, disse-lhe mais tarde um polcia, que a interrogou na ambulncia. E 
folhas assim so mais perigosas que sabo... Mas como tinha acontecido o 
acidente, ela j no se lembrava. Ouviu ainda um grito - nem sabia se vinha dela 
ou dele -, sentiu um golpe e depois s ouviu aquele rudo horrvel e chiante de 
metal dilacerante. Melissa esteve desmaiada durante algum tempo, mas no 
muito. Como tinha colocado o cinto de segurana, no tinha sido cuspida do 
automvel. Fora o que lhe salvara a vida. O assento ao seu lado estava vazio, o 
vidro da frente partido.
O corpo de Melissa no acusava nenhumas feridas, para alm de um 
golpe profundo um pouco acima do joelho direito. Apesar disso, no quis 
mexer-se. Inerte, pendurada no seu cinto de segurana, tinha sido encontrada 
pelo motorista de um camio da tropa. Mdicos do hospital de Heppenheim 
diagnosticaram um ligeiro traumatismo cerebral e um grave choque psquico. 
Naquela mesma noite, Fred Fischer tinha sido operado de emergncia no 
Hospital Universitrio de Heidelberg. A operao salvara-lhe a vida, mas a grave 
leso da coluna transformara-o num homem cujo corpo nunca mais obedeceria  
sua cabea.
Melissa nunca mais o vira.         
No entanto, no se veria livre da recordao de Fred Fischer. Quando saiu 
do hospital, tentou lutar contra uma sensao obscura, quase irracional, de 
culpa. 
Durante semanas, teve profundas depresses. Estava completamente incapaz de 
reagir, at que tomou a deciso razovel, e mesmo essa tinha-lhe sido proposta 
por um psiclogo amigo: desfez-se da sua casa e foi para Munique, a fim de 
aceitar um emprego no Instituto Max-Planck.
Porm, a viagem catastrfica e fantasmagrica com Fischer pesava sobre 
tudo o que fazia e pensava, at que encontrou aquele homem alto, descontrado, 
com aqueles dois remonhos escuros e teimosos no cabelo e aquele olhar 
penetrante, mas ao mesmo tempo meigo e simptico, debaixo de umas 
sobrancelhas densas. Ele f-lo com uma naturalidade que quase a atordoou e a 
deixou agradecida. Tim pegou-lhe simplesmente na mo e levou-a para longe, 
para um outro mundo, o seu mundo... Agora, as sombras tinham regressado.
Absurdo ou no, era prisioneira de Fred Fischer - e, com isso, prisioneira 
do seu prprio passado. Agora, ele estava ali de novo, surgido do nada...

Este era um dos factos que tinha de aceitar; o outro enchia-a apenas de 
admirao: tinha perdido o medo de Fischer. Tinha-o despido Como um vestido 
que j no lhe servia. Tambm estava admirada com a clareza com que percebia 
a sua situao: "bem, ests nas mos dele. Isso tambm ele acredita, est 
mesmo convencido disso. Uma coisa, porm, est igualmente certa: tambm tu 
tens poder sobre ele. E tiveste esse poder desde o princpio. S no o querias 
admitir. Eras demasiado jovem e inexperiente."
"Agora, tudo mudou. E  nisso que se baseia o jogo dele,  nisso que o 
seu crebro doente v o encanto da situao. Joga segundo as regras dele. 
Ainda esta vez...
Mas essas regras podiam ser modificadas. De qualquer maneira, em 
qualquer altura, numa oportunidade qualquer, que ele avaliaria mal, seria ela a 
jogar. E ento terminaria todo o horror...

A participao de busca tinha sado. E, mais uma vez, Tim viu  sua frente 
os dedos gordos de Rigo. Os dedos da mo esquerda. Com a direita, tinha 
torcido um dedo por cima do outro.
- Agora esto todos em aco, Doutor: o comando, a Guardia Civil, La 
Rural, a polcia do estado. E at a polcia municipal. Depois, a alfndega. Em 
sexto lugar, a polcia de trnsito. Em stimo, a polcia martima. Todos esto 
informados. At no aeroporto se sabe disso.
- Aeroporto? Porqu, por amor de Deus? Por que h-de a minha mulher...
- Isso no sei, Doutor. Mas Maiorca  uma ilha. L isso era - e de que 
maneira! Em cada olhar que as curvas apertadas permitiam fazer, a vista para o 
mar tornava-se maior e mais bonita. Desta vez, Tim no foi at ao centro da 
vila, 
mas para o Puerto de Pollensa. Seguia rpida e concentradamente. "No se 
preocupe, Doutor" tinha dito Rigo. "No esteja preocupado." Ele bem podia falar. 
Tim no tinha a mnima confiana naquele aparato todo que o sargento da 
Guardia Civil lhe tinha descrito com tanto orgulho.
Apenas confiava em si prprio. "Ser mdico significa, em primeira linha, 
usar a sua prpria capacidade analtica de pensar. Em cada diagnstico  
importante encontrar primeiro o fio da meada...
Mais uma daquelas frases sbias do seu professor, tutor, do seu 
doutoramento em Goettingen. Muito bem, professor Sawitzky! Mas se o novelo se 
compe de uma srie de fios soltos? Ento?
"Tenho de apanhar um desses fios" disse Tim para si prprio quando o 
Seat se encontrava finalmente na longa recta para o Puerto. "No tem de ser o 
melhor. Mas continuar a procurar; a procurar o prximo fio! Que mais te resta? 
Mesmo uma aco sem sentido  melhor que estar por a sentado com um ar 
aptico."
Conduziu o carro at ao porto e olhou para a baa cintilante. Eram 
dezasseis horas e estava muito calor. Raparigas em biquini, homens em cales, 
sandlias nos ps nus. Mulheres em vestidos de Vero na geladaria, grupos de 
crianas alems, inglesas, francesas. E l mais longe na baa, como asas 
coloridas de borboletas, as velas dos surfistas.
Fazer qualquer coisa! Mas o qu?         

A entrada do porto vinha um pesqueiro largo com o seu som caracterstico. 
Tim saiu do carro e fumou um cigarro. Provinha do segundo mao desse dia. A 
onda da proa do barco pintado de verde e branco fazia balouar os outros barcos 
no molhe. Pequenas ondas batiam suavemente contra os velhos muros - mas ele 
no se podia defender contra uma imagem que o perseguia. Tinha-se-lhe fixado, 
ainda que tentasse reprimi-la: um corpo inerte. O corpo de uma mulher. Algures, 
balouando sobre as ondas que o empurravam lentamente para a costa. Um 
corpo branco e cabelo longo, que se movia como algas escuras na gua... 
Comeou a andar mais depressa e seguiu at  parte do porto onde tinha 
entrado o barco grande e em cujo molhe estavam amarrados os barcos de 
pesca. Procurar por toda a costa? Loucura! Onde j se viu tal coisa?
Eram todos iguais, os barcos maiorquinos: tinham um aspecto slido e 
eram bons para a navegao. Tim descobriu um jovem de cabelo escuro, que se 
encontrava a encher o depsito com gasleo.
- Perdo, fala ingls?
O rapaz tinha barba escura nas faces e dentes sorridentes brancos como 
a neve numa cara simptica de pirata.
- Se quiser, tambm alemo, ou maiorquino - riu-se. - Aqui falamos tudo.
- Podia levar-me por a?
- Por a? Que quer dizer com isso?
- Pela costa, at ao Formentor.
- Ah, um bom stio! Pois bem ... Venha da. Vou, se me pagar.
- No se preocupe com isso.
- Com certeza que no - disse o jovem, apertando a tampa do depsito e 
pondo o motor a andar. O seu nome era Tomeu e o seu orgulho era o barco, que 
tinha comprado a um tio. Tomeu tinha ainda um outro barco, uma lancha com um 
potente motor fora-de-bordo. E a coisa toda era de borracha. Esses barcos de 
borracha, achava Tomeu, tinham a vantagem de ele os poder fazer desaparecer, 
quando necessrio, algures numa gruta, sem que a Guardia Civil ou a Dogana, a 
alfndega, descobrissem alguma coisa. Tomeu era, portanto, contrabandista.
-  isso - anunciou ele com orgulho -, j o somos desde h quatro 
geraes.
Tim deixou-o falar, fumando um cigarro e fixando o mar.        
- Que procura, afinal?         
Tim tirou os seus culos de sol e pediu a Tomeu para se aproximar mais 
da costa.
- No  possvel. Pouco fundo. Para isso teria de utilizar o barco de 
borracha. Aqui h rochas. Ento, que procura?
- A minha mulher - respondeu Tim.
O rapaz ficou atnito:
- A sua qu?
- A minha mulher. Desapareceu ontem.
- O qu? A sua mulher... - Era sempre aquela expresso incompreensiva, o 
olhar admirado, meio envergonhado, meio compassivo. - Porqu para a costa?
- Porqu, Porqu? No pode imaginar? Que hei-de ento fazer? Olhar 
para o boneco? Estar para a  espera?
- O senhor acha que ela...
- Eu acho muita coisa e no acho nada. Mas talvez tenha sido assassinada 
Por algum... Talvez esteja a boiar na gua... Talvez venha dar algures  
costa... 
Tenho estado a observar o mar, as ondas vm desta direco, de nordeste. Ou 
existe aqui alguma corrente?
- Sim, existe, mas no  muito forte. Mas quer procurar pela costa toda? - 
Novamente aquela cara assustada.

- Enquanto Puder ser - retorquiu Tim -, enquanto ainda houver gasleo, 
enquanto tivermos luz e enquanto pudermos.
E foi o que fizeram. Passava das oito quando Tim fez sinal para virar. No 
depsito j havia pouco combustvel e estavam meios mortos de fome...

Tera-feira, 12 e 30.
O sistema automtico tinha aberto as portas da alfndega e ali estava ela, 
e atrs dela os restantes passageiros, a falar alegremente do voo da Lufthansa 
Munique-Palma de Maiorca.
Ela era um espectculo absolutamente empolgante. Aquela roda de carro 
de chapu gondoleiro, por baixo uns culos escuros, depois um casaco de seda 
a esvoaar, em cores vivas de Outono. At vinha de saltos altos. Tim engoliu em 
seco: "Meu Deus, e a artrose nas ancas?" Mas essa no parecia estorv-la nem 
um pouco. Num passo majestoso e com os brincos a balouar, uma espcie de 
mistura de rainha do Sab e Bette Davis, ela passou por ele com o seu carro de 
bagagem.
O brao de Tim ergueu-se:
- Ora viva! - gritou atravs da multido no hangar do aeroporto. Caramba, 
tinha acabado de fazer uma corrida louca pela ilha, a fim de chegar a tempo ao 
avio... e agora aquilo!
Helene Brandeis tinha parado e acenou para ele. Ele foi avanando at 
ela. Helene tirou os culos e depois s havia cheiro a p de arroz e tecido de 
casaco e dois braos que o agarraram pelos ombros:
- Ah, Tim! Vs, consegui. Mas como, no me perguntes. Se soubesses 
pelo que eu passei. Pois, e tu tambm... D-me um beijo! Mereo-o. E a outra 
coisa? Havemos de resolv-la. Vamos buscar a Melissa.
- E onde?         
Voltou a colocar sobre o nariz aqueles monstros de culos dos anos 50, 
guarnecidos de strass.
- O que eu preciso agora  de um caf. Antes de ele o poder agarrar, 
Helene empurrou o carrinho da bagagem. Parecia conhecer bem aquele caixote 
enorme feito de vidro e ao. A a uns vinte metros de distncia havia um nicho 
onde serviam caf. Todas as cadeiras estavam ocupadas.
- No pode ser, Tim! - Helene movia a cabea como se farejasse. - Queria 
mostrar-te uma coisa, mas aqui todos podem ouvir...
- Ouvir? Quem  que h-de ouvir? E o qu?
- J vais saber, Tim. Bem, vamos embora.         
Tomaram a auto-estrada para Inca, onde quela hora reinava um trnsito 
diablico. Ao subirem uma encosta cheia de amendoeiras, Helene de Brandeis 
pegou-lhe no brao:
- Ali,  direita! Bonito, no ?         
Era isso: uma casa grande, trrea, que fora uma quinta, situada sobre 
terraos de pedra.  entrada, buganvlias, sardinheiras e trepadeiras; palmeiras 
atiravam a sua sombra sobre meia dzia de mesas brancas e sobre o saibro.
- Abre l a mala, Tim! - Helene Brandeis tirou uma pasta castanha da sua 
bagagem. Era uma pasta em couro, extremamente elegante, cujo canto estava 
guarnecido a ouro. Pousou-a numa das mesinhas brancas e pediu caf a uma 
das raparigas. Tim pediu cerveja. Era amarga.

- Que quer isto dizer? Que est a dentro?
- Digamos, um pouco de passado. Uns pequenos bocados.
- Como?
- Quando estivemos a falar pelo telefone, apenas h vinte e quatro horas, 
fiquei arrasada. Depois comecei a pensar... e de que maneira! Isto , primeiro 
reflecti sobre as minhas possibilidades. Vi duas direces em que esta histria 
horrvel pode ter seguido.
Helene acendeu uma cigarrilha, a primeira desde a sua chegada  ilha; 
sugou-a com grande intensidade e deitou fora uma imensa nuvem de fumo:
- Duas direces. Uma delas no seguia para nenhum lado. Catstrofes 
so becos sem sada. Catstrofes podem sempre acontecer. Se sais de casa e 
te cai em cima um tijolo, que se h-de fazer? Desculpa, soa brutalmente, mas  
assim... Bem, e ento a outra, essa oferece j uma perspectiva.  evidente que 
se baseia numa suposio, e mesmo isso  exagerado. Instinto  a palavra mais 
certa. Uma questo de sensao, Por vezes, tenho esses palpites. Como mulher 
jovem, vivia s para fora, mas agora no me resta mais nada do que concentrar a 
minha ateno para o interior.
Tim comeou a ficar impaciente. Acenou com a cabea.
- Sim, acredito, e depois? 
- Tim, j deves ter Pensado, ou pelo menos perguntado, se no haver 
algum que conhea Melissa, digamos de antigamente, e que pudesse t-la 
encontrado?  uma questo que se pe.
- Que se pe? Toda a gente me fala nesse disparate. E agora tambm 
voc! - Na sua excitao, voltou a trat-la pelo distanciado voc.
Helene sorriu:
- Primeiro, no precisas de gritar, Tim, e segundo, podes continuar a 
tratar- me por Helene. Tambm eu te trato por tu. No sou assim uma figura de 
mam, para que insistas no voc, l por que s licenciado. Sim, bate tambm, 
mas no enlouqueas, Tim. So duas coisas bem diferentes.
- No percebo nada.
- No. - Helene Brandeis sorriu. - Eu sei, s a calma em pessoa. Mas 
voltemos ao que interessa. No te admires se a pergunta sobre o passado de 
Melissa tambm me surgiu a mim. Cada um tem direito ao seu passado, pode 
falar sobre ele ou ocult-lo. Tu prprio o disseste, Tim! E porqu? Porque 
naquela 
histria do acidente, em que ela tinha tanta dificuldade em falar, tu no a 
querias 
incomodar. Tambm eu o disse... Ela prpria me explicou uma vez, naquela 
altura, quando vinha todos os dias tomar ch comigo, para dar quele bicho 
maluco do Farah uma injeco: "O Tim  to atencioso que evita o problema o 
mais possvel. E por vezes at ficaria agradecida se falasse com ele sobre isso. 
Bem, tive aquele acidente, e as consequncias foram um choque traumtico. 
Pelo menos,  o que lhe chamavam os psiclogos nessa altura. E ele agarra-se a 
isso. Trata-me como um ovo cru." Estas so as prprias palavras de Melissa.
- E depois? Estava errado? Acabe l com isso!

- Queres dizer "acaba" - corrigiu Helene Brandeis com uma indulgncia 
implacvel. - Bebe l ento primeiro um conhaque, depois da tua cerveja. Outra 
coisa. Toma! - Pousou finalmente a horrvel cigarrilha e meteu a mo na 
carteira. 
O que de l tirou eram trs pginas escritas  mquina. - Trouxe isto para ti. 
Paschke mandou-me isto por fax logo de manhzinha.
- Por fax?
- Claro. Tenho um fax l em casa.  uma coisa necessria, hoje em dia. 
Sobretudo, quando se  membro do conselho fiscal de uma fbrica de 
rolamentos, como eu.
- E quem  Paschke?         
Ela olhou para ele com os seus olhos grandes, azuis e sbios.
- Um amigo. Paschke-Wiesbaden... Tenho ainda um outro Paschke; Paschke II.
Foi treinador de cavalos em Baden-Baden. Um homenzinho pequeno e 
magro. Paschke-Wiesbaden, por sua vez,  redondo, gordo e simptico. 
Trabalhou na Polcia Judiciria. Ex-director do NKA (Polcia Judiciria 
Federal). 
Um reformado daqueles que tm os seus conhecimentos. Basta premir um boto 
ou fazer um telefonema.
- Mas, por amor de Deus, que tem Melissa a ver...
- No tem nada. E por que razo a Polcia Judiciria se havia de interessar 
por ela? Mas por ele, sim!
- Ele?
- Sim, Fred Fischer. O ex-patro de Melissa. Aquele que provocou o 
acidente. Olha para isto: esta folha so dados sobre Melissa. As outras duas tm 
material sobre Fischer. Paschke chama a isto um "registo, de vida".  o que 
qualquer policia precisa quando se ocupa de um caso. Os dados dos ltimos 
anos, o trajecto que uma pessoa faz at  altura que haja uma exploso. Mas, em 
primeiro lugar, Melissa...
Pela primeira vez, desde que o conhecia, Tim agarrou numa das 
cigarrilhas de Helene. No a acendeu, mas encostou-se para trs e olhou para 
cima, para aquele cu azul da ilha, quase irreal. Faixas de condensao 
cortavam-no. Incansavelmente, os avies traziam pessoas. A maioria delas 
estava cheia de expectativa, felicidade, nostalgia. E os seus problemas viajavam 
com elas. E os segredos...
- Aqui temos - ouviu Tim, a voz objectiva e baixa da velha senhora: - 
"Klinger, Melissa. Data de nascimento: 14.3.59, em Neuburg, ao p do Danbio. 
Proveniente de famlia burguesa"... etc, ete... Mas agora torna-se interessante: 
"Melissa Klinger terminou o seu curso de Biologia em Heidelberg com tanto 
sucesso que, antes de obter o seu diploma, lhe ofereceram no laboratrio de 
farmcia Fischer, em Heidelberg, um emprego por trs mil e quinhentos marcos. 
Aps uma actividade de trs meses, o proprietrio da empresa, Fred Fischer, 
aumentou esta quantia em mais mil marcos mensalmente, o que numa firma 
pequena provocou algum escndalo, tanto mais que aquela generosidade no se 
atribua apenas a um interesse profissional. Quando, em virtude de ocorrncias 
na Farmcia Fischer, em meados dos anos 80, se iniciaram averiguaes 
policiais, a princpio encobertas, pde constatar-se que o interesse de Fischer 
no era correspondido por parte da sua jovem colaboradora. De resto, no se 
puderam descobrir conexes entre a actividade profissional de Melissa Klinger e 
o objecto de anlise..."

Descobrir... Objecto de anlise... Averiguaes encobertas... Tudo isto era 
to fantstico para Tim que at lhe faltou o ar. E Fred Fischer? Sim, Melissa 
tinha 
mencionado o nome. Ele surgia agora da neblina do passado, mas Tim apenas 
conhecia esse Fischer tal como Melissa o tinha descrito: nem mesmo um 
primeiro nome ela lhe tinha dado. E que ele a tinha ido buscar directamente  
Faculdade, tambm Melissa nunca lhe tinha contado. Fischer era o homem que 
conduzia o carro quando se dera o acidente. E tambm o homem com o qual ela 
anteriormente tinha discutido tanto. Porqu? "No me perguntes, Tim, por favor! 
" 
Se ele tivesse... "Eu depois senti-me responsvel por toda aquela catstrofe. 
Ele 
estava nervoso, Tim, fora de si... Verdade! E depois aconteceu ..."
Aconteceu? Paraplegia. Fractura de trs vrtebras do lumbago. Isso 
tambm Tim sabia. Porm, Melissa nunca tinha mencionado uma nica palavra 
sobre quaisquer "averiguaes" quaisquer "ocorrncias".
- Que averiguaes eram essas? - perguntou Tim, engolindo, repugnado, o 
resto da sua cerveja.
- Bem, agora temos aqui a folha "Fischer". Na folha de Melissa no est 
mais nada que no saibamos. No entanto, revela um pouco os seus segredos.
Tim achou a observao suprflua, at mesmo de mau gosto,
- Que averiguaes?        
 Helene limpou a boca cuidadosamente com o guardanapo de papel e 
inclinou novamente o chapu sobre a folha.
- Tens razo. Despachemo-nos. Vamos falar de Fischer. Da obteremos 
mais resultados. Aparentemente, o Fischer j dava nas vistas enquanto ainda 
estava na Faculdade, porque nessa altura comeou com psicoenergticos... que 
 isso?
- Muita coisa. O caf que ests a beber. A nicotina nas tuas cigarrilhas. 
Talvez queiram dizer compostos  base de fenilalcilamina. Anfetaminas, 
benzedrinas e coisas assim, agentes que excitam... tambm so utilizados na 
Medicina.
- Eu sabia que percebias disto! - A forma oval vermelha da sua unha 
perseguia as linhas escritas  mquina. - Em todo o caso, j nessa altura ele 
dava nas vistas com o seu estilo de vida fanfarro. Mas nunca houve uma queixa. 
A sua afirmao de que tinha arranjado as plulas para uso pessoal, isto , para 
combater o medo dos exames, nunca pde ser refutada. Mais tarde  que foi 
recordado esse mtodo de combater esse medo. Anos mais tarde. 
Precisamente quando Fischer abriu uma farmcia ultramoderna em 
Handschuhsheim, perto de Heidelberg. Tinha encomendas. Em sectores novos 
de pesquisa ele at trabalhava com grandes empresas industriais. Mas aquilo 
era s camuflagem, porque simultaneamente com aquela linha de produo 
oficial, andava a tratar do seu assunto preferido: os agentes excitantes, essa 
porcaria de psicoenergticos. Isso torna uma pessoa dependente, no  
verdade?
- Na maioria das vezes.
- Bem, em todo o caso descobriu-se qualquer coisa. Houve uma 
participao de um dos seus colaboradores. Mas no conseguiram 
responsabiliz-lo, porque os elementos tinham desaparecido. Faltavam provas 
vlidas para o tribunal.
Tim sentiu algo de desagradvel no seu estmago: provas vlidas para o 
tribunal? E um policia da judiciria aposentado, que lhe envia por fax elementos 
da central para a Baviera... Depois, o modo de falar dela.
- Falas para a como um detective.  o teu passatempo?

- Passatempo? Isso foi com Schmalkinn, Tim. Tinha mesmo esse nome: 
Hubert Schmalkinn. H vinte anos atrs ele era o nosso tesoureiro. E pisgou-se 
com dois milhes e meio que tirou da caixa. Andei atrs dele pelo mundo inteiro 
e apanhei-o! Mas voltemos ao Fischer... - Agora ela deitava nuvens de fumo 
como uma locomotiva de um filme de cowboys.
- Fischer, com os seus energticos, com drogas que acabam com as 
pessoas. Mas claro, drogas da espcie fina porque ele tambm  uma pessoa 
fina. Chama-se a isso drogas de designer.
- Tambm sabes isso? Ela piscou os olhos e disse:
- Uma coisa  certa, ele tambm estava a trabalhar nestas drogas de 
designer na altura em que Melissa entrou na empresa.
Tim levantou-se num pice. Ela pousou-lhe a mo sobre o brao:
-  claro que ela no sabia nada disso. Trabalhava num sector 
completamente diferente. Mas depois... um momento... sim; a, est aqui: No dia 
16 de Novembro aconteceu o acidente em que ele ficou paralisado. Esteve um 
ano no hospital, foi operado uma dzia de vezes... tinha acabado a sua carreira, 
tinham acabado a sua obra e as suas drogas. Foi o que se pensou... Bem, a 
farmcia foi vendida. Depois, ele desapareceu. Apenas uma coisa estranha: 
aquela droga diablica com a qual tinha criado nome nos crculos apropriados 
ficou no mercado, e no s na Repblica Federal, mas na Europa inteira e nos 
Estados Unidos, e em tanta quantidade que a polcia da droga americana se 
intrometeu. Com xito, pois descobriram-no. Depois...
Depois? Tim tinha tombado o seu copo de cerveja. Rolou pela mesa e 
caiu no cho. Apanhou-o e colocou-o de novo  sua frente. Da parte de baixo do 
terrao, onde estavam sentados, um campons conduzia o seu tractor pela terra 
vermelha das amendoeiras. Mais  esquerda, de cor castanha e pacfica, 
encontrava-se uma casa. A plancie mergulhava na neblina do calor. E Tim no 
conseguia pensar. Tentou: um fabricante de drogas paraplgico e Melissa? E 
agora esta velha senhora, que lhe revelava um passado sobre o qual ele nunca 
fizera perguntas... Fantstico! Fantstico e fantasmagrico, simultaneamente...
- Agora adivinha onde est Fischer.         
Ele no quis adivinhar. Estava demasiado atordoado.
- Em Maiorca.                
Helene Brandeis atirou a beata lisa e branca para o cinzeiro. Os seus 
olhos pareceram-lhe maiores e mais azuis que nunca. Qualquer coisa brilhava 
neles que ele no conhecia. Instinto de caa, vitalidade? Que sabia ele?
- E vive aqui sob um outro nome. Alfred Fraser. E sabes onde? No muito 
Longe do Formentor. No lado leste da baa, perto de Cala Ratjada. Dali chega-se 
numa meia hora ou quarenta minutos a Formentor. E agora, Tim.... - Helene 
Brandeis encostou-se para trs e cruzou os braos por cima do peito - Agora, 
tenta esforar-te. Pensa bem. Liga umas coisas s outras. Que penosas que 
pode ter acontecido? Como se encontraram?

15 e 10
- Como  que tu sabias? - Melissa disse-o depressa e em voz alta.
- O qu?
- Que Tim e eu estamos no Formentor? Mal acabmos de chegar.

- Como sabia? - Fischer ria, mostrando duas linhas de dentes brancos 
surpreendentemente saudveis - No sabia nada. Isso  que  o mais curioso.
- Porqu?... - disse ela baixinho.
- Porqu? Porqu?... A antiga ideia fixa de querer explicar sempre as 
coisas. Uma ideia, lgica ou razo. Uma ideia, simplesmente.
E novamente o seu riso.         
Ela olhou para ele. Sim, queria dizer uma coisa. Mas no lhe ocorreu 
Nada.
Apenas o fitava.
- Quero revelar-te uma coisa, Melissa: sabes que no me deixo 
impressionar - to facilmente. Tambm tenho um pouco a mania da lgica. 
Quando te vi ali no parque do Formentor, pensei primeiro que estava a sonhar. E 
era um sonho que eu conhecia. O meu sonho preferido. Sonhei-o tantas vezes! 
Mais caf?
Melissa apenas abanou a cabea. Voltou a pegar num cigarro, mas 
apenas o manteve na mo, rodando-o entre os dedos, para evitar o olhar dele. 
No o acendeu. Receava que a mo lhe tremesse.
- Tambm me perguntei isso - ouviu Melissa.
- O qu?
- Bem: como soube ela que moro em Maiorca? Quem lho disse? Por que 
razo precisamente o Hotel Formentor? Ela tem de saber que estou muito perto. 
Afinal, no moro aqui sob o meu verdadeiro nome. Pelas razes mais diversas. 
Mas como, meu Deus, pensei eu, soube ela isto?
Melissa esteve calada durante um bocado. Depois disse:
- E depois mandaste a tua gente raptar-me.
Ele no parecia ouvi-la. Mas mais ameaadores que o seu silncio eram os seus 
olhos: a cor, um amarelo claro como mbar; tornaram-se enormes devido s 
lentes grossas dos culos. L dentro luzia o crculo preto das pupilas. Olhava 
para 
o lado, sobre o vale at ao mar, onde um navio branco seguia a sua viagem.
Ela no podia encar-lo. O sorriso permanente na cara lisa e tensa. 
Aquela cadeira horrvel. As mos que ele mantinha juntas e que por vezes se 
apertavam, quando algo parecia excit-lo. Gato e rato! Talvez o demnio... E 
tudo 
isto com aquele panorama atrs dele: campos, encostas por onde deslizava o 
vento. Havia palmeiras  volta da casa. Por todo o lado cresciam flores. Atravs 
das folhas brilhava o tringulo azul de uma piscina enorme. E por cima das suas 
cabeas erguia-se uma grande torre branca, indiferente.
Melissa elevou o olhar para as paredes. A quinta "Sont Vent", tinha-lhe 
contado Fischer, fora outrora o centro de toda aquela rea; o proprietrio 
tivera 
imensas terras. Os camponeses traziam o trigo e as azeitonas para serem 
modos. "Son Vent" - o vento.
- Comprei tudo o que podia comprar. No queria vizinhos. Tambm no 
tenho contacto com a gente daqui. At mesmo os operrios, mandei-os vir da 
Alemanha. Criei uma ilha na ilha... Tens alguma coisa, Melissa?
- Que havia de ter?         

Diante dela estava a mesa posta, sob a luz avermelhada pelo redondo do 
chapu de sol: po branco, croissants, fatias de po integral, a manteiga numa 
caixa de prata e vidro, ao lado um bocado de queijo - "Queijo de Mahon, meu 
corao, o melhor queijo em todas as Baleares" -, tomates muito vermelhos, o 
rosa e branco frescos dos rabanetes, o fiambre claro, bem como vrias espcies 
de chourio.         
- Este aqui, chorizo, devias de provar, um chourio com paprika; utilizam 
pimentos para a conservao. Tem um sabor maravilhoso. No tens apetite?
Tinha, pois! E o seu raciocnio dizia que no precisava de recear nada. 
Agora no. Certo, para ele seria uma ninharia dissolver na nata ou colocar sobre 
o po, no chourio ou na salada de frutas a sua encefalina querida, a FK-33 ou 
um dos seus derivados, com os quais ele brincava, e a sua eficcia seria 
desenvolvida aps algumas dentadas. Mas ele queria mant-la alegre, queria 
sentir o prazer, sabe Deus de qu, mesmo que s fosse o seu triunfo. Pelo 
menos, simulava-o. Mas como  que se tinha prazer com uma mulher que s 
estava de passagem, mesmo sendo uma que conseguia aumentar a sua 
percepo sensual? Com ela no se poderia tomar o pequeno-almoo 
despreocupadamente. O resto ainda viria. Certo. Mas no agora, ainda no...
- O Rosado por exemplo, um vinho de sonho, digo-te! Se o beberes 
juntamente com essas azeitonas... a Madalena  que as ps em conserva... tens 
uma combinao de sabores maravilhosa.         
Os lbios encarnados e hmidos de Melissa moviam-se. E sorriu. Comeu 
at uma azeitona, jogava o seu jogo. Mas no era simples agir contra o medo, 
sorrir, falar; aquele medo era como um quarto que a tinha como prisioneira, um 
quarto escuro, sufocante, que destrua todas as ideias claras e estava povoado 
peles seus pesadelos.
No tocou no Rosado e escolheu o caf. Sentiu o efeito na circulao: um 
leve bater no seu ouvido. Nada de especial. Nada mais que cafena normal. Fazia 
bem. Agora, Melissa j podia sorrir de novo, pensar e observ-lo. A camisa  
campons, larga, era de linho muito fino e tinha bordados. Ela viu a pele 
queimada do peito e os msculos do pescoo imponente. A cara castanha e oval. 
Nessa cara, as duas formas ovais dos culos. A pele levemente luzidia, quase 
sem rugas, curiosamente lisa e arredondada, como se estivesse almofadada, 
como se ele usasse uma mscara de borracha - apenas dois cortes horizontais 
na cara: uma ruga na testa e a linha horizontal das sobrancelhas 
castanho-acinzentadas.
"No  doido,  um monstro!", pensou ela. A cabea de um monstro diante 
de uma paisagem que era to bonita que quase no se podia imaginar. To bela 
e to envolta em paz, a terra vermelha com os seus muros cinzentos. As malvas. 
As alfazemas. E l em cima um cu em que seguiam as nuvens at ao mar.
Coisas tpicas dele.         
Agora observava a sua "ilha dentro da ilha", estava completamente 
relaxado, apenas as pontas dos dedos mexiam no corpo paralisado, como folhas 
secas num ramo apodrecido. Em que estaria a pensar? Ela conhecia aquele 
silncio repentino, paralisante. E sentiu qualquer coisa como d. Ele estava 
aleijado e via o seu estado talvez como uma espcie de combate herico contra 
as coisas, que j no lhe queriam obedecer. O despir as roupas, sair da cadeira 
para a cama - as coisas mais simples e primitivas que o corpo pede, como 
podiam ser superadas?

- Eu vou conseguir tudo. Quase sem ajuda. Mas o que isso quer dizer, no 
to posso revelar. Por causa disso, aprendi a chorar. E o dio...
Depois calou-se. Lentamente, virou a cara para Melissa:
- Vivias feliz? Tens um marido simptico. Amvel, simples, activo... um 
zero, numa s palavra.
Ela esforou-se por no mostrar uma reaco. Nem mesmo assim. "Joga 
o jogo dele!"
- No quero falar sobre ele, Melissa. Ele no pertence  nossa situao. 
Quero dizer-te uma coisa - nunca foste feliz. No sabes o que pode significar a 
felicidade. A felicidade perfeita. Os dias como uma festa. Vais t-la comigo. 
Talvez no durante muito tempo, apenas uma semana, mas uma semana de 
perfeio!
Estava quente ali no terrao; mas naquele instante ela sentiu um frio 
gelado na nuca: uma semana de perfeio?!

- Ento, Pons sempre tinha razo? - Tim disse-o mais para si prprio. 
Disse- o, quando conduziu o carro do restaurante para a estrada. - Pons teve 
sempre, desde o princpio, o palpite de que algum que Melissa conhecesse 
poderia estar no jogo.
- Felix Pons?! Ah, esse ainda existe? - Os olhos de Helene Brandeis 
brilhavam, e o vento brincava com os seus caracis de uma elegante tonalidade 
azul. - Pons, o velho maroto! Ah... nem posso lembrar-me. Felix Pons era o chefe 
de Juan. Ele no s fechava os olhos, como fechava tudo. Aquilo  mesmo 
romntico no pavilho de ch, no  verdade?
Tim no respondeu.
- Desculpa - disse ela.
- Todos estavam a pensar na mesma direco, s eu  que no - 
continuou depois Tim -, isso  que  o mais louco. At Rigo...
- Rigo?
- O chefe da Guardia Civil de Pollensa. Um chui bem espanhol. Tambm 
esse veio com essa histria. "No tem conhecidos aqui?", perguntou ele, "de 
certeza que ela encontrou algum que j conhecia de antigamente. Ou ser que 
voc tem inimigos?". E eu, estpido, abanava sempre a cabea.
A paisagem agora era plana. Os muros feitos de pedras 
assemelhavam-se a riscos cinzentos diante de um fundo cor de ocre. Silncio 
sobre o qual se estendia o calor. Quintas que dormitavam ao sol, aldeias com as 
portadas das janelas fechadas. Ces que dormiam  sombra.
Tim acelerou.
- Tem mesmo de ser? No vs to depressa.
O vento fez voar o chapu da velha senhora do assento para o vidro da 
retaguarda.
- Mais devagar, Santo Deus! J l vamos chegar.
- Onde... ? 
- Ento, onde?... Sont Vent, assim se chama a casa onde ele mora. Uma 
quinta. Bastante grande, segundo me disseram. Fica entre Capedepera e Cala 
Ratjada.
- E achas mesmo...

- Escuta, Tim, gosto cada vez menos da palavra achar. No adianta. 
Devamos l ir e ver. E antes disso, passamos pela Guardia Civil.
Tim acenou com a cabea - e admirava-se, de corao agradecido: 
Helene Brandeis. Que mulher, que pessoa! De certeza que estava cansada, 
talvez at nem tivesse comido nada, porque detestava tanto aquela comida 
horrvel dos avies. Alm disso, estava calor e tinha dores na articulao da 
anca, 
sobre as quais ela nunca falava, mas que a acompanhavam sempre. No, no 
diria: "Deixa-me ir para o hotel, quero deitar-me um bocadinho." Tinha de ir a 
Capedepera! Sont Vent - o esconderijo de Fischer.
- E quem te diz que o Fischer nos deixa entrar? Ou que nos diz algo de 
sensato.
- Ningum, Tim. Tambm ningum me disse se Melissa est l.  uma 
suposio. Nada mais.
Agora, Tim conduzia mais devagar, seguia com a sensao de que 
algum lhe tirava a respirao. Uma suposio? Sim, que havia de ser? Tambm 
no era uma "suposio" que Melissa o tinha abandonado? Que ela, enquanto 
ele estava l em cima no palerma do pavilho com uma garrafa de champanhe na 
mo e aquele kitsch sentimental todo de casamento no corao, tinha 
desaparecido com outro?
 uma loucura! Completamente impensvel. Impossvel!
- Talvez ele a obrigasse a ir com ele - gritou a velha senhora contra o vento.
Obrigado, como?         
 fora. De uma forma qualquer, sei l?         
E como  que ele a encontrou? - gritou Tim tambm. - Existe igualmente 
uma explicao no teu crebro de detective?
- Tim, para tudo h explicaes. Depois. Tu vais t-la de volta.
- E como?
Tambm no sei. Trata-se aqui de combinaes. O jogo antiqussimo de 
suposies e lgica.
Um jogo muito divertido, quis ele dizer; mas no o disse. Cerrou os dentes. 
Estava farto daquele dilogo. Talvez ela pensasse o mesmo. Tudo o que ele 
pensava era, no fundo, inimaginvel: que Melissa j conhecesse o endereo de 
Fischer quando comearam a viagem. E que ela o tivesse avisado da sua 
chegada ainda de casa, no Tegernsee. Como  que, ento, Santo Deus, podiam 
ter-se encontrado?
Ele era doido. E no fora o acidente que o tinha tornado um psicopata. J 
o era antes, com a sua megalomania e desprezo pelos outros, a sua maneira de 
ser e de sentir o ponto principal do mundo,  medida de todas as coisas. E 
tambm tinha sido doido no seu trabalho, naquele prazer de brincar com 
substncias que apenas tinham um efeito: modificar a alma da pessoa. Talvez 
lhes tivesse sacrificado a sua prpria?
Mais uma vez, as mos dele apertaram-se. E Melissa voltou a sentir medo 
quando observou como ele brincava com o comando da cadeira. Deixou rodar a 
cadeira de rodas, at que parou subitamente diante dela.

- Uma espcie de milagre, encontrarmo-nos de novo, meu corao. Quero 
dizer-te uma coisa: h pouco tempo, vi na televiso um desses filmes policiais 
americanos indescritveis. Um casal que se separou e se encontra novamente. E, 
como  bvio, reconhecem nesse instante que a separao foi o maior erro da 
vida deles. E onde voltam a encontrar-se? No World-Trade-Center, em Nova 
Iorque. O homem nem se apercebe, ao princpio, do que lhe est a acontecer. 
Ela, em choque, continua a andar, corre at ao elevador e desaparece. Ele 
acorda, rebenta com uma caixa de fusveis e consegue fazer parar o elevador. O 
mesmo se passou comigo. Fiz parar o elevador.
Melissa apenas acenava com a cabea. Gentilmente, como se ele lhe 
estivesse a contar uma histria muito natural. Precisava de todas as foras para 
parecer calma diante da febre daqueles olhos.
- Ambos se encontram num arranha-cus, por onde passam diariamente 
milhares de pessoas. E ambos vinham de pases diferentes para Nova Iorque. 
Uma ideia completamente maluca, no  verdade? Acasos incrveis destes no 
esto previstos. E que me acontece? O mesmo! Desde h quatro dias, desde o 
momento em que te voltei a ver, que acredito de novo em milagres.
Ela continuava a acenar com a cabea. Nunca na sua vida sentira os 
cabelos da nuca; agora sentia-os.
E ele, ele olhava-a com aquele olhar horrvel, e falava de milagres. De novo 
a cadeira de rodas zumbiu baixinho. Fischer ergueu a mo. Quando Melissa o 
vira pela primeira vez, tinha uma manta sobre as pernas. Agora via dois ossos 
castanhos e finos dentro de cales curtos, demasiado largos. Ele sorria.
- Vem, quero mostrar-te uma coisa...
A cadeira de rodas seguiu em frente e ela foi atrs com uma sensao de 
atordoamento que aumentava a cada passo. Ele abriu uma das portas do terrao; 
passaram por uma pequena sala, depois novamente uma porta, e agora... talvez 
o gabinete de trabalho dele? As persianas estavam descidas, apenas por 
algumas gretas entrava a luz do sol. Estava to escuro que os olhos dela tiveram 
de se acostumar primeiro. Claro! Uma secretria. Nas paredes, estantes com 
livros. Uma das paredes estava livre, e sobre ela desenhava-se o rectngulo de 
um quadro grande.
Fischer premiu um dos botes do seu comando. Lmpadas de tecto 
iluminaram toda a sala.
- Ento... - Fischer rolou at ficar diante do quadro. - Ento, meu corao, 
que dizes agora?
Que havia ela de dizer? Atravs do seu crebro passaram palavras e 
ideias vagas, fugazes como nevoeiro. O quadro... como tivera ele aquela ideia? 
Estava pendurado  sua frente; quando estivesse sentado  secretria, tinha de o 
ver.
O quadro mostrava uma mulher cujo corpo nu, delgado e branco, estava 
envolvido quase at aos joelhos por cabelos vermelho-louros e salpicado pelas 
ondas do mar. Os ps delicados encontravam-se sobre uma esfera que devia 
representar o globo terrestre. A cara, os olhos verdes, a boca com um sorriso 
interrogador - todo o quadro - era ela! Ou antes: o quadro tentava mostr-la, 
como 
ele a via...
- Diz qualquer coisa, meu corao. Eu espero.

- Quem pintou isso?
-  importante? Mandei-o pintar a partir de uma fotografia. Qual  a tua 
opinio?
- Horrvel - respondeu ela. - Piroso.         

Ele continuou a sorrir, olhando para o quadro.
- Melissa - disse depois -, entende bem uma coisa: os meus sentimentos 
so inatingveis. E muito menos por ti... Sabes porqu? Porque no conheces os 
teus prprios sentimentos. - De uma forma imploradora, as suas pupilas escuras 
pareciam perfurar as dela. - Ainda no, Melissa...

15 e 25.
O sol comeava a ficar mais fraco.         
Tim comeou o trajecto, seguindo as instrues da velha senhora, que 
tambm no parecia ter grande vontade de conversar. Seguia sem reparar nas 
placas. Nem precisava.
- Ali  frente h uma bifurcao. Olha o autocarro, no o ultrapasses, seno 
seguimos em frente.
Era a ltima de muitas bifurcaes que ela lhe indicara. Parecia conhecer 
bem a ilha, como a palma da sua mo. Tambm estava cansada;  volta do nariz 
estava plida, mas onde ia ela buscar aquela energia com que o incitava, 
assumindo o comando? "Uma pura questo de vontade", pensou Tim. E com 
respeito  sua capacidade de orientao... nos tempos em que vinha visitar a 
ilha, obviamente no tinha aguentado muito tempo em Formentor. Ele conseguia 
compreend-la.
A bifurcao.        
 Um alto de colina, pinheiros, figueiras que estendiam as suas coroas 
sobre o solo. E a seguir, no flanco de uma encosta com rochas, uma localidade 
com uma igreja, um castelo e muralhas.
- Capdepera - disse Helene Brandeis. Desta vez tinha um mapa sobre os 
joelhos. - Pra aqui! Queres um rebuado de hortel?
Tim abanou a cabea.
O indicador dela seguia sobre uns riscos quaisquer.         
- Ali ao fundo, vai-se para Cala Ratjada. Vs o corte, o vale?
E ali em cima, ao p dos terrenos com oliveiras, os edifcios? Tambm 
tem piscina. E laranjeiras, amendoeiras e uma autntica vinha. Toda a encosta 
pertence  quinta. Fantstico!
O olhar de Tim seguiu-lhe a mo estendida. Se era verdade, se aquela 
quinta ali em cima pertencia a Fischer, ento aquele tipo devia ganhar montes de 
dinheiro com os seus negcios sujos; ento ele - Tim admitiu-o com relutncia - 
tambm tinha bom gosto.
Aquilo no era uma vivenda, uma quinta, mas sim uma herdade feudal! 
Sim, e agora iam ver que espcie de senhor era aquele...
Meteu a segunda e obrigou o pequeno Seat, com um uivo, a passar ao 
lado de uma grande pedra castanha em que estava escrito "SON VENT". Depois, 
o caminho era a subir. Aps algumas curvas, chegava-se ao fim da estrada: uma 
ala de ciprestes que levava a um largo. Mas diante de Tim, e Helene, para este e 
oeste, seguia o muro do terreno. Dois a trs metros de altura, feito de blocos 
slidos de arenito e dividido no meio por um arco suportado por duas colunas. 
Ambos os batentes da porta eram de metal preto envernizado. Estavam 
fechados.
- E agora?

- Deixa o carro ali debaixo da rvore. J estou com calor suficiente. Abre a 
janela. Sim, e agora? Parece uma priso, hem? - Tim apenas acenou com a 
cabea. Possivelmente, at era. A priso de Melissa ou... No conseguiu 
continuar o pensamento at ao fim. - Eu sairia do carro - disse a velha senhora 
-, 
se pudesse, ou se me ajudasses. A minha articulao j h muito que se est a 
revoltar.
- Estava mesmo  espera disso - disse ele. Ela atirou-lhe um olhar 
desafiador, quase selvagem, com os seus olhos azuis.
- Ento, e depois?
- Nada de "ento, e depois!" Ficas a sentada e eu saio.
- E que altera isso?
- No saio s; acho que devem ter uma campainha, e vou tocar.
- E depois?
A entoao de ingenuidade na pergunta dela no conseguiu 
descontrol-lo. Pelo contrrio. As suas mos cerraram-se.
- Depois, vou, muito amavelmente, fazer-me anunciar ao Sr. Fred Fischer.
- Aqui, ele chama-se Fraser, e no Fischer.
- Bom, ento chama-se Fraser.         
Tim saiu do carro. O sol queimava-lhe na nuca e quando atravessou o 
largo teve o pressentimento de estar a ser observado. Talvez fosse apenas uma 
suposio. De onde se encontrava, no se via nem uma janela, nem qualquer 
abertura no muro.
Apenas pedra e alguns pssaros grandes que vinham das figueiras, 
voando por cima do muro.
Tim parou.         
Sobre o contorno semi-redondo, em pedra, da entrada abaulava-se um 
telhado em tijolo. Bem, agora encontrava-se ali... Que fazer? No havia trinco. 
Nada mais que uma fechadura de segurana. Porm,  direita, havia um 
rectngulo claro, cor de arenito, mas metlico.  primeira vista, Tim no 
reparou 
nele. Dentro da chapa metlica de proteco viu outra chapa pequena e 
quadrada de material sinttico e castanho. Por cima da grelha, um interfone.
Com todo o conforto, claro. Tim queria tocar. L em casa haveria tambm 
um boto que o Sr. Fischer ou Fraser, ou fosse qual fosse o nome, iria premir, a 
porta abrir-se-ia e Tim entraria, para poder perguntar: "Por acaso viu a minha 
mulher?"
"No hesites! O que conta  agir."         
Tim Tocou. Da campainha, nem uma ressonncia. Mas depois, aps uma 
pequena pausa, um ladrar furioso, esganiado e encolerizado. O barulho parecia 
encher o vale inteiro. Bonito! Tim era mdico da provncia e, como tal, tinha a 
sua 
experincia: aquelas bestas, que esganiavam de histeria, s podiam ser ces 
de guarda treinados.
O ladrar parou.         
Tim ainda estava em frente da porta e pousou a mo sobre ela, para a 
retirar imediatamente: escaldava. O suor caa-lhe da testa. E quando se voltou, 
para regressar ao Seat, teve a sensao de que o seu corpo tinha o dobro do 
peso.
Deixou-se cair atrs do volante, mas no fechou a porta. Manteve o p 
esquerdo fora do carro, sobre O asfalto quente, como se a todo o instante 
quisesse voltar atrs. No disse nada, e tambm Helene Brandeis lhe atirou um 
curto olhar, para logo a seguir voltar a observar o muro.
- Helene - disse finalmente -, d-me uma das tuas cigarrilhas.

- Com muito prazer. - Tambm lhe deu lume, e ali ficaram sentados, 
fumando silenciosamente, at que a velha senhora perdeu a pacincia: - Ponto 
final! Isto no resulta. Ningum vai responder.         
Tim no lhe respondeu. Tinha voltado a cabea para o lado, encostando-a 
contra o apoio. Helene no sabia se ele tinha os olhos cerrados ou se estudava o 
muro. Depois Tim estremeceu. Um som. Um rudo, como se tivessem ligado um 
aparelho. E ali estava: uma voz. Helene Brandeis tinha-se erguido. Pela primeira 
vez, fez uma cara assustada. A voz falava em espanhol. Tim no compreendeu o 
que saa daquele altifalante. Agora era em francs...
- Mas que vem a ser isto?
- A seguir vem em alemo, vais ver.         
Ela tinha razo.        
"Bom dia", ouviu Tim. "Queremos chamar a vossa ateno de que se 
encontram numa estrada particular, que passa por terreno privado. Por isso, 
pedimos gentilmente que se retirem da propriedade e continuem a viagem. 
Desejamos-lhes uma boa estada em Maiorca..."
Tim respirou fundo. Cuspiu a cigarrilha para o asfalto, ligou o motor e 
acelerou.
- Isto tudo no  possvel.         
- Aparentemente, . E com um pouco de fantasia at se pode acreditar. 
Agora, Tim, vamos fazer uma visita a outras pessoas. E essas vo deixar-nos 
entrar.
- Visita? Aonde? Comeo a estar farto disto.
- Tambm eu. No entanto, vamos aparecer na Guardia Civil. Como  o 
nome do teu amigo?
- Rigo - respondeu Tim - Sargento Pablo Rigo.

15 e 35.
- Como  que eu soube que tu estavas na ilha? Uma pergunta interessante, 
no  verdade, Melissa? Mas h ainda uma muito mais importante. Pergunto-te...
A cadeira de rodas aproximava-se, lentamente, sem rudo, cada vez mais 
perto, centmetro a centmetro:
- Pergunto-te como queres chamar a um encontro destes? Segundo as 
regras da probabilidade, o nosso reencontro era impossvel, visto ser 
estatisticamente uma anedota. Um gro de areia entre milhes... E mesmo 
assim...
Ela sentia-o, cheirava o hlito dele. Tinha a sensao de no ter ar. 
Devagar, inclinou o tronco para trs, conseguindo ainda sorrir; mas o sorriso 
no 
lhe pertencia, era uma mscara, algo de estranho, que doa.
- Vou contar-to. Nem vais acreditar, Melissa. Ela pegou no jarro com sumo 
de laranja. Assim, podia voltar-se, empurrar a cadeira um pouco para o lado, 
enquanto fingia concentrar-se no encher do copo.
No, ele no notava como ela se sentia. Alguma vez o notara? Ele 
continuou com a sua histria.

- Escuta, Melissa, todas as semanas vou at ao Formentor. Por vezes uma 
vez apenas, mas vou quase sempre duas vezes. Ali bebo o meu ch, vagueio um 
pouco pelo parque, ocupo-me das plantas.  o nico passeio que fao na ilha. 
No o fao por querer encontrar-me com pessoas, aqueles novos ricos e 
aposentados milionrios no me interessam absolutamente nada. Mas o 
parque... eu adoro plantas. Conheo o jardineiro, Antnio. Ele  especialista 
nas 
suculentas e as suculentas so a minha especialidade. Trocamos sementes e 
conversamos um pouco. E assim foi tambm desta vez...
- E estavas ento l no parque do Formentor, quando chegmos?
Pois, era incrvel! Ele tinha razo. Incrvel - e insignificante. O que 
assustava era a maneira como exagerava a importncia desse acaso, o levava 
para o absurdo; sim, para o grotesco.
- E onde estavas tu? - perguntou ela, apenas para dizer qualquer coisa. A 
voz estava sumida, tinha alguma dificuldade com as palavras: - Eu... eu no te 
vi 
em nenhum lado.
- Eu estava no carro. - O sorriso dele tornou-se equvoco. - Estavas com 
pressa de chegar  praia, no estavas? Eu estava no carro, que se encontrava 
estacionado atrs da casa do jardineiro.
Melissa levantou-se e saiu da proximidade dele. Quando passou pelo 
terrao, sentiu o calor dos azulejos debaixo dos seus ps descalos. Acendeu um 
cigarro e pousou as mos sobre o friso de arenito do muro que fechava o terrao. 
Do outro lado um bando de gaivotas. Uma afastou-se do grupo e voou a pique 
sobre o telhado,  procura de algo para comer, lanando-se de novo para o ar.
- Tu corrias pela praia, o teu cabelo voava ao vento, brilhava, Melissa. 
Impressionante, maravilhoso, como outrora... Sim, vi-te. Vi o milagre. A minha 
Melissa tinha voltado!
- Tambm estava l o meu marido.
- Sim, mas esse no me interessava. - A voz ao seu lado tornou-se fria e 
perdeu toda a emoo. - E como havia de me interessar? Tu  que estavas de 
volta. Isso  que contava. Um desejo que se tornava realidade. Um desejo que me 
tinha ocupado durante muito tempo, demasiado tempo. Sabes, ocupou-me tanto 
tempo que se podia dizer que eu tinha direito a essa realizao. Deves-me 
alguma coisa, Melissa. Depois do que aconteceu... Ela olhou por cima da mesa e 
do parapeito do terrao, evitava o olhar dele. Tentava at desalojar a voz dele 
da 
sua conscincia. Seguiu o voo da gaivota, que circulava por cima da propriedade 
de Fischer. O terreno estava cercado por um muro de dois metros de altura. Do 
outro lado do muro, que cortava o vale, via-se um largo. Devia servir para os 
fornecedores ou visitantes poderem virar os seus veculos, sem terem de passar 
pela grande porta de ao, que separava Son Vent do mundo exterior.
- Talvez no seja apropriado dizer que me deves alguma coisa.  algo que 
se devia riscar do vocabulrio, mas...
Ela no compreendeu o resto. As palavras de Fischer sumiram-se sob o 
ladrar furioso dos ces. Ces pretos da Terra Nova. Antes, ela j tinha 
observado 
como eles saltavam contra as malhas de ao do canil, nas traseiras da garagem. 
 noite soltavam-nos, tinha dito Fischer. "Caso seja necessrio, meu corao. 
Gatunos em Son Vent, no  fcil. No quero estar na pele deles..."
Por que razo os ces faziam aquele barulho infernal?        
 Mais uma vez, Melissa olhou para o lado da garagem, e da para o largo 
em frente da porta.

Um carro! Um pequeno Seat vermelho, como os que usam os turistas. 
Piscou os olhos para poder ver melhor. Sim, era realmente o mesmo tipo do que 
tinham alugado, quando tinham ido para Pollensa. Mas talvez houvesse milhares 
desses Seat vermelhos, sim, de certeza...
Mas talvez ... ?
O corao de Melissa parecia falhar. "Meu Deus! Se Tim..."
- O teu marido pode ser um bom mdico - ouviu da cadeira de rodas - At 
o , eu sei. Mandei averiguar sobre o Dr. Tim Tannert. O que me relataram foi 
muito positivo. E o Dr. Tim Tannert tambm pode ser um bom marido... E depois?
Novamente o ladrar, agora s isoladamente.         
Tim? Se no fosse to longe... Era impossvel reconhecer quem estava 
dentro do carro.
- Ser um bom marido no  mesmo o que mais me impressiona. 
Extremamente prtico, talvez, e decerto bom para o corao. Por vezes... Mas a 
vida tem coisas mais importantes para oferecer. E com respeito  nossa vida, 
meu corao, ns dois temos um destino comum e ainda uma conta comum, que 
algum dia h-de ser liquidada...
"Palavras! Sorri, Acena com a cabea. Diz qualquer coisa. Agarra-te ao 
que ele diz por ltimo, repete-o, assim  mais fcil."
- Uma conta comum? - repetiu ela.        
 - No te preocupes, no  algo de negativo. Como podia ser? Tenho de 
estar grato por ainda existir, no  verdade? H uns anos atrs ningum me dava 
uma hiptese. E agora...
Ela quis voltar-se, para ele no desconfiar. Mas no pde, estava como 
que paralisada. As palavras dele seguiam-se rapidamente umas atrs das 
outras, acompanhadas de uma respirao intermitente. Nunca o tinha ouvido falar 
assim.
- Seis a sete meses de vida, era o prognstico. E nem se pensava que 
algum dia eu pudesse comandar a minha cadeira de rodas. Nada. Se nessa 
altura eu tivesse dito que ia comear de novo com o meu trabalho, com o maior 
sucesso de sempre, ter-me-iam declarado doido.
- Com o teu trabalho? Mas tu aqui...
- Sim, mas que  que tu pensas? O procurador da Repblica fechou a 
minha firma. No consegui tirar de l um nico tosto. Deves ter ouvido falar 
nisso. Tive de comear do princpio. E como achas que posso manter esta 
propriedade? Ou o meu iate ali em Cala Ratjada? As minhas contas...
A voz desvaneceu-se. Tim? Era o mesmo vermelho, mas a distncia era 
grande de mais. Se ela tivesse uns binculos! Nada mais que um pouco de 
vermelho e brilho de cromado. E mesmo assim... talvez ele tivesse sado do 
carro?
- Por favor, Fred... - Ela virou-se. Necessitou de todas as suas foras para 
o encarar. A cara dele parecia alterada. Os lbios tremiam. Viu que as veias da 
testa dele estavam inchadas e as pupilas pareciam gigantescas.
- Digo-te, tenho dinheiro. Podia comprar-te tudo neste mundo... Desejo a 
tua felicidade.
- E como deve ser a minha felicidade?

- Vais ver... - disse mais alguma coisa que ela no percebeu. Tinha muita 
dificuldade em se concentrar. TIM... o nome era como um grande eco, que se 
sobrepunha a tudo. Havia um stio onde o muro seguia baixo sobre uma rocha. 
"Ali, talvez?", pensou.  noite, o terreno era guardado pelos ces. Alm disso, 
as 
janelas e as portas mantinham-se cerradas. Mas agora? Se era Tim...
A calma regressou. E o sorriso:
- Vamos at ao parque. Tenho estado aqui sentada o dia todo. Mostra-me 
as tuas plantas, essas... como se chamam?
- Suculentas - estava de novo radiante, contente como uma criana.
- Vou buscar o meu biquini, Fred.
- No precisas dele. Sabes que te quero ver com os teus cabelos louros, 
assim como no quadro...
- V l, Fred! - Melissa tentou pr na sua cara qualquer coisa que se 
assemelhasse com um sorriso. Deixou-o e correu at  entrada da casa. Tinha 
de se despachar. Ele tinha de pensar que ela ia buscar as roupas de banho... em 
todo o caso, at ele estar no jardim de Son Vent, passaria algum tempo. A casa 
inteira era composta de rampas ligeiramente inclinadas para a cadeira de rodas, 
sobre as quais ele passava com considervel velocidade e um jeito quase 
artstico; porm, ela deveria ganhar a uns cinco a seis minutos.
Tomou o caminho pelo terrao do pequeno-almoo, quando saiu da casa. 
Tambm dali avistava o Seat vermelho; apenas o tejadilho, mas estava l.
Na parte oeste do terreno havia um caminho com flores entre ciprestes 
altos, ao longo do muro, at  entrada. Ali, Melissa j tinha pensado na 
hiptese 
de saltar o muro. Tinha a certeza de que Fischer fazia fiscalizar cada metro de 
muro com os seus brinquedos electrnicos. E depois? Se Tim ali estava no carro, 
j no era muito longe...
Seguia agachada. Oleandros com flores violetas e cor-de-rosa protegiam 
o seu caminho. Um dos ces ladrou. Mas agora estavam no canil. O barulho 
acabou. Apenas ouvia o leve sussurro da bomba que accionava a circulao da 
piscina...
 direita que estava o muro. Saindo de canteiros de margaridas e 
gernios, elevava-se a a uns dois metros de altura. Ali, Melissa no tinha 
hiptese. Mas mais  frente, aquele formato claro e denteado... a rocha!
Sentia o bater do corao no pescoo. Deitou mais uma vez um olhar para 
trs. Os seus olhos procuravam penetrar na confuso verde de flores, arbustos e 
troncos de rvore. O terrao do pequeno-almoo estava vazio. Ningum... 
Agora! Tem de ser mesmo agora!        
Os cantos agudos do calcrio cortavam-lhe as mos, quando comeou a 
subir a rocha. O que lhe faltava era um metro e, cinquenta de altura do muro. 
No 
mais... "Vais conseguir! Sim, vais conseguir!" O muro estava revestido com 
cimento e era de granulao grossa. Melissa passou a mo pela borda, tinha o 
cotovelo direito j sobre o rebordo, queria apoiar-se com a mo esquerda, mas 
sentiu uma dor quando o revestimento lhe queimou a pele das pontas dos dedos - 
e depois nada, nada mais que uma pancada aguda e dilacerante, que anestesiou 
qualquer reaco, qualquer nervo do seu corpo. Caiu...

Apenas se apercebeu disso quando deslizou pela pedra para o fundo, 
sobre picos e arestas que lhe rasgaram o tecido do vestido. Gemeu. Tentou 
passar, mas em vo. E depois Melissa soube o que significava aquela sensao 
terrvel e intensa que a invadira num pice: o muro estava electrificado! Ela 
tinha 
tocado no arame electrificado...        
 Estava deitada no cho, a cara enfiada numa planta carnuda de forma 
esquisita. As suculentas de Fischer... pensou ela, sem nexo: as suas queridas... 
e 
depois pensou novamente: "No tens nenhuma hiptese! No te deixes enganar. 
Isto no  uma 'ilha na ilha', como dizia Fischer.  a sua penitenciria, a 
antecmara, o prprio centro do inferno!"
Gostaria de ter ficado naquela posio eternamente. Mas no podia. Com 
a respirao pesada, tentou erguer-se. Tinha dificuldade. Por isso, ficou de 
joelhos, a cabea entre os ombros, sem se mexer. Apenas sentia as lgrimas 
que, frescas, lhe corriam pela face abaixo. Tambm no olhou para cima, quando 
uma voz disse:
- Chega! E para qu tudo isto? No ter sido um pouco leviano?
No, ela no se moveu. Manteve as plpebras bem cerradas, como se 
pudesse deixar de fora a realidade. Melissa sentiu dio por si prpria por causa 
das lgrimas, mas como evit-las? Lentamente, voltou a cara. O mundo 
desvaneceu-se. Atravs de uma nvoa, reconheceu um par de sapatilhas azuis 
com solas de borracha brancas.
- Quer saber uma coisa? Uma coisa destas pode acabar mal - disse a voz. 
- No sei quanto  que passa por ali, mas devem ser bem uns cem volts. E isso 
no faz nada bem. Sobretudo quando se tem uma circulao fraca...
Ela acenou com a cabea, acenou compulsivamente, acenou como uma 
boneca.
- Como est, vai mais ou menos? Pode levantar-se? No? Ento vou 
ajudar...
Duas mos agarraram-na debaixo dos braos e puxaram-na para cima. 
Os joelhos ameaavam dobrar-se, muito fundo no seu corpo sentia-se tremer, o 
que parecia alastrar-se, mas as mos seguraram-na.
Depois chegou o momento de poder ficar de p sozinha, pensar um pouco 
e, sobretudo, ver.
Olhou para uma cara queimada pelo sol e ossuda: Matusch, o faz-tudo de 
Fischer. Tinha pousado o indicador direito contra o seu nariz longo e delgado. O 
cabelo dourado luzia. Tambm dourado luzia o pequeno crucifixo, que pendia de 
um fio sobre o seu peito castanho. Os lbios finos sorriam.
Os olhos cinzentos fitaram-na durante muito tempo, sem qualquer sombra 
de sensibilidade.
- No sei se isso foi inteligente, minha senhora - disse finalmente. - Isto 
poderia causar problemas com o chefe, no  verdade? E de problemas no 
gosta ele mesmo nada, tambm o sabe. J tem bastantes...
Ela deu dois ou trs passos. Um caminho empedrado. Degraus que 
seguiam em direco  garagem.
Continuou. O seu corpo obedecia-lhe novamente. Continuou a caminhar... 
Tinha j a mo sobre o corrimo de ferro quando ele a puxou para trs.
-  a direco errada, minha senhora. Deixemos isto. Ns dois voltamos 
agora para casa. Acho que deve pr outro vestido. A saia, pode deit-la fora. E, 
alm disso, vamos contar o que lhe veio  ideia, no acha?


Talvez tudo se repetisse? Era ainda to jovem nessa altura, 15 ou 16 anos, 
mas nela clamava o mesmo sentimento de desmaio desamparado e irado, que 
no conseguia impor-se ao entrave do pudor... Ela tinha fumado cigarros, no 
haxixe, como Strelau o tinha afirmado, mas o director de turma repetia-o sempre 
de novo: "Entristeces-me, Melissa. Tu, a minha melhor aluna... fechar-se na casa 
de banho, para fumar droga? Cala-te, Melissa. Eu sei que  assim. Deixas-me 
extremamente triste..."
"Deixas-me extremamente triste" - o mesmo diziam os olhos de coruja de 
Fischer.
Ele no disse nada. Ficou calado. Estava sentado debaixo daquele toldo 
amarelo, recostado na cadeira de rodas, a manta sobre os joelhos, os dedos na 
caixa de comando da cadeira, mas o seu olhar repetia-o: "deixas-me 
extremamente triste!".
Por que razo no se ria ela na cara dele? Por que razo parecia ainda 
sentir o choque elctrico, como se lhe tolhesse qualquer reaco, qualquer 
pensamento? Aquele porco repugnante do Matusch, porm, ainda no tinha 
terminado o seu relatrio.
- Podias ter-te morto, Melissa. Que podia responder a isso? Por que razo 
se deixava fitar daquela maneira? Por que razo continuava a colaborar naquela 
pea de loucos? A seguir, veio efectivamente:
- Deixas-me triste. No quero saber dos motivos. S quero uma coisa: que 
saibas o que provocaste em mim com isso.
Provocar? Fischer como vtima? Ora, era o que faltava... Melissa voltou-se, 
atravessou todo o terrao, ouviu o guinchar das rodas de borracha quando ele 
virou a cadeira, foi em direco  porta dela e, pela primeira vez, sentia-se 
feliz 
por poder regressar  sua priso.
Fechou a porta, puxou os cortinados brancos, seguiu at  casa de banho 
com as pernas inseguras, arrancou do corpo o tecido embebido em suor, entrou 
na banheira e deixou cair com toda a fora a gua do duche sobre ela. Os jactos 
de gua chicoteavam o seu corpo. Levou as mos at  cara e observou as 
pontas dos dedos, uma por uma. Talvez o contacto com os fios elctricos tivesse 
deixado uma marca? Uma queimadura? No viu nada. A queimadura devia estar 
na sua alma...
Secou-se e vestiu o roupo, deixando-se depois cair sobre a cama. O olho 
de vidro da cmara estava a segui-la.
No a estorvava. S era preciso fechar os olhos.         
To simples.         
Era a primeira vez que Melissa receava perder: Fischer era o mais forte. 
S no o queria reconhecer. Ele era o mais forte, porque acreditava nisso. 
Porm, ela comeava a perder a f, estava fatigada, consumida, vazia como uma 
casca; estava grata ao cansao, por a ajudar a esquecer e por deix-la 
sonolenta.
Quanto tempo se manteve nesse estado de transe estranho, no sabia. 
Tambm no ouviu Matusch quando este entrou no quarto. Ouviu apenas um 
pigarrear, mas no tinha nada a ver com isso. Mas a mo que depois pousou 
sobre o seu ombro, aquele toque, isso sim, era realidade. Melissa ergueu-se.
- Como entrou aqui? - A fria f-la despertar subitamente.
- Saia daqui! V para o diabo! - Ele no foi para o diabo. Ficou, fitando-a 
com os seus olhos cinzentos e vazios. - Disse-lhe ainda agora...

- Sim. Eu ouvi. E vou-me j embora. Consigo. - E depois de um intervalo 
irnico, o seu "minha senhora ..."
Ela resistiu ao olhar dele. Mas no compreendeu. E aquele sorriso? Como 
poderia ela tirar-lho da cara? Gritar? Sentia-se fraca de mais.
- O chefe quer falar consigo.
- O chefe? O seu chefe. Diga ao seu chefe que me poupe a sua presena.
- Est bem, est bem. Mas no crie agora problemas. No  a altura 
adequada. Por isso, levante-se.
- Oua, est doido? Ele queria mesmo agarrar a mo dela. Ela sacudiu-o, 
mas ele pegou-lhe no brao, e os seus dedos apertaram-lhe a carne de tal forma 
que teve de cerrar os dentes.
- Doido, eu? - disse Matusch. - No vamos comear a adivinhar quem o 
possa ser. Alm disso, agora  indiferente. Venha comigo. V, depressa! Ento? 
Levante-se!
Puxou-a para cima e ela cambaleou; o sangue batia-lhe nas tmporas. 
Tentou compreender - mas como? Hora a hora, tinha-se deixado caar atravs 
de um labirinto de pesadelos, tentando manter algo como orientao e a cabea 
fria. Tudo pareceu ser apenas um principio. E agora que o pesadelo mostrava a 
sua verdadeira cara, perdia foras. Agora seguia-se a violncia! O tipo que a 
arrastava at  porta, seguindo pelo corredor, repelia os golpes dela, e at 
sorria; 
disse depois:
- Vamos! Para aqui!
O gabinete de trabalho de Fischer, e o prprio Fischer. Fischer, que sorria 
para ela da sua cadeira; sim, continuava a sorrir, mesmo agora, quando o seu 
gorila a empurrava pela sala.
- Muito mau. - Fred Fischer sorria. Era um sorriso que ela no conhecia 
nele. Um leve e tremido sopro de sorriso: - Muito mau para ns dois, Melissa... 
Mau tambm, como ele se comporta. Eu sei, eu sei...
- Diz...
- No, para falar no temos tempo. Infelizmente. Mais tarde, Melissa. Mais 
tarde explico-te tudo. Porm, agora...
No prosseguiu. Virou-se para Matusch:
- Pohl voltou a telegrafar. Temos de nos despachar.         
Matusch continuava a segurar Melissa e acenou com a cabea.
Durante toda a vida, trinta e dois anos, Melissa tinha dado ateno ao seu 
controlo. Sempre confiara na sua razo ou na imagem que, como qualquer outra 
pessoa, tinha feito de si prpria, e que se baseava na ideia de que situaes 
difceis s poderiam ser superadas com calma e autodomnio. Tudo isso tinha 
desaparecido. Agora estava entregue  suco escura e profunda do pnico. 
Comeou a gritar; sons selvagens, horrorizados, que lhe saam da garganta e que 
ela no conseguia travar nem comandar. Gritos de uma pessoa em angstia de 
morte...
- Mais perto - disse Fischer. - V l. E ento ela viu o que ele tinha na mo: 
uma seringa. Fechou os olhos e gritou. Nem sentiu a picada...

16 e 40

Desta vez, no havia raparigas seminuas no ecr da televiso. Durante o 
dia, a esquadra da Guardia Civil de Pollenza tinha um aspecto bastante 
desleixado. O rei, na parede, tinha adquirido uma cor amarela, como que doente 
do estmago, as sardinheiras nas janelas iam vegetando debaixo de uma 
camada esbranquiada de p, fumava-se menos e, aparentemente, 
trabalhava-se mais. Desta vez, estavam apenas dois funcionrios na sala. O 
rapaz do bigode estava Outra vez ao telefone. Acenou para Tim como para um 
velho conhecido. O outro Guardia veio at  cancela; um homem alto, ossudo, 
com olhos escuros, profundos.
Helene Brandeis olhou para ele com um ar radiante. Ele registou-o com um 
acenar da cabea, mas tambm foi tudo.
- Podamos falar com o sargento? - perguntou Tim.
- O sargento est... - um momento - Rigo vem j a, tiveram sorte.
Do ptio ouviu-se um chiar de pneus. Depois, uma voz e uma porta a 
fechar- se. Agora estava ali, gordo, poderoso e bastante exausto.
- Hol!
- Esta  a Senhora Helene Brandeis, uma amiga nossa - apresentou Tim. 
O guarda acenou apenas com a cabea. Nem as "Muy buenas tardes" de Helene 
o impressionaram. Tirou o bon e limpou o suor da testa com as costas da mo. 
Depois, atirou-se para um velho cadeiro de verga e fitou Tim com uns olhos 
cansados e amargurados.
- Fomos at  Sierra del Caval. E no apenas ns, mas tambm um grupo 
do piquete de Inca.
- Porqu, Senhor?- Helene cruzou os braos sobre a cancela.
- Mas isso  a cordilheira at  Punta? Mas que foram l fazer?
- Pergunte a esse senhor. Ele  que sabe.         
Rigo voltou-se e pediu ao rapaz magro que lhe trouxesse uma cerveja da geleira. 
Bebeu-a com longos e decididos golos, que faziam saltar o seu queixo duplo, 
pousou novamente a garrafa e estendeu as pernas pesadas com o ar de um 
homem que acabou o seu trabalho dirio.
- Talvez tenhamos uma indicao para si. A Sr. Brandeis tem contactos com a 
polcia judiciria alem em Wiesbaden.
Tim tinha pronunciado a palavra polcia judiciria com uma certa nfase. Mas 
Rigo nem pestanejou.
- Ela acha que o desaparecimento da minha mulher pode estar ligado a um 
homem que ela conheceu em tempos.
Agora, pelo menos, Rigo acenou com a cabea.
- O homem  procurado pela polcia judiciria alem e pela polcia da droga 
americana - prosseguiu Tim fervorosamente.
- Segundo informaram a Sr. Brandeis, foi enviado um pedido de busca  polcia 
espanhola. E, por isso, sou da opinio...
Manifestamente, no queriam saber a opinio de Tim. Rigo tinha voltado a elevar 
o seu metro e oitenta e cinco do cadeiro; os seus olhos tinham-se tornado 
pequenos. Dirigiu-se a Helene Brandeis, que o olhava com um sorriso simptico, 
quase sobrenatural. Depois, falou-se muito espanhol. Helene vasculhou na sua 
carteira e no s tirou o seu passaporte, como tambm a pasta castanha de 
documentos com as guarnies douradas. Abriu-a, e l estavam novamente as 
folhas de telefax e o texto de "Paschke-Wiesbaden". Com os seus olhos azuis 
bondosos e o sorriso apagando qualquer resistncia, mantinha o papel debaixo 
do nariz de Rigo e traduzia.

Tim fumava um cigarro atrs do outro. O sargento esfregava com o indicador 
direito o nariz grande e vermelho do sol, do qual saam pequenos farrapos de 
pele. Depois, pediu o telefone ao homem do bigode, fez perguntas, esperou, 
disse algumas vezes comprendo e d'acuerdo e voltou a desligar.
- No temos qualquer pedido de participao na busca. Isso compreendeu Tim. 
No era uma derrota, mas sim uma catstrofe. Helene voltou a guardar os 
documentos com amabilidade:
- Ento a informao deve estar a chegar, senhor.  apenas uma questo 
de horas. Sei isso muito bem...
- Parece saber muita coisa.
- Obrigada - retorquiu Helene, como se tivessem elogiado o seu vestido de 
flores de Outono. - Posso oferecer-lhe uma cigarrilha?
- No fumo, senhora - disse Rigo. Tim voltou a intrometer-se. Apontou para 
o papel, sobre o qual se via a cabea de um homem, e que devido ao fax no 
estava bem clara, mas um pouco borrada.
- Este homem vive aqui sob um nome falso.
- Isso j me disse a senhora. Mas ele no est registado, transmitiram-me 
da central. Nem sob o nome de Fred Fischer, nem Alfred Fraser. Portanto, no 
possui residncia, nem tem qualquer autorizao de estada. Porm, Son Vent  
conhecido...
- O homem  paraplgico. No me diga que no se descobre se em Son 
Vent vive uma pessoa com cadeira de rodas.
- Mas isso  possvel, por que no? Basta telefonar para Capdepera.
- Um homem de cadeira de rodas...? - O homem do bigode fez rodar a sua 
cadeira giratria, os seus olhos estavam atentos e pensativos simultaneamente: - 
Um momento...
Helene Brandeis comeou a falar com o rapaz e ele acenava com a 
cabea, falando tambm muita coisa.
Ela virou-se para Tim:
- Talvez no tenha nada a ver com o caso. Paraplgicos, h-os em toda a 
parte. Mas aqui o nosso jovem amigo observou Uma coisa bastante interessante. 
Trata-se de um iate a motor. Viu-o atracar em Puerto Pollensa. Uma coisa 
grande, com uma risca verde no costado. Deve ter sido bem caro. O homem, no 
entanto, manifestamente o proprietrio, era paraltico. Empurravam-no para terra 
numa cadeira de rodas.
Parecia um pequeno impulso elctrico: dentro do corpo de Tim, comeou 
a crepitar. No tinha uma imagem clara em que pudesse encaixar o que lhe 
diziam agora, mas, mesmo assim, condizia de certo modo com os seus 
pressentimentos: um homem numa cadeira de rodas?... Paraplgico? sobretudo 
estrangeiro. Esses tinham de ser raros. O que procuravam era um estrangeiro 
rico, mesmo muito rico.
- Pergunta-lhe se j viu esse barco perto do Formentor?
O polcia abanou a cabea.
- Mas que se passa, Tim?         
Tim mordia com fora na haste dos seus culos de sol, sem se aperceber 
disso.
- Acho que vejo uma possibilidade. Conheo uma pessoa... vou at ao 
porto.
- Por causa do barco?         
Ele disse que sim.         

Ela hesitou. Sob as manchas de rouge nas suas faces, a pele tinha um 
aspecto plido e estava coberta de imensas rugas pequeninas; porm, os olhos 
continuavam a brilhar cheios de energia:
- Mais uma coisa, Tim: este gordo espantoso aqui deixou-se persuadir e 
vai averiguar em Capdepera. E j. Acho que deveramos seguir com ele.
- Mas ento no ests cansada, Helene?
- Cansada? Mas que  isso?... No, nem um bocadinho. Apenas a minha 
articulao. No quer, mas eu quero.
- Vs, por isso  melhor...
- Melhor ser eu calar as minhas sandlias e deito fora estes sapatos do 
diabo aqui para o cesto dos papis. Depois sigo com ele. No vou larg-lo. 
Promessas fazem eles muitas, mas quando se trata de agir, s dizem manhana.
Ele acenou com a cabea.
- Bem. Onde nos encontramos? Pablo Rigo levou-os at ao mapa grande 
ao lado da porta de entrada.
- Aqui, a estrada para Capdepera e Cala Ratjada. Ali, a linha tracejada,  
o caminho para Son Vent.  uma estrada particular. Foi construda quando 
alteraram a propriedade.
- J conhecemos - disse Helene Brandeis e colheu de Rigo um olhar 
interrogador e uma testa franzida. Mas ela achou suficiente a explicao e no 
disse mais nada.
- Pois bem - disse Rigo. - O melhor ser encontrarmo-nos em Capdepera. 
Pergunte pelo Bar Can Pines. No se esquece?
No, no se esquecia.
- Pronto, l estaremos, mister. E depois pode levar novamente a lady. 
Impingem-me cada coisa...
Foi a primeira vez, desde h dois dias, que Tim voltou a ter vontade de 
sorrir. E sorriu. Foi buscar as sandlias de Helene e voltou para trs, a fim de 
entrar no Seat...
Tomeu estava sentado no seu barco. Segurava um bocado de madeira na 
mo e estava a raspar algas secas e conchas de um bocado de chapa metlica 
pintada de verde. S olhou para cima quando o barco comeou a balouar sob o 
peso de Tim.
- Hola! - Tomeu piscou os olhos contra o sol j baixo. - Encontrou a sua 
mulher?
Tim abanou a cabea.
- Lamento. Sinceramente...         
Tim sentou-se em cima da capota do motor e ofereceu-lhe cigarros. 
Tomeu apenas abanou a cabea e continuou o que estava a fazer.
- Diga-me, voc conhece as pessoas que aqui tm iates, e os prprios 
barcos, no? Quero dizer, iates a motor...
- Mas que tenho eu a ver com iates a motor?
- Conhece-os ou no conhece?
- Depende...
- Trata-se de um barco que j esteve em Puerto Pollensa.
Talvez esteja agora em Cala Ratjada... - Tim fumava o seu cigarro e 
pensou no que o jovem guarda tinha contado e Helene Brandeis traduzido.
- Um iate grande, mesmo grande, a motor. Todo moderno. Aspecto 
aerodinmico e uma lista verde no costado.

- Tem um radar?
- No sei.
- Hm. - fez Tomeu e pousou finalmente o seu bocado de chapa. - Pode 
ser...  um iate italiano supernovo. Tem duas listas verdes. Uma coisa enorme. E 
no s: at tem uma espcie de telefrico a bordo. - Riu-se. -  praticamente o 
nico iate a motor que conheo com telefrico prprio.
- Telefrico...
- Sim, dois cabos de arame. Seguem tambm para baixo do convs e 
para a ponte. Uma cadeira de lona est l engatada e, alm disso, tem um cinto. 
O proprietrio ...
- Paraplgico? - Tim quase no conseguiu pronunciar a palavra.
Tomeu acenou com a cabea.         
- Ele tem uma finca perto de Capdepera. Um alemo. Ento conhece o 
barco?
Tim abanou a cabea.
- No, no o conheo. E como  o nome do iate?
- Melissa - respondeu Tomeu.

17 horas.
O sol j baixo coloria as paredes caiadas das casas quando Tim conduziu 
o carro para a Calle Mayor da pequena cidade. Teve dificuldade em encontrar o 
bar. Reconheceu-o pelo reclame azul e branco da cerveja San-Miguel e pelos 
dois LandRover da polcia. Quando parou o carro no lado oposto da rua, viu Rigo 
caminhar ao seu encontro: de mos nos bolsos, balouava, inclinado, pela rua.
- Alguma novidade, Doutor?
- Primeiro voc!
Rigo sorriu. A barba cinzenta nas suas faces estava mais comprida que 
anteriormente, mas a sua indolncia parecia ter desaparecido.
- Sim, bastante. Agora tambm andam  procura de Fischer aqui. A velha 
senhora tinha razo. No o sabiam na central, mas entretanto entraram em 
contacto com o departamento de droga da Polcia Nacional.
- Pois, as competncias... no ? - Tim tentava com um sorriso lutar contra 
o forte bater do seu corao.
- Exacto! Em Palma est tudo num alvoroo, o diabo anda  solta. Com o 
seu Fischer, ficmos com um grande cmico de cadeiras de rodas!
- Muito engraado - disse Tim. - E a minha mulher?
- Foi chamado um helicptero. J no vai demorar muito, deve estar 
prestes a chegar.
- Helicptero? Porqu um helicptero? Deus do cu, que se passa com 
Melissa?
Rigo apenas olhava para ele.
- Oua, Rigo, se agora disser outra vez "tudo em ordem, no se preocupe", 
vai ver o que lhe acontece. Que quer isso dizer, helicptero? Quer entrar nele? 
Quer comear com uma aco? Ser que vai haver tiroteio? E os ces de guarda 
l em cima?

E decerto que no existiam s eles, pensou Tim. Um homem como 
Fischer, um chefe da droga, um mafioso louco, quem sabe que gente tem 
consigo, caramba! Deve ter guardas. E depois o helicptero? O que ele mais 
temia era uma dessas cenas loucas que se vem em filmes: um grupo de 
comandos que salta do helicptero com metralhadoras. Tiros. Cargas explosivas. 
E Melissa no meio daquele inferno de destruio!... Rigo deitou-lhe um dos seus 
olhares frios e calculistas:
- O helicptero, Doutor? O helicptero vem porque aquilo est vazio.
- Que  que est vazio, por amor de Deus?
- Pergunta isso mesmo a srio? Son Vent,  claro. Fischer fugiu. E com 
tudo. Ali s ladram os ces. E esto to loucos que no resta fazer mais nada a 
no ser mat-los.
- Fugiu... - repetiu, Tim atnito.
- No deve ter levantado voo... foi para o porto e pronto.
- Saiu com o Melissa?
- Certo. E agora tambm posso fazer uma pergunta? O nome no lhe 
parece familiar?
Tim olhou para ele. No podia bater-lhe, isso no, e porqu? Alm disso, 
sentia-se mais do que abatido. Mas um helicptero? Pelo menos, tinha 
alcanado uma coisa: finalmente estavam a levar a srio este jogo horrvel. Um 
helicptero significava uma entrada em aco  grande, e talvez Rigo no fosse 
assim to mau... "Vamos apanh-lo!", pensou, com uma esperana crescente, 
selvagem, desesperada. Vou apanh-lo! E depois vou tratar dele...
No Land Rover, o radiotelefone crepitou. O guarda enfiou o tronco para 
dentro do carro, ofegante. Levantou o auscultador e deu uma resposta naquele 
dialecto cantarolante de Maiorca.
Tim sentiu como as suas solas dos ps comearam a formigar nos 
sapatos de tnis. O suor corria-lhe pela testa. Limpava-o com as costas da mo; 
porm, desta vez no era o calor que lhe fazia subir a gua at aos poros.
L estava Rigo novamente, o sorriso de Rigo, toda a sua serenidade 
gordurenta, que no se deixava abalar por nada.
- Agora oua, Doutor, temos um outro problema. A sua velha lady... ela tem 
qualquer coisa com as pernas, no podia andar muito bem. Por isso, deixmo-la 
ali no caf, do outro lado da rua. V, ali, ao p do reclame da Coca-Cola? Eu 
queria ir l ter com ela, mas como o senhor est agora aqui... Voc  que  o 
doutor, no eu.
Tim s acenou com a cabea. Quis dizer "muito bem", quis voltar-se, mas 
ficou ali, inclinando a cabea para a nuca, como Rigo, e levando a mo  testa, 
para proteger os olhos do sol.
J tinha distinguido o rudo h pouco, mas ainda no o tinha registado. Um 
rumor, um taque-taque-taque ritmado, como se uma toalha pesada e molhada 
estivesse a ser rodopiada numa caldeira. E ali estava ele: os rotores 
cintilavam, a 
forma longa de liblula pairava sobre um telhado composto de tijolos j antigos. 
Tim iria mais tarde lembrar-se de cada um daqueles segundos, mesmo do facto 
de existirem naquele telhado quatro antenas de televiso.
- Ora a est, Doutor! A vem o meu transporte! At logo. Pode 
telefonar-me para Pollensa.
- O raio  que eu vou ficar aqui! Rigo podia permitir-se usar 
moderadamente as palavras. Bastava levantar as sobrancelhas.
- Tem ali uma paciente, Doutor, se entendo bem.

- Sim, entende bem. Mas o paciente est a aguentar-se bem. Conhece-o. 
Vou consigo.
Rigo no ouviu as ltimas palavras, porque ia a entrar no RandRover. Eram 
precisamente dezassete horas e vinte minutos. E Tim no estava disposto a ver 
partir Rigo e o carro, pelo menos sem ele. E como no lhe ocorreu mais nada 
para impedir a partida, agarrou no cinto da farda de Rigo e puxou-o.         
O sargento voltou a cabea, e na sua cara estampou-se uma certa 
admirao.
- Que vem a ser isto?
- Nada. S que tambm vou.
- Ah, sim, vai? Para onde?        
 Tim apontou com o queixo para os telhados. O helicptero tinha 
desaparecido, apenas o assobio claro da turbina pairava ainda no ar. Parecia 
estar a aterrar.
- Vou tambm - disse Tim. - Onde  que ele est agora?
- No campo de jogos. E voc vai para o caf. Ouviu?
- Isso  que era bom! Nada disso! - Mas para Tim Tannert havia naquele 
segundo apenas uma nica realidade que o dominava: a vontade, custasse o que 
custasse, de estar presente, quando aqueles doidos da pior espcie estavam a 
pr Melissa em perigo. Alis, ainda no estava esclarecido se Melissa no seria 
talvez um desses doidos. Mas, mesmo assim...
Tinha aberto a porta e atirara-se para o assento traseiro do Land Rover.
- Um momento! - Rigo voltou-se, os olhos escuros brilhavam como 
advertncia. - Doutor, no sou o brincalho que voc pensa manifestamente que 
sou.
- Eu tambm no.
- Ento, fora.
- Oua, Rigo, posso ajud-lo. Quem sabe o que vai acontecer... Afinal sou 
mdico... E no  a primeira vez que entro numa aco de helicptero. Como 
mdico de emergncia em
Essen andei muitas vezes numa coisa dessas. Por isso, vou consigo. Seja 
razovel.
- Razovel? Eu?!
- No, seja simptico, seja bonzinho, seja o que quiser ser, mas deixe-me 
ir consigo, por amor de Deus!
Rigo acenou com a cabea para o seu motorista:
- Vamos embora, Tonio! - E depois ainda disse: - No sei o que tenho, 
Tonio, por que razo h-de acontecer sempre isto comigo? Sou como papel 
mata- moscas. Todos os imbecis, todos os malucos se colam a mim e fazem-me 
a vida negra.
O piloto no tinha desligado a turbina, as asas do helicptero giravam, 
sibilando baixinho, em ponto morto, quando saram do Land Rover. Rigo deitou 
rapidamente um olhar a Tim, depois apontou com o queixo, num gesto decidido, 
em direco ao helicptero:
- Vamos embora! Baixe a cabea.
- No  preciso dizer-me isso.

Seguiram juntos nos primeiros passos, depois Rigo parou, acenando para o 
carro. Tim viu como o motorista saltou do carro e veio a correr, trazendo na mo 
uma metralhadora e algumas munies.
- Quase me esquecia - rosnou Rigo -, normalmente tm isto a bordo, mas 
nunca se sabe...
A porta lateral da cabina estava aberta. Os dois homens sentados  frente 
estavam fardados e tinham capacetes cor de laranja na cabea. O piloto analisou 
os instrumentos e sorriu, enquanto o seu colega falava para o microfone.
- Vamos, Doutor, voc primeiro! O lugar ali ao lado do guincho.
Tim acenou com a cabea. Sim, ele conhecia aquilo tudo, at mesmo o 
cheiro, o som das turbinas, que parecia propagar-se ao corpo e depois o 
arrancar sbito, semelhante a um elevador. Tinha colocado o cinto de segurana 
e, atravs do vidro, viu uma fortaleza, muros antigos, as pequenas casas e 
estradas... Atrs deles ficou a propriedade de Fischer e  frente alongava-se 
ento, cheio de inmeros reflexos do sol, o desenho das ondas, semelhante a 
uma tbua de esfregar roupa.
H quanto tempo j estavam no mar? Tim no o sabia. Vinte, talvez trinta 
minutos? No tinha olhado para o relgio quando levantaram voo. Estava 
acocorado sobre o assento de plstico estreito e desconfortvel, diante de si os 
ombros largos de Rigo, com a metralhadora pousada sobre as pernas. L  
frente, os dois capacetes cor de laranja da tripulao do helicptero.
De novo o rudo no altifalante. O piloto ia transmitindo as suas informaes. 
A intervalos regulares, trocava frases em espanhol com a sua central.
As paredes laterais do helicptero eram compostas de placas de plstico 
abauladas e amovveis. A da direita estava deslocada para trs. O vento entrava 
com fora. Puxava pelos cabelos de Tim. e enchia a cabina estreita com o 
assobio da turbina, o cheiro a gasolina e gases de escape.
Mas l em baixo, sobre a superfcie azul do mar, agora coberta de um 
brilho dourado devido ao sol j baixo... talvez trezentos metros mais abaixo, 
navegavam sobre a gua azul-escura, quase negra, navios de brincar...
Era um quadro bonito, um quadro alegre. E Tim pensou como Melissa,  
partida para Maiorca, ainda no aeroporto de Riem, o fizera prometer uma coisa 
sagrada, em que ela insistira com fervor e com a seriedade profunda de uma 
criana.
- Ns vamos sair com um barco, Tim Tannert! Fica combinado, est bem?
- Est bem. Vou alugar uma gaivota.
- Qual gaivota!
- Ento um barco com motor.
- Tambm no. Uma coisa com velas, Tim!
- Mas eu no percebo nada de vela. E ainda por cima no mar! Ests 
maluca?
- J que queres morar num hotel de milionrios, Tim Tannert, e no 
precisas de pagar um centavo, ento podes muito bem arranjar, por um ou dois 
dias, um barco com tripulao. Nem que seja s composta por um homem...
- Est bem...

- Prometido?        
 Ele tinha acenado com a cabea.         
Um barco com tripulao...        
 Agora, ela tinha-o, o seu barco com tripulao! S a ideia dava-lhe uma 
pancada no corao.
A turbina alterou o som. Este tornou-se mais claro, mais forte.
O aparelho acelerou e, com a cabea de vespo revestida a vidro acrlico 
dirigida para baixo, lanou-se para a frente.
Deviam estar a voar sempre em frente, pensava Tim, que de vez em 
quando se orientava, olhando para a costa, onde os montes de Capdepera se 
diluam na neblina. No, no havia hesitao, nem crculos de busca; seguiam 
sempre em frente.
Tim ps a mo sobre o brao de Rigo, inclinou-se para a frente e gritou-lhe 
para o ouvido:
- Para onde  que ele vai?
- Ento para onde h-de ir?
- Ele conhece a posio?         
Rigo abanou a cabea.
- No. Mas a direco. Esses l em baixo conhecem-na. Aqueles l em 
baixo? - A mo do sargento apontou para os barcos:
- Pescadores. Uma frota inteira. O Melissa passou a toda a velocidade 
pela rea de pesca deles. Aborreceram-se imenso e, quando a guarda costeira 
perguntou, conseguiram reconstituir a rota.
Era ento isso...         
Tim encostou-se para trs e fechou os olhos. Gostaria de fumar um cigarro 
nesse momento, mas no era possvel. iria aguentar. E deixaria de novo de 
fumar. Sim, iria conseguir. Assim como iria ultrapassar aquela sensao dorida, 
tensa, que fazia vibrar o seu crebro, afugentando qualquer sinal de cansao e 
exausto.
Talvez tambm fosse o medo?... Que iria acontecer em cinco, dez, em 
vinte minutos? Sobretudo, que iria acontecer a Melissa? Melissa no iate 
Melissa...
Era uma loucura! Uma loucura horrvel que se disfarava de realidade... 
Assistia ento  pior experincia da sua vida, e tinha de reconhecer 
simultaneamente que no era s horrvel, mas tambm grotesca...

Era a segunda vez que Melissa procurava libertar-se do aperto sombrio e 
atoladio dos psicofrmacos, tentando decifrar os primeiros sinais da sua 
conscincia que despontava: farrapos de pensamentos. Imagens. Depois 
rudos... O zumbido de um motor pesado, mas distante. Um balouar que se 
colava como um peso sobre o seu corpo - e o bater de ondas...
Moveu os cotovelos para se sentar. Os seus nervos pticos comearam a 
trabalhar. A boca estava seca, a garganta tambm, as tmporas doam-lhe; 
porm, conseguiu distinguir o que estava  sua volta: contraplacados brilhantes 
em mogno, dois sofs de couro, um roupeiro, e, quando voltava a cabea, podia 
ver a forma oval de uma vigia. L fora, bocados de espuma, gua que se erguia 
da proa de um barco.
Um navio!

Estava num navio. Cus, com que destino?!
Pressionou as pontas dos dedos contra o couro cabeludo, empurrou-as, 
para um lado e para o outro, massajou depois as tmporas na tentativa 
desesperada de se ver livre daquela presso aguda e desagradvel, sentindo 
depois qualquer coisa quente e dorida no nariz, que subia para os olhos e para a 
testa.
Pensar... reflectir! Que acontecera? Sim, a injeco, ainda se lembrava. A 
injeco e aquela cena terrvel, quando Matusch a segurava, violento e brutal, 
como o talhante segura a vitela.
Fischer tinha-a injectado... e a dose no podia ter sido to forte como da 
primeira vez, seno no conseguiria lembrar-se logo de tudo.
Com as costas das mos, esfregou os olhos, tentou erguer-se, mas um 
movimento forte do navio f-la cair de novo sobre a cama. Tinha de ser um navio 
pequeno. Que horas seriam?
Olhou para o relgio de pulso: faltavam poucos minutos para as seis.
Com que ento num barco, posta l como uma encomenda postal. E para 
onde a mandava ele? Ser que tambm ia a bordo? Que tinha acontecido? O 
terrao... depois a tentativa de fuga pelo muro, que fracassara... Pouco antes 
das 
seis. Deus queira que fosse o mesmo dia?!
"Tudo isto me pe to triste, meu corao."         
Isso ainda tinha sido no terrao. Mas havia ainda outras frases. Que tinha 
ele dito quando Matusch a trouxera para o seu gabinete de trabalho, arrastando-a 
at  cadeira de rodas?
"Mau para ambos, Melissa."         
E mais: "No temos tempo para falar. Mais tarde."         
Por que no? Por que razo no lhe tinha feito um daqueles discursos 
habituais? Que queria dizer: "no temos tempo para falar?" E que seria: "mais 
tarde"?
E a seguir havia ainda uma frase, no para ela, mas dirigida a Matusch: 
"telegrafou de novo. Temos de nos despachar".
O barco, agora. Teria Fischer fugido? De quem? A ideia provocou-lhe um 
arrepio nas costas. Ela teria trocado a priso em terra por uma cela no mar?
Encostou a cara  vigia. L ao longe, no horizonte, que era cortado de vez 
em quando por cristas de ondas, viu um petroleiro. Ali havia pessoas. Ali havia 
ajuda. Ali havia um aparelho de rdio para chamar Tim...
Tornou a ficar mal disposta. Segurou-se, viu o lavatrio que estava 
embutido num armrio.
Conseguiu caminhar trs metros, abriu a torneira e deixou correr a gua 
sobre as mos para lavar a cara umas poucas de vezes de seguida. Molhou o 
cabelo, massajou o couro cabeludo e as tmporas e, com pequenas e rpidas 
pancadas nas faces, tentou mobilizar novamente o raciocnio. Uma nova situao, 
igualmente louca como a anterior... Que fazer? Tinha de se lembrar de uma 
soluo. Qualquer coisa que se pudesse fazer, em vez de esperar, condenada  
resignao. C'os diabos, quando  que o aparelho da sua cabea comeava a 
funcionar?

"O ser humano no  mais que uma mquina, meu corao, Nada mais 
que um sistema... " E de novo as palavras de Fischer. "Um sistema que se deixa 
influenciar pelo trabalho dos neurotransmissores, da carga da energia nas vias 
dos nervos at  combinao das matrias hormonais - tudo possvel de 
dominar..."
Melissa combateu o desejo de vomitar. Depois, quando o seu estmago 
voltou a acalmar-se, sentiu-se subitamente melhor. No esperar, era isso! Fazer 
algo, adaptar-se  nova situao - de qualquer maneira. O barco movimentava-se 
com dificuldade. Melissa cambaleou, segurou-se no puxador da porta e 
pressionou- o. Fechada! Bem, isso no era novidade nenhuma. Talvez fosse uma 
questo de hbito. Mas felizmente no era o estilo de Fischer deix-la 
encarcerada durante muito tempo. Tinha-o provado em Son Vent. Quanto mais 
decididamente ela lhe mostrasse que no gostava daquele tratamento, melhor.

18 e 10
Melissa batia com os punhos contra a porta:
- Abram! - No gritou mais e olhou  sua volta. Descobriu um cinzeiro 
pesado e agarrou-o. A madeira da porta rachou quando ela lhe comeou a bater 
com a pea de lato.
De fora, algum lhe disse qualquer coisa. Melissa baixou o cinzeiro, mas 
manteve-o na mo.
A porta abriu-se. Um homem novo estava  sua frente; manifestamente, um 
membro da tripulao. Trazia vestida uma T-shirt s riscas azuis e brancas e 
calas azul-escuras. A cara evidenciava uma mistura de ameaa e embarao.
- Por favor, senhora, que est para a a fazer?
- Quero sair! Onde est Fischer?
- Por favor, senhora, um momento...         
Ele no teve dificuldade em empurr-la. A porta fechou-se de novo e 
Melissa pensou no que poderia fazer. Tornou a ir para o lavatrio e bebeu um 
pouco de gua, para apagar aquele ardor seco da sua boca. Quando se virou, viu 
a porta aberta.
- Por favor, senhora!         
Ela seguiu para um corredor iluminado. O cho tinha uma alcatifa de cor 
amarelo-mostarda, com desenhos azuis. No fim do corredor havia uma porta 
oscilante. Abriu-a, e a primeira coisa que viu foi a silhueta escura, quase 
quadrada, do tronco dele. E a luz que os seus culos reflectiam.
Ele encontrava-se sentado  sua frente, do outro lado daquela sala 
elegante, surpreendentemente grande, que aparentemente devia ser o salo do 
iate. Por cima dos seus ombros, ela podia avistar o mar e a espuma na popa. Os 
motores iam a todo o Vapor. No salo, viu sofs confortveis, uma mesa rodeada 
por bancos estofados a couro preto.  esquerda, um bar,  direita, uma pequena 
estante com livros, e  frente desta dois cabos de ao brilhantes que passavam 
por todo o lado direito e terminavam debaixo do assento de Fischer e cujo 
sentido Melissa no conseguiu entender.
Alm disso, havia ainda outra coisa: o quadro de uma mulher cujo corpo nu 
estava envolto num cabelo longo, vermelho-dourado. Era uma cpia ou uma 
fotografia a cores do quadro que j tinha visto em Son Vent.
- Meu corao - ouviu Melissa a voz indolente, mas divertida -, 
recompuseste-te depressa. Estou contente.
- Sim! - disse ela furiosa. - E quando acordei daquela porcaria que me 
deste, encontrei novamente a porta fechada.

- Porcaria? -  segunda parte do que ela dissera, no ligou.
- Ora, Melissa... - Novamente o seu riso. - Precisamente no teu caso, dou 
uma dosagem com tanta delicadeza, experincia e tambm sabedoria, que no 
se pode falar de uma porcaria, se me permites. Tu prpria s a prova disso.
O cho moveu-se de novo sob ela. O mau-estar voltou a subir-lhe ao 
estmago. Segurou-se a uma das colunas que suportavam o tecto da cabina.
- Que quer isto dizer, Fred? Por que razo estamos aqui? Quais so os 
teus planos?
No podia ainda distinguir a cara dela, mas a voz estava alterada. 
Mantinha o tom irnico, mas agora era mais dura, clara e decidida.
- Que resposta queres ouvir, Melissa? Matusch apanhou-te ao p do muro. 
Saltar por cima, fugir? No!... Se me perguntas, foi uma deciso sem estilo, 
minha pobre...
- Que  que tinhas esperado?
- Sim, tens razo, meu corao: no podia esperar outra coisa. Ainda no 
podia...
O corpo dele moveu-se, quase sem rudo, e esse movimento era 
acompanhado por um leve zumbido de motor elctrico. Como um soldado de 
carto numa barraca de tiro de feira, deslizou sobre os cabos de suporte pela 
cabina. A imagem era aflitiva e sinistra. Parou um pouco  frente dela. Agora 
Melissa via a cara dele. No sorria, os olhos por detrs dos culos eram 
pequenos.
- Bom, talvez estejamos quites. Foi a segunda injeco. E injeces nunca 
so agradveis, nem mesmo as mais fracas que te dou. - Riu baixinho, mas no 
era um riso bom. - Exigi demasiado de ti, no exigi, meu corao? Agora vai tudo 
mudar. Tudo vai ser diferente...
- E o que vai ser diferente?
- Bem, como hei-de dizer? Chamemos-lhe a condio prvia da nossa 
reunio, Melissa.
- A condio prvia?         
- Mas  bvio! Talvez eu tenha cometido um grande erro, por te trazer 
primeiro para Son Vent. De qualquer maneira, eu queria, digamos, deixar de ver 
a propriedade por umas semanas, ou at meses. Para isso, existem vrios 
motivos... no te interessam. Ou interessam?
Uma pergunta retrica, como quase sempre. Era desnecessrio 
perguntar-lhe pelos motivos. J o seu olhar, aquele olhar atento e sempre  
espreita, dizia-lho.
- Bem, em todo o caso, tinha a inteno de te levar comigo para o barco, 
Melissa. J ontem. Mas havia algumas coisas que tinham de ser tratadas 
primeiro com certa urgncia, antes de partirmos. E depois...
O riso dele! A boca larga, vermelha, transformou- se numa careta que 
queria exprimir troa.
- Depois, Melissa, tomaste a iniciativa  tua maneira.        
 Ela no tinha vontade de brincar. Sentou-se no banco que corria  volta do 
salo e fitou-o:
- Para onde vamos, Fred?         

- Para onde? Queres que te desvende um segredo? O mundo no  s 
redondo, como tambm  bonito... E depois, tenho os meios, de certeza que 
tenho, de tirar do mundo o mais bonito do bonito. Vs,  simples...
- Nada  simples. Para onde?
O sorriso dele no se alterou. Devia registar a patente, pensou ela, 
amargurada.
- Primeiro, seguimos para Marbelha. Tenho l alguns amigos, digamos 
parceiros de negcios, que tenho de visitar. Talvez no tenham o estilo de que 
eu 
gosto. Mas sabem viver. E o que  mais importante: vo receber-te de braos 
abertos. Vo tratar-te como uma rainha.
- Outra vez?         
Tambm isso no o abalou.
- Claro, como uma rainha. Como tu mereces, Melissa. Num ambiente real.
- E depois?
- E depois... - Os dedos castanhos de Fischer danavam o seu bailado 
habitual sobre o comando da cadeira. Espetou o indicador, levantou o brao, mas 
pareceu que aquele dedo estendido, que apontava para o incerto, tinha um efeito 
sobre o brao. Talvez fosse um movimento normal, mas a forma como o 
executava, aquele sorriso, as suas ideias enroladas... Ela no sabia o que ele 
tinha tomado, mas uma coisa era clara: encontrava-se sob a aco de uma das 
suas substncias.
- Por que ests a olhar assim para mim?
- Estou? - ela sorriu tambm. - Desculpa, caso isso te incomode...
- Incomoda, sim. Assim como olhas, incomoda-me. Faz uma cara simptica.
- E que  isso? Agora ele ria-se  socapa. Parecia ser uma pergunta ao gosto 
dele.
- Sim. Simptica? Em ti nada  simptico. Simpticas so as criadas de cozinha 
ou secretrias. Mas no posso dizer: faz uma cara bonita. Essa j tu tens. Isso 
 a 
caracterstica da perfeio. O homem no encontra na sua linguagem uma 
designao para isso.
Ela fechou os olhos. Talvez a voz no fosse to m como o seu olhar de louco...
- Para onde vamos? - disse Melissa. -  disso que se trata.
- Mas isso  completamente insignificante. Eu falo de perfeio, Melissa. E no 
se trata da perfeio da forma, mas da perfeio da vida. Eu tenho esta 
possibilidade de perfeio na mo. No ma ofereceram, trabalhei por ela durante 
muitos anos, arduamente.
- Queres dizer, nas tuas drogas?
- Drogas... Ah, Melissa, mas que designao mais idiota. Acho que no existe 
uma palavra que no tenha sido to gasta, maltratada e ofendida... Talvez fosse 
prefervel falar de uma chave... que achas? A chave para os desejos reais, que 
temos dentro de ns, a chave para o reino celeste, que ns prprios podemos 
construir...

Fischer foi o primeiro a ouvir o rudo. O seu brao, que a queria tocar com 
suavidade, desceu e a cabea pesada voltou-se, ficando  escuta.
L estava outra vez: um estalar, uma sequncia de pequenos golpes a 
soprar, agora mais fortes, insistentes e mais altos.
Um helicptero? S podia ser um helicptero...         

Porqu aqui? Que quereria ele? Devia estar j bem prximo do iate, 
porque o assobio da turbina enchia toda a cabina. Melissa olhou para Fischer. 
Este ainda no dizia nada, puxou apenas o lbio inferior entre os dentes. 
Inclinou 
a cabea um pouco para o lado e olhou para ela como se esperasse uma 
resposta. Com um ar interrogador e nem mesmo surpreendido, mas antes 
ofendido por algum ousar interromper as suas realizaes de uma forma to 
vulgar.
Houve ainda uma segunda interrupo: atravs de Matusch. No entrou 
pela porta da cabina, mas veio lanado, num passo elstico. No tinha aquele ar 
altivo. Toda a sua cara tremia de nervoso.
- Guarda costeira, Doutor! Temos de parar!
- A guarda costeira? Mas ento, no estamos j...
- No, ainda no nos encontramos em guas internacionais, Doutor. Agora 
no posso ir verificar isso... Mas eles exigem que desliguemos os motores.
O estalar tornava-se cada vez mais forte. Fischer deitou um olhar irritado 
para a direco de onde vinha o rudo, mas no disse nada. Tirou os culos e 
ficou a observ-los como se estivesse a pensar se no Seria melhor comprar uns 
novos. Voltou a p-los.
- Ento, Matusch... e agora? Que Prope voc?
- Que proponho? - Era como se Matusch lhe cuspisse a pergunta para os 
ps. - Essa  boa! Agrada-me, Doutor! Temos quase uma tonelada de produto a 
bordo, e o senhor pergunta-me o que eu proponho?
- E por que no? Fischer tinha voltado a sorrir, aquele sorriso areo, quase 
sonhador, de um louco.
- Mas  o que tenho de fazer, Matusch. Quem  o especialista nestas situaes? 
Voc. Ou digamos que voc me foi indicado como tal pela sua organizao. Para 
isso, recebe uma fortuna.
De Matusch veio um som impaciente, mal-disposto. Mexeu a boca, mas o 
rudo do barco, que seguia a todo o vapor, varreu-lhe as palavras.
- Ento, Matusch, vamos embora!         
Fischer mexia nas suas calas azul-claras. Pareciam compor-se apenas 
de vazio e ar.
- Estou  espera, Matusch...         
Este s o fitava.         
Fischer riu baixinho:
- Ento, quer parar?
Matusch virou-se e arrancou o auscultador do intercomunicador da parede:
- Acelera! - bufou. - ouviste? Acelera! E no em frente, mas em 
ziguezague! 
Mais uma vez, o seu olhar cinzento seguia de Fischer para Melissa. 
Depois, saiu a correr. 
- Acelera! - escarneceu Fischer. - Encolhe a cabea, fecha os olhos e em 
frente. Isto  tudo o que lhe ocorre. Meu Deus, que cretino...
- Uma tonelada de produto a bordo, disse ele... Que  isso, Fred?
- Ah, Melissa, tambm tu vais comear? - O riso de Fischer soava 
bondosa e suavemente. - interessa-te mesmo? - Abanou com a cabea. - Parar - 
disse com um ar sonhador -, parar as mquinas? Queres saber uma coisa, 
Melissa? Nunca paro. E ningum mais pra as minhas mquinas...

Lentamente, meteu a mo ao bolso direito do casaco, tirou de l uma 
caixinha com que se ps a brincar pensativamente. Enquanto o rudo, aquele 
cantar claro e alto, parecia cortar o barco, ele perdia-se num sorriso estranho. 
Os 
olhos estavam fechados. Depois, abriu-os e disse:
- Iria ser uma viagem bonita, mesmo muito bonita, meu corao, mesmo 
que no acreditasses nisso... Talvez te faltasse um pouco de fantasia, mas 
digo-te: a felicidade, a perfeita felicidade, j tinha os braos abertos para 
nos 
receber. Sim, talvez tambm isto tenha agora o seu sentido...
Isto?         
Dois motores que rugiram, o iate alterou a sua rota e virou de tal forma que 
Melissa teve de se segurar para se poder manter sobre as pernas. Velocidade 
mxima!... Agora j nem se ouviam as mquinas; o cho e casco tremiam. Mas 
Fischer continuava a sorrir; afastou-se dela, as mos dobradas por cima da 
fechadura da caixinha. Lentamente, seguiu pela parede da cabina um boneco 
maior que o tamanho natural, que, como conduzido por uma fora invisvel e 
invencvel, se dirigia para a entrada.
O movimento parou subitamente.         
Fischer acariciava a sua caixinha. Depois largou-a e observou as suas 
mos. Apenas as unhas o interessavam, o que se passava l fora no lhe dizia 
respeito. Voltou a falar. Muito alto, articulando cada uma das palavras, 
alongando 
a boca de uma maneira estranha. Parecia ser importante para ele que Melissa 
percebesse as suas palavras. E era mesmo isso.
- Lamento, meu corao - disse Fischer -, mas no comecemos com 
isso... Sabes que Madalena, tu conhece-la, a empregada gorda de Son Vent, 
sabes que ela disse uma coisa muito inteligente? Matou-me uma galinha. E 
quando ergueu o machado, disse: "Todo tiene su fin." E assim para as 
Madalenas deste mundo: tudo tem o seu fim. Mas no para ns.
- Fred, ouve.         
Ele abanou a cabea.
- No, no ouo. Tu  que ouves. Existe uma viagem mais longa, meu 
corao, mesmo que no acredites.  a viagem das viagens, a viagem 
absoluta... Melissa, decidamo-nos por ela; porque no iniciar essa viagem? Que 
achas? E vais ver como  simples... - O seu queixo saltitava quando comeou a 
rir  socapa. E os olhos! Aqueles olhos horrveis sobre os quais passava um 
brilho estranho, dourado, olhos que pareciam nadar em febre.
-  verdade. Olha aqui... no h tecla nem boto, apenas esta pequena 
alavanca... bonita, no ? Sim, aproxima-te. Pressiono um pouco e j est. 
Comea a viagem. A nossa viagem, Melissa! Aqui no perdemos nada. No 
temos necessidade disso. Fugir? Tu ou eu? Foi-nos traada a grandeza. A 
grandeza da perfeio... Mas quem vai entender isso?... Vamos... No h tiro 
dourado, Melissa, a detonao dourada, a grande e verdadeira exploso, o 
Big-Bang com que a vida neste mundo...         
... Neste mundo. Foi a ltima palavra do discurso fantasmagrico que ela 
ouviu. E tambm a ltima que Fred Fischer pronunciou na sua vida. Mesmo mais 
tarde, quando o raciocnio dela conseguiu perceber o que tinha acontecido 
naquele segundo e como podia ter acontecido, ela voltava sempre a ver de novo 
aquela nica imagem.

Ela viu apenas que os culos de Fischer lhe desapareceram da cara. 
Voaram pelo ar. Despedaaram-se no bar? Quis aproximar-se, estender a mo. 
Virou-se. Fischer? O seu olho direito... o olho que ela ainda h pouco tinha 
fixado?!
Ali se abriu, como uma flor horrvel, um buraco escuro, vermelho...
- Fred! - gritou Melissa.
O tronco dele comeou a inclinar-se para a frente, o sof segurava-o, mas 
a sua cabea balouava sobre os joelhos, quando o barco...

18 e 23.
Os nervos de Melissa no aguentaram mais. O que fazia, no sabia. O que 
iria acontecer era-lhe completamente indiferente. Algures, ouviu uma voz, algum 
gritava. A mulher, que j no gritou, caiu para a frente, puxou-se novamente 
para 
cima, agarrando-se  ombreira da porta - sair, depressa! A viagem das viagens... 
Uma dor aguda f-la voltar a si. Tinha batido com o joelho. Olhou para cima, os 
olhos rasos de lgrimas.
Um cu nocturno, to chamejante como um fogo na estepe. gua a 
espumar. Um barco branco. E ao lado, quase se podia agarrar a grande cabea 
de insecto do helicptero...
- Ateno! Pare!         
Uma mo lanou-a sobre os estofos. Uma voz disse:
- No enlouqueas tambm!         
Matusch.         
Tinha uma grande pistola na mo. O cabelo louro esvoaava  volta do seu 
crnio castanho. Mas os olhos estavam calmos.
- Tive de o fazer! - gritou ele na barafunda. - Ele era doido! Sempre foi! 
Talvez saibas isso melhor que eu.... Mas que l em baixo no casco, alm de tudo 
aquilo, ainda havia alguns quilos de explosivos, isso no sabias tu. E tambm 
no 
sabias que ele segurava na mo o comando para o detonador.
Ela ouviu, mas no percebeu. Estava acocorada quando ele lhe colocou a 
mo sobre o ombro:
Mas que se passa contigo? Por que ests aflita? Escuta, Para ti, pelo 
menos, j acabou. Ou no?
Matusch observou pensativamente a pistola, atirando-a a seguir sobre a 
amurada para a gua.
O helicptero desceu ainda mais. Os patins Pareciam tocar no mastro do 
radar. E depois veio de novo do cu a voz do altifalante, vencendo o barulho do 
bater da gua, dos rotores e dos motores do barco.
- Repito: Pre e desligue as mquinas! Temo-lo na mira. Largue a mulher! 
No faa disparates, seno disparamos!- As palavras eram ditas em alemo!
Matusch nem olhou para o helicptero. Dobrado, correu para os comandos 
e desapareceu.
Os motores emudeceram. E mais uma vez desceu a voz de arcanjo do 
cu:
- Est calma, pequenina - soou -, j passou tudo...
- A viagem das viagens... - disse Tim, absorto.         
Melissa e Tim queriam beber ch, mas Helene Brandeis insistia no 
champanhe.
- Bem, isto  o mnimo que me devem!

E assim beberam no pavilho, como outrora tinha sido previsto, numa altura que 
j no era real, porque parecia ficar para trs uns poucos de sculos - beberam 
Freixenet brut de taas de cristal. Um empregado tinha-o trazido para o 
pavilho. 
Sobre a mesa brilhava o balde prateado com o gelo. As colunas deitavam 
sombras negras e oblquas, os oleandros cheiravam bem e do campo de tnis 
vinha o plop-plop das bolas. Por mais que abordassem a questo, a razo s 
tinha o seu papel quando a emoo a levasse pela mo. Ou o humor. O humor 
negro...
- A viagem das viagens - repetiu Tim, rolando o p da taa entre o polegar 
e o indicador, observando o jogo das bolhinhas que rebentavam alegremente.
- Talvez ele tivesse planeado a viagem desde o princpio? - disse Melissa. 
- Talvez fosse a sua ideia da felicidade perfeita: ir pelos ares... comigo, com 
uma 
tonelada de drogas e com a sua loucura da vida de grandeza e magnificncia? 
Talvez o resto comeasse a aborrec-lo? Pode ser...
A taa de Melissa estava meia vazia. Pousou-a. De sbito, j no lhe 
soube bem. Inclinou-se para trs, olhou para Tim e abanou a cabea:
- ... francamente, quem  que te ensinou isso? - Teve de tossir, quando 
tentou imit-lo: - Pre! Desligue os motores! Temo-lo na mira...
- E tnhamos. O gordo... e algum tinha de falar alemo.
- Pergunto-me onde aprendeste isso? To real como saa do altifalante.
- Vi no cinema. No, na televiso, passaram uma vez uma srie com a 
guarda-costeira.
- Bem calculava.
A velha senhora ria baixinho, envolvendo-se em nuvens de fumo.
Os olhos de Melissa tornaram-se verde-esmeralda, como um lago de 
montanha. O seu indicador brincava com um caracol:
- Olhem s que salvador! Sempre o imaginei assim.        
 - No foi ele - achou Helene Brandeis; e deitou champanhe nas taas, 
primeiro na dela, depois na de Melissa. - Foi o louro!
O Matusch. Foi Rigo que me disse. E nem o vi uma nica vez... meu Deus!
- Talvez se arranje uma fotografia? Com dedicatria. - Melissa puxava 
agora o seu cabelo. - No era assim to bonito, Helene. Quando eu quis passar o 
muro...
Mas por que razo havia de reviver a histria? Lembrou-se de outra coisa:
- Havia um carro vermelho. Um Seat. Por isso  que me agarrei aos fios e 
apanhei um bom choque. Vocs estavam l  espera?
- Ns? - disseram-no simultaneamente, olhando-se. - Porqu? E por que  
que tu...
- Ora... - Melissa inclinou-se para trs e olhou para a baa:
- Nada, apenas algo que podia ter poupado, quando se pensa sobre isto...
- Como  bom estar-se vivo - disse Helene Brandeis com sabedoria. - 
Sobretudo aqui... estas frias podem vocs contar aos vossos netos. - Ela riu o 
seu riso rouco: - Eu, infelizmente j no. No tenho netos. Se outrora, aqui no 
pavilho, me tivesse esforado um pouco mais, aqui na minha cadeira, ento 
talvez...
No acabou a frase. E para qu? Eles estavam to enamorados.

- Ento, brindemos a eles! E ao amor!

FIM
